Desinformação: outra catástrofe depois dos sismos
“Parece que houve um sismo violento na Venezuela. Ainda há dias estavas a falar disso”. Esta foi uma das primeiras mensagens que recebi depois de, no dia 24 de junho de 2026, a minha terra natal ter sido atingida por um duplo terramoto de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala de Richter. Uns dias antes, numa conversa de café, tinha comentado com amigos que, em Caracas, era comum haver pequenos tremores de terra e que me lembrava de o chão tremer mais do que uma vez. Referi que, na escola, recebíamos frequentemente instruções de como proceder em caso de sismo.
Apesar de todas as salvaguardas e dos muitos alertas científicos, ninguém queria acreditar que uma tragédia desta dimensão fosse realmente possível…
Quando recebi aquela mensagem, já tinha conseguido contactar alguns familiares que residem em Caracas. Através do WhatsApp, entre mensagens de texto e áudios, chegaram-me os relatos angustiantes de como conseguiram sobreviver. O pânico foi avassalador. Pensaram mesmo que iam morrer. Como um primo me descreveu, naqueles segundos que pareceram uma eternidade, a família inteira conseguiu sair de casa a muito custo, com os revestimentos das paredes a desabarem sobre as suas cabeças. O apartamento ficou inabitável e o edifício apresentava buracos de tal dimensão que, da rua, era possível ver a mobília no interior de algumas casas. Já a salvo, no exterior, apenas com a roupa do corpo e a olhar para outros edifícios que estavam reduzidos a escombros, deram-se conta de que muitos não tiveram a mesma sorte, não só por não terem sobrevivido, mas porque, no meio de todo aquele flagelo, ficaram subitamente sem casa e não tinham para onde ir. «Isso é triste», lamentou, revelando um espírito de solidariedade profundamente humano.
Só consegui contactar outros familiares quase 24 horas depois da calamidade.
Como as informações oficiais eram, de início, muito escassas, dei por mim a “beber” obsessivamente tudo o que a Internet disponibilizava. Quando o Serviço Geológico dos Estados Unidos lançou uma estimativa aterradora, apontando entre 10 a 100 mil mortos, foi impossível travar a angústia de pensar que os meus familiares incontactáveis pudessem estar entre as vítimas. Nos grupos de amigos e família, multiplicavam-se os vídeos: relatos comoventes, histórias de cortar a respiração e imagens de locais conhecidos reduzidos a escombros. Em cada rosto anónimo, um aperto no coração.
Esta dor era obviamente partilhada por milhares de pessoas, tanto na Venezuela como em todo o Mundo. Todos procurávamos desesperadamente por respostas num oceano de incertezas.
É precisamente neste vazio provocado pela escassez de comunicação oficial que nasce o cenário perfeito para a desinformação. O cérebro humano, refém do pânico e da urgência, perde a sua capacidade de filtro e de pensamento crítico. Porque está num estado de vulnerabilidade extrema, não questiona a veracidade dos conteúdos e, para além de os consumir, partilha-os.
Como tal, logo a seguir à tragédia, as mentiras espalharam-se tão rápido como as ondas sísmicas: circularam áudios virais de supostos especialistas a preverem mega terramotos, anunciou-se um suposto apagão de 24 horas em todo o país, usou-se a inteligência artificial para amplificar ainda mais a tragédia, foram partilhados vídeos e imagens de outras catástrofes descontextualizadas no tempo e no espaço e difundiram-se teorias da conspiração sobre o uso de materiais de construção adulterados, entre outros.
Importa, portanto, refletir profundamente sobre a nossa responsabilidade digital coletiva. É essencial analisar os conteúdos de forma crítica e manter a frieza para verificar as fontes antes da propagação. Não é falta de empatia, é até uma forma de ajuda, pois a verdade é, com frequência, a primeira vítima em qualquer situação de desastre.