As comadres, a Selecção e o Ronaldo!
- Primeiro Santo António, segundo São João, em terceiro vem São Pedro, para a reinação.
- Olha, olha, ao tempo que não ouvia a comadre cantar!
- Quem canta seu mal espanta e eu estou a cantar para o meu mal espantar.
- Oh, comadre, mas que mal foi esse para ter que cantar para o espantar?
- Meu marido está ficando num caso perdido.
- Mas o compadre era um homem tão ajuizado que diabo lhe deu para ter mudado?
- Está mudado, tudo por causa da Seleção e do demónio do Ronaldo!
- Não diga mais, comadre, isso é uma doença que anda por aí que só Deus, Nosso Senhor, é que sabe.
- Comadre – como diz minha prima Marisol – há homens que parecem gostar menos das mulheres do que de futebol.
- Talvez não, esse fanatismo já vem de geração em geração, embora, em parte, a sua prima possa ter razão.
Mas afinal, que fez ou disse o compadre, para deixar nesse estado a comadre?
- No primeiro jogo que a seleção empatou e o Ronaldo pouco jogou, ele chegou a casa indignado, dizendo que estava velho o Ronaldo, que da seleção já devia ter sido afastado, enfim, por causa do jogo parecia ter o diabo no corpo.
Agora que Portugal ganhou, o Ronaldo marcou, foi eficaz, já chegou a casa a dizer que o País muito deve àquele rapaz.
- Ó comadre não faça caso, essas idiotices ouvem-se por todo o lado. O compadre ainda é daqueles «treinadores» e «jogadores» de bancada, que julgam que sabem tudo e, no fim, não percebem
nada. Mas pior do que eles são aqueles estarolas, armados em «cientistas da bola», que vão enchendo a cabeça dos nossos filhos e maridos, nalguns programas televisivos alcunhados de desportivos.
- É verdade, comadre. É de manhã, de tarde, antes e depois do jantar, aquela gente tem sempre que falar.
- E – como diz meu marido – o pior é quando se contradizem e são repetitivos.
- É verdade, mas ao ouvirmos alguns deles até fazemos uma obra de caridade.
Treinadores falhados, jogadores de mediana qualidade, outros que não conseguem engendrar outro tipo de escritos, e como todos têm o direito à vida, lá foram para comentadores desportivos.
Se bem que, nessa área, haja gente com uma capacidade extraordinária.
- Exatamente. E quanto ao dizerem mal do Ronaldo há quem veja nisso um bem, porque dizem aquilo que não diz mais ninguém. Estão orgulhosamente sós, como na política, muita gente estava, no tempo dos nossos avós. São maneiras de estar que não nos compete criticar.
Aliás, muita dessa gente até compreendemos o seu sofrimento.
Ver os estádios - onde joga a seleção - a abarrotar de gente, entusiasmada e bem-disposta, envergando as camisolas das quinas com o número 7 nas costas, não deve ser fácil para quem dele não gosta.
Bom, muito mais
podia adiantar, mas, por agora, por aqui vamos ficar e o que peço à comadre é que perdoe ao compadre.
Juvenal Pereira