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Crónica de uma greve anunciada

Nem o dia era 13, nem era sexta-feira.

Em causa, o dia 15 de junho; a terceira segunda-feira do mês.

Nada no alinhamento dos astros indiciava pairar qualquer perigo nos ares. O azar teria de esperar por melhores dias para fazer das suas.

É certo que, na véspera, alguns áugures, refugiados nos seus gabinetes, tinham mostrado um nervosismo inusitado e procurado contrariar os indícios que os deixavam nervosos. O que os assustaria? Será que a fonte da sua inquietação era a greve regional de docentes da educação pré-escolar e do 1.º ciclo, convocada pelo Sindicato dos Professores da Madeira para aquela segunda-feira, dia 15? Não poderia ser, tanto mais que tudo tinha sido feito com transparência e nos termos rigorosos da Lei:

• No dia 1 de junho, em assembleia-geral, os associados do 1.º ciclo e da educação pré-escolar do SPM decidem avançar para greve, a realizar no dia 15, exigindo melhores condições profissionais.

• Dia 2, o SPM emite o pré-aviso de greve.

• Dia 5, é divulgada a realização de uma concentração, junto à SRE, no dia da greve.

Apesar disso, no 4.º piso do Edifício Oudinot, nos corredores da DRAE (Direção Regional de Administração Escolar), os sinais que vão chegando das escolas despertam um nervosismo miudinho, que vai aumentando com o aproximar da data. Os dados que têm apontam para uma grande greve; o descontentamento dos docentes é real, há que agir. Não perdem tempo:

• No último dia útil antes da greve (12 de junho), enviam para as escolas orientações genéricas, que confundem serviço docente com não docente, com um claro intuito de baralhar as direções e condicionar as suas decisões: “é legítimo proceder à redistribuição do serviço docente e não docente pelos trabalhadores da própria escola”. Anexam o pré-aviso de greve de uma organização sindical desconhecida de 99,9% dos docentes.

• No próprio dia, logo pela manhã, novo email, com uma novidade: a greve era para docentes de todos os grupos disciplinares e para não docentes. Quem a convocou não tem presença na RAM. Ainda assim, as ordens são para que as escolas apurem a adesão à greve.

• Finalmente, no final do dia, a manifestação pública das manobras do apagão por parte da DRAE: 13% de adesão, diz. Que número tão acertado para autodesacreditação! Que revelação certeira do azar que sentiam há muito os que não queriam esta greve. Sim, porque a taxa de adesão, como bem sabem na DRAE, foi de cerca de 60%.

Desmintam isto, mas provem-no, porque este apuramento foi feito com os dados que as escolas forneceram ao SPM. Caso contrário, descrédito, descrédito, descrédito e mais força para os decentes continuarem a sua luta.

Tanto trabalho para tentar disfarçar, artificialmente, o descontentamento dos docentes! Senhores, é fácil acabar com a luta dos docentes: resolvam os seus problemas. Sem isso, a luta vai intensificar-se.