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Coreografias

O recente Congresso do PSD-Madeira voltou a cumprir a sua função essencial: assegurar que tudo aparenta mudar para que nada mude. Uma liturgia de continuidade, com Albuquerque ilimitado, como se a liderança fosse hereditária e o poder um direito natural.

A cassete do inimigo externo regressou, previsível e ruidosa, servindo o costumeiro menu de espantalhos para consumo interno. Porque continua a ser mais fácil agitar fantasmas do que discutir substância e resolver, por exemplo, a fadiga fiscal dos madeirenses. No fim, sobrou o habitual: tradição, método e um bocejo coletivo mal disfarçado por uma animosidade encenada.

Num cortejo da flor onde as letras das músicas são meticulosamente depenadas pela censura — não vá alguma sílaba subversiva estragar o ambiente ou atentar à divinização da autonomia cinquentenária — assiste-se, com a maior naturalidade, a coreografias dignas de um manual introdutório à pole-dance, ao lado das crianças aplaudidas com zelo institucional. Tudo muito educativo, presume-se. Afinal, o perigo nunca esteve nos movimentos, mas sim nas palavras — essas entidades cáusticas. E, já agora, entre tanta preocupação estética e moral, talvez fosse pedir demasiado que as flores fossem, pelo menos, madeirenses e não mais um adereço importado para compor a hipocrisia.

Noutra frente, numa escola pública, uma queda numa escadaria suscita dúvidas quanto ao cumprimento das normas de segurança. Se ocorresse numa obra privada, já haveria interdição, autos levantados e responsabilidades apuradas ao milímetro. No espaço público, porém, a regra parece mais flexível: o risco dilui-se, a exigência abranda e a segurança transforma-se num princípio decorativo, perante um silêncio sepulcral.

E o poder central da República mantém a sua pedagogia para os insulares: açorianos e madeirenses continuam destratados na sua mobilidade, como se a insularidade fosse capricho e não condição. As promessas desvanecem-se no fundo da gaveta e a Lei de Finanças Regionais continua, serenamