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Crónicas

Os Úteis

Precisamos, com urgência, de homens e mulheres úteis, não de figuras importantes, especialistas em aparecer ou administradores da própria reputação. Úteis no sentido exigente da palavra: pessoas com conhecimento, experiência, critério, memória, coragem e independência; pessoas que conheçam o mundo para além dos gabinetes, dos comunicados e das promessas ocas. Gente que faça do conhecimento não um adereço, mas a base da decisão, o centro da governação e o ponto de partida para escolher, priorizar, corrigir, recusar e avançar.

Governar sem conhecimento é administrar por impulso, por conveniência, por medo, por achismo, por mesmice, por clientela ou por calendário eleitoral. É decidir hoje para apagar o incêndio de ontem e criar o problema de amanhã. É confundir movimento com acção, anúncio com obra, despesa com investimento, popularidade com razão, maioria com inteligência. E, no entanto, quanto da nossa vida pública não vive precisamente disto? Decide-se porque “é preciso dar uma resposta”, porque “há verbas”, porque “fica bem”, porque “sempre se fez assim”, porque “há pressão”, porque “não convém mexer”, porque “é politicamente sensível”, essa expressão maravilhosa que costuma significar apenas isto: a verdade existe, mas dá trabalho e pode incomodar alguém. E depois há o espanto, sempre o espanto: as políticas não resultam, os serviços pioram, os custos disparam, as pessoas afastam-se, a confiança desfaz-se aos poucos. Como haveria de ser diferente se, no fim, ninguém responde por nada?

O conhecimento deve estar no centro da governação porque governar não é proclamar boas intenções: é escolher entre caminhos imperfeitos, medir custos, prever consequências, reconhecer limites e ouvir quem sabe. A realidade não se rende a discursos, slogans, fotografias ou relatórios feitos à medida; lembra-nos de que más decisões têm efeitos, mesmo quando anunciadas com solenidade. Quando o conhecimento é levado a sério, o poder deixa a tribuna, põe os pés no chão e responde ao essencial: isto resolve alguma coisa, para quem, com que custos, efeitos, ganhos, perdas, dependências e responsabilidades?

É por isso que precisamos de homens e mulheres úteis. Uma sociedade cansada de propaganda precisa de quem distinga evidência de encenação: médicos que conheçam a saúde real, professores que conheçam as escolas, empresários que saibam pagar salários, trabalhadores que sintam horários, contratos e salários comprimidos, agricultores que conheçam a terra e a burocracia, além de técnicos, investigadores, comerciantes, pescadores, enfermeiros, programadores e funcionários públicos competentes. Precisamos de gente que traga a vida concreta à decisão pública. Sem realidade, a política é apenas literatura administrativa e nem sequer da boa.

Os úteis não são uma classe superior, nem devem transformar-se em conselhos de nomes sonantes e de utilidade duvidosa. Não mandam por serem úteis; servem por serem úteis. A sua autoridade nasce da competência comprovada e da disponibilidade para prestar contas. Não são os que têm sempre opinião, mas os que fazem perguntas melhores: pedem dados às promessas, método aos números, finalidade à despesa, manutenção às obras e perguntam se cada política liberta ou prende, cria riqueza ou dependência, aproxima o poder dos cidadãos ou apenas muda o endereço do centralismo.

Há uma diferença enorme entre governar com conhecimento e usar especialistas como enfeite. A política chama técnicos para dar seriedade ao que já decidiu, mas afasta-os quando dizem que a decisão é má, cara ou absurda. Enquanto não incomodam, servem para painéis, pareceres e fotografias; quando incomodam, revelam que o conhecimento não é decoração. O conhecimento sério estraga a encenação: mostra a falta de dinheiro, a fragilidade das promessas, prioridades trocadas, medidas mal desenhadas e obras mais caras do que o anunciado. O poder prefere especialistas obedientes, relatórios convenientes e estatísticas domesticadas. Uma governação decente precisa do contrário: conhecimento livre, independente, incómodo, verificável e publicamente discutido.

Pôr o conhecimento no centro da governação não é entregar a política a tecnocratas. A democracia define fins, valores, prioridades e legitimidade; mas as suas escolhas devem ser informadas por conhecimento sério. O povo deve escolher o caminho, mas não com um mapa falso na mão, sem saber dos custos, riscos ou limites. Votar não transforma um disparate numa boa política: maiorias, governos, oposições e partidos também se enganam, mentem ou confundem o interesse público com a conveniência própria. Por isso, a democracia precisa de conhecimento, para que as pessoas escolham de facto e não sejam empurradas pelo medo, pela propaganda, pela dependência ou pela ignorância organizada de quem manda.

