O bom, o mau e o bravo
Após mais de 900 horas de negociação com os sindicatos, o Governo quis despachar o pacote laboral na Assembleia da República em pouco mais de meia hora. A provocação, ensaiada em pleno dia de greve geral, para além de politicamente ridícula, é uma autêntica confissão. Novecentas horas a negociar, trinta minutos para despachar. Os números revelam uma preocupante inabilidade política do Governo. É que a revisão da lei laboral é o menor dos nossos problemas.
O bom: Paulo Rangel
Portugal foi eleito membro do Conselho de Segurança da ONU. Paulo Rangel é o rosto contemporâneo, e mais visível, da histórica vitória da diplomacia portuguesa em Nova Iorque. No entanto, pensar que o regresso de Portugal ao clube mais exclusivo das Nações Unidas é obra de um só ministro ou de um único governo, é desconhecer, por completo, os corredores lentos e sinuosos da diplomacia internacional. Lançada por Paulo Portas em 2013, a candidatura portuguesa passou por 7 governos e 5 ministros da tutela até garantir uma das duas vagas reservadas à Europa Ocidental. A eleição à primeira volta, inédita para Portugal, tem o mérito acrescido de ter sido disputada com austríacos e alemães, ambos grandes contribuintes financeiros para a ONU. O biénio 2027-2028, para o qual fomos eleitos, é uma janela rara. A diplomacia portuguesa habituou-se a encontrar porto seguro na posição comum da União Europeia. Segura, cómoda e, tantas vezes, invisível. No Conselho de Segurança temos oportunidade para assumir uma política externa que não se limita ao aconchego da burocracia europeia. Temos credenciais reais para fazê-lo. As relações com África que não se esgotam na lusofonia, a ligação consolidada com a América Latina, a autoridade por todos reconhecida no tema dos oceanos. O único risco que corremos é a tentação de não usar essas credenciais e de fazer da moderação um fim em si mesmo. A eleição de quarta-feira é um bom princípio. O que vier a seguir dirá se Portugal chegou ao Conselho para fazer política externa ou apenas para estar presente.
O mau: Luís Montenegro
Parecem duas pessoas diferentes. O Luís de 2023 e o Montenegro de 2026. O Luís colou-se, presencialmente, à vitória do PSD Madeira nas regionais de 2023 e, imbuído do mais profundo espírito autonómico, teceu rendilhados elogios aos madeirenses e à governação regional. Três anos depois, Montenegro, na noite da reeleição como presidente do PSD, não ofereceu uma única palavra à Madeira. Talvez a tísica safra eleitoral (menos de 300 votos em quase 2000 eleitores), que nem um incompreensível e inconsequente mandatário regional conseguiu salvar, expliquem não só a ausência da Madeira do discurso de consagração, mas também a inexistência de qualquer mensagem durante a campanha interna. Ortega y Gasset escreveu que o homem é ele próprio e a sua circunstância. Em 2023, a circunstância do Luís era a de quem nunca tinha ganho uma eleição como presidente do PSD e a Madeira era o sítio ideal para lançar-se como líder vitorioso. Em 2026, a circunstância de Montenegro passou a ser um governo formado, uma maioria parlamentar e uma reeleição sem adversário. Obviamente, Luís e Montenegro são a mesma pessoa. O problema é que também são o mesmo político. Um político pode mudar de posição, pode até contradizer-se. O que não pode é ter princípios que estão reféns da circunstância. A questão não é se Montenegro gosta ou não da Madeira, mas se a defesa da autonomia regional em 2023 era programa ou tática. Sejamos sinceros. Do presidente do PSD, na noite da eleição, ninguém esperava um discurso arrebatado sobre as autonomias, mas, sabendo do conflito sobre a mobilidade, teria sido politicamente inteligente sinalizar disponibilidade. Até porque, talvez um dia, o Luís volte a precisar da Madeira. Quem sabe se, nesse dia, a Madeira só se vai lembrar de Montenegro.
O bravo: Hugo Nunes
Telecomandado a partir da Assembleia da República, o Chega Madeira prepara a substituição dos mansos pelos bravos. Talvez substituição seja uma palavra exagerada. Na verdade, é mais uma transformação. Uma renovação na continuidade. Afinal, o Chega é capaz desse milagre político. Bravo enquanto não tem dedo na governação, manso quando lhe convém e independente quando a conveniência acaba. Basta lembrar o deputado municipal no Funchal, em 2021, a deputada regional, em 2025 ou os vereadores de São Vicente e do Funchal, em 2026. O padrão repete-se com uma regularidade que impressiona. Os candidatos do Chega são eleitos com a fúria dos justiceiros e acabam, repetidamente, transformados em independentes arrependidos. A bravura, afinal, tem prazo de validade e raramente coincide com o do mandato. É que o Chega não é um projeto político, mas uma plataforma de lançamento individual, sustentada num excesso de auto-estima que, nos casos mais graves, não se distingue da ideação de grandeza. Hugo Nunes não foge à regra. A sua superficialidade política não é o que mais preocupa, afinal ninguém nasce ensinado e a política madeirense tem acolhido vacuidades mais caras. O que preocupa é a disponibilidade. Pelo menos desde 2019, Hugo Nunes seguiu Miguel Castro como Sancho Pança acompanhou Dom Quixote. Hoje, o fiel escudeiro apresenta-se como o bravo que vai corrigir o manso. A narrativa tem apenas um problema. O fiel escudeiro que abandona o seu Dom Quixote não se torna cavaleiro, apenas se transforma no escudeiro que o traiu. O que é, em boa verdade, a única forma de bravura praticada nas fileiras do Chega.