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Dia da Europa

Num tempo marcado por guerras às portas da Europa, instabilidade geopolítica, crises energéticas, pressões migratórias e competição económica global, a União Europeia volta a confrontar-se com uma verdade histórica essencial: ou os europeus permanecem unidos, ou arriscam perder aquilo que demoraram décadas a construir. A coesão não é apenas uma política financeira ou administrativa. É um pacto civilizacional baseado na solidariedade, na democracia e na ideia de que nenhum território e nenhum cidadão deve ser deixado para trás.

O verdadeiro desafio europeu já não é apenas económico. É político, social, cultural e até moral. A Europa enfrenta ameaças externas evidentes: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a instabilidade internacional, a mortandade no Médio Oriente, os ataques às democracias europeias, a dependência energética e a crescente disputa tecnológica global. Contudo, existe uma ameaça talvez ainda mais perigosa porque cresce silenciosamente dentro das próprias sociedades europeias: o populismo, a desinformação e a indiferença democrática.

O maior risco para a Europa pode não vir de fora, mas da incapacidade dos próprios europeus em defender os valores que sustentam a União. A inércia perante os discursos de ódio, o crescimento de nacionalismos radicais e a normalização da desinformação fragilizam a democracia europeia por dentro. Quando os cidadãos deixam de acreditar na cooperação, na ciência, na educação e na solidariedade, abrem espaço ao medo e à divisão. Contudo, parece haver uma espécie de liberdade de expressão, particularmente no mundo virtual, e de “justeza” fraudulenta camuflada de refinada defesa de direitos pessoalizados. A bem da verdade, fora e dentro das redes, assistimos a um profundo ódio por tudo o que é humano, designadamente pela Europa. A mesma Europa que lhes garante voz, inclusive contra ela.

A União Europeia continua a ser o maior projeto de paz, partilha e cooperação do mundo contemporâneo. Nenhum Estado europeu isolado teria capacidade para enfrentar sozinho os desafios atuais da transição digital, climática, energética ou geopolítica. É precisamente nos momentos de ameaça que a Europa precisa de recuperar o sentido de comunidade política e civilizacional. A força da União Europeia reside precisamente na capacidade de responder coletivamente às crises.

Hoje, mais do que nunca, ser europeu implica responsabilidade coletiva. Defender a Europa não significa apenas proteger fronteiras externas; significa proteger a democracia, combater a desinformação, rejeitar os populismos e preservar os valores humanistas que definem o projeto europeu. A coesão europeia tem de ser um compromisso diário entre povos, culturas e gerações. Porque, no fim, a sobrevivência da Europa dependerá menos das ameaças externas e mais da capacidade de os europeus permanecerem unidos perante elas.

Ontem, dia 9 de maio, foi o Dia da Europa. Foi o dia de relembrar que estamos unidos na diversidade. É essa a nossa identidade, é essa a nossa consciência e será sempre esse o nosso futuro.