Os homens e mulheres úteis seriam uma força civil capaz de tirar a política da conversa bonita e obrigá-la a responder pelo que faz. Não seriam santos, salvadores ou donos da verdade, mas pessoas de utilidade pública reconhecida, capazes de transformar o conhecimento em critério e o critério em exigência. Não decidiriam no lugar dos eleitos; ajudariam a melhorar a decisão. Criariam uma cultura em que não bastasse anunciar, prometer, gastar ou invocar “as pessoas”: seria preciso demonstrar, medir, justificar e explicar efeitos concretos e resultados.

Esta necessidade é ainda mais evidente nas comunidades pequenas, onde a proximidade tanto ajuda como condiciona. Numa terra pequena, sabe-se depressa quem manda, quem depende de quem, quem deve favores e quem se cala por medo de perder o pouco que tem. A proximidade permite conhecer melhor os problemas, mas também apertar melhor as pessoas. Por isso, os úteis fazem falta: dão corpo, voz e consequência ao saber disperso na comunidade. Professores, médicos, empresários, trabalhadores, funcionários, moradores, artistas, agricultores, jovens que emigram, idosos que esperam por consultas, mães sem casa acessível e comerciantes presos na burocracia conhecem partes da realidade que raramente chegam ao poder. Isolado, esse saber incomoda pouco; organizado, público e exigente, obriga a pedir explicações.

O conhecimento, como base da decisão, obriga também a uma ética da humildade. Quem governa deve perceber que não sabe tudo. Parece uma ideia simples, mas, para certos temperamentos políticos, é quase uma agressão pessoal. O governante que sabe ouvir não se diminui. Fortalece-se. O governante que admite erro não enfraquece a autoridade. Recupera credibilidade. O governante que pede dados antes de decidir não se torna menos político. Torna-se menos perigoso. A verdadeira autoridade não está em fingir certeza permanente. Está em decidir com prudência, em corrigir depressa, em explicar com clareza e em aceitar escrutínio. O resto é treta.

Precisamos, pois, de uma nova cultura pública fundada na utilidade. Não utilidade no sentido estreito, contabilístico, miserável, como se tudo o que importa tivesse de caber numa folha de cálculo ou num indicador económico. Utilidade no sentido cívico: aquilo que melhora a capacidade de uma comunidade de viver com mais liberdade, mais responsabilidade, mais justiça concreta, mais prosperidade, mais confiança e menos dependência. Um poeta pode ser útil. Um agricultor pode ser útil. Uma enfermeira pode ser útil. Um empresário pode ser útil. Uma jurista pode ser útil. Um programador pode ser útil. Uma cuidadora pode ser útil. Um velho que conhece a memória de uma freguesia pode ser mais útil do que três consultores pagos para descobrir, com gráficos coloridos, aquilo que toda a gente da rua já sabia há dez anos. A utilidade pública não se mede apenas por diplomas. Mede-se pela capacidade de transformar conhecimento em serviço.

No fundo, defender os úteis é defender que a governação deve voltar a ter vergonha de decidir mal por ignorância voluntária. Esta ignorância voluntária é uma forma de corrupção antes da própria corrupção. Não rouba necessariamente dinheiro, embora muitas vezes abra caminho para isso. Rouba qualidade democrática. Rouba tempo. Rouba futuro.

Os úteis são urgentes porque já nos está a sair demasiado cara esta maneira de governar por achismo e improviso. Cara em dinheiro, antes de mais. Mas também cara de confiança, de oportunidades desperdiçadas, de jovens que fazem a mala, de famílias esmagadas pelo custo da vida, de serviços públicos que prometem dignidade e entregam senhas, filas e meses de espera. Cara, em empresas que podiam crescer e acabam presas no matagal administrativo e dependentes de subsídios. Cara em territórios desfigurados porque alguém confundiu desenvolvimento com betão, turismo com dependência, despesa com visão e autonomia com poder sem responsabilidade.

Uma comunidade que queira viver de pé precisa de reencontrar os seus úteis: chamá-los, ouvi-los, dar-lhes espaço, protegê-los quando incomodam e responsabilizá-los quando falham, sem os reduzir a bibelôs de cerimónia. A política não é a arte de parecer bem, mas a responsabilidade concreta de decidir com seriedade quando uma má decisão recai sobre a vida dos outros. Precisa de conhecimento como matéria-prima da liberdade. Sem conhecimento, não há boa decisão; sem boa decisão, não há boa governação; sem confiança, não há comunidade política que aguente. Resta apenas o costume: uns mandam, outros obedecem, muitos fingem acreditar, quase todos se queixam, e a realidade continua à espera de ser levada a sério.