Por um Ministério para a Produtividade
Raros são os dias em que não ouçamos falar da sustentabilidade do nosso sistema de pensões, sendo que muitas vezes é referido o facto de o número de pensionistas por trabalhador no ativo estar a aumentar sendo hoje muito superior ao que era 50 anos atrás. É correta a preocupação com o rácio pensionista/trabalhadores no entanto, este facto é só um lado da realidade, senão vejamos o exemplo seguinte:
Pensemos, para simplificar, uma sociedade que só produz pães e que todas as gerações têm 10 milhões de habitantes e cada habitante ativo produz 2 pães.
Nesta sociedade coexistem duas gerações, uma ativa e uma de pensionistas. No total da sociedade existem 20 milhões de pães para distribuir por 20 milhões de habitantes. Se cada habitante necessitar de um pão para sobreviver, a única solução possível é cada um receber um pão.
Vamos agora supor que uma geração decide ter menos filhos e dar-lhes mais qualidade (a Economia da Família explica esta escolha entre quantidade de filhos e a qualidade de cada um). Sendo assim, vamos admitir, por hipótese, que a geração passa a ter metade dos indivíduos, mas cada um tem o dobro da produtividade, o que significa uma geração com 5 milhões de indivíduos ativos cada um produzindo quatro pães.
Passamos assim a continuar a ter uma produção de 20 milhões de pães, mas agora a dividir por 15 milhões de indivíduos, 10 milhões de pensionistas e 5 milhões de ativos. Se os pensionistas continuarem a receber um só pão, os ativos podem receber dois pães, o que é dobro do que teriam no caso inicial.
Este exemplo simples mostra que tão importante como o rácio pensionista/ trabalhador é a produtividade de cada trabalhador e o que consegue contribuir para a geração dos pensionistas. Por isso pergunto-me muitas vezes qual a razão de se falar tanto do problema demográfico e quase não se falar da possibilidade de deixar de ser um problema se houverem ganhos significativos de produtividade.
Esta é uma dimensão que os comentadores habitualmente ignoram na discussão da sustentabilidade.
Talvez o exemplo apresentado pareça muito teórico para o leitor e muito impossível de concretizar, mas a realidade é que em 2025 a Irlanda tinha uma produtividade que era mais de três vezes a de Portugal, por isso pensar que o aumento é para o dobro fica muito aquém do máximo já existente num país da União Europeia.
Dada a importância que o aumento de produtividade tem para o bem-estar de todos os portugueses parece-me que seria bom criar um Ministério para a Produtividade, que equacionasse políticas, cuja via não passasse pela precarização do trabalho e pela retirada de direitos aos trabalhadores, mas que se baseassem na formação dos trabalhadores e nos incentivos a investimentos que levassem a aumentos significativo da produtividade.