Autonomia e cultura musical: a escola como lugar de memória comum
Uma obra de um compositor madeirense deve poder conviver, no mesmo programa, com Mozart, Beethoven, Ravel ou Lopes-Graça
No âmbito das comemorações dos 50 anos da Autonomia, realizou-se recentemente uma conferência dedicada à Educação, integrada no ciclo promovido pela Estrutura de Missão para as Comemorações do quinquagésimo aniversário da Autonomia da Região Autónoma da Madeira, presidida por João Cunha e Silva. A sessão contou com a participação de dois antigos ministros da Educação, Nuno Crato e Marçal Grilo, e foi moderada por Francisco Santos.
A certa altura, Nuno Crato defendeu uma ideia que merece ser pensada para além do imediato debate educativo. Referia que a escola deve garantir que todos os alunos tenham contacto com um conjunto de romances fundamentais, obras que criem uma experiência comum de leitura e contribuam para uma cultura partilhada entre os portugueses. Não se tratava apenas de defender livros obrigatórios, mas recordar que a escola também serve para formar uma memória comum.
Esta ideia é particularmente importante quando pensamos a Madeira, a Autonomia e a educação artística. Se uma comunidade precisa de romances comuns, também precisa de músicas comuns. Precisa de canções, obras, autores, intérpretes e referências sonoras que atravessem gerações e ajudem a formar uma consciência coletiva. A identidade de um povo não vive apenas nas leis, nas instituições ou nas datas comemorativas. Vive também naquilo que se canta, se escuta, se toca e se reconhece como seu. Ou seja, a Autonomia tem de ser também cultural. E, para isso, a escola tem uma responsabilidade de garantir que os alunos da Madeira conheçam parte significativa da música que nasceu, circulou e ganhou sentido nesta terra. Uma criança do Porto Santo, de Santana, da Calheta, de Câmara de Lobos, da Ribeira Brava ou do Funchal deve poder passar pela escola e encontrar, no seu percurso, um património musical que lhe diga respeito. Não para a fechar numa visão regionalista estreita, mas para lhe dar raízes antes de a colocar em diálogo com o mundo.
Esse trabalho não começou agora. Nas últimas décadas, a Direção Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística, desenvolveu uma ação determinante na criação, estudo, promoção e circulação de repertórios ligados à Madeira. Mais recentemente, o Conservatório — Escola das Artes da Madeira tem procurado aprofundar essa missão, nomeadamente através da Academia Madeirense de Musicologia e Estudos Artísticos, que assume precisamente esse papel: estudar, valorizar, editar e promover a nossa cultura musical, colocando-a ao serviço da educação, da investigação e da vida artística da Região.
Nos últimos anos, foram publicadas cerca de três centenas de obras, com especial atenção à música de autores madeirenses. Este dado representa uma mudança profunda na forma como olhamos para o nosso património. Durante demasiado tempo, muita música madeirense viveu dispersa, esquecida, fechada em arquivos ou dependente da memória de alguns especialistas. É nesse sentido que a criação de uma cultura musical comum da Madeira deve ser entendida como uma tarefa educativa e política, no melhor sentido da palavra. A escola deve abrir caminho para que determinados repertórios façam parte da experiência regular dos alunos. É preciso que essa música entre na sala de aula, no coro, na orquestra, no ensemble, na aula de formação musical, nas atividades das escolas e nos programas de concerto.
Um dos exemplos mais fortes desta cultura musical partilhada está no Festival da Canção Infantil da Madeira. Ao longo de mais de quatro décadas, este festival permitiu a criação de mais de 500 canções infantis originais, muitas delas de autores madeirenses. Algumas dezenas tornaram-se repertório comum nas nossas escolas. Foram cantadas por crianças, ensinadas por professores, ouvidas por famílias, transmitidas pela televisão e são pequenos monumentos afetivos da nossa memória coletiva.
Mas este repertório comum não se deve limitar à infância. A Madeira tem autores e intérpretes que devem estar presentes na prática vocal e coral das escolas e do Conservatório. Max, Mário André e tantos outros fazem parte de uma paisagem musical que não pode ficar apenas entregue à memória familiar ou à programação ocasional. Do mesmo modo, o trabalho desenvolvido por associações como a Xarabanda, na recolha, estudo e divulgação da tradição musical madeirense, deve continuar a ser valorizado e integrado numa visão educativa mais ampla.
O mesmo se aplica à música erudita. É fundamental continuar a construir um cânone de autores madeirenses e há obras que uma comunidade não pode deixar cair no esquecimento. Neste domínio, merece particular destaque o trabalho de articulação entre a Orquestra Clássica da Madeira e o Conservatório na recuperação da obra integral para orquestra do compositor madeirense do século XVIII António Pereira da Costa. Essa obra integral foi publicada na coleção Antologia da Música na Madeira, um projeto editorial que já disponibilizou mais de 2000 páginas de partituras madeirenses, abrangendo repertórios para piano, braguinha, guitarra, violino, canto e piano, música sacra, entre muitos outros domínios. Obras que durante muito tempo estiveram afastadas da escuta pública são hoje apresentadas em vários programas de concerto, inclusive fora de Portugal.
É por isso que a regionalização da educação deve continuar na agenda. É difícil discutir educação apenas a partir de modelos excessivamente centralizados, desenhados para realidades que nem sempre correspondem à nossa geografia. O exemplo de Espanha, onde as comunidades autónomas têm competências muito mais robustas na definição das suas políticas educativas, deve ser observado com atenção. Uma verdadeira regionalização da educação permitiria à Madeira aprofundar este caminho com mais coerência e integrar de forma mais estrutural a cultura musical madeirense nos currículos, nos projetos escolares, na formação de professores e nas práticas artísticas.
A Madeira precisa também de festivais, concertos e programas em que a música madeirense tenha lugar próprio. Uma obra de um compositor madeirense deve poder conviver, no mesmo programa, com Mozart, Beethoven, Ravel ou Lopes-Graça. Uma canção tradicional deve poder dialogar com a criação contemporânea. Uma canção infantil nascida no Festival deve poder ser cantada ao lado de repertórios nacionais e internacionais.
E é também por aqui que passa a Autonomia. Uma Madeira que conhece, canta, toca e valoriza a sua própria música será sempre uma Madeira mais consciente de si, mais livre no diálogo com os outros e mais inteira na afirmação da sua cultura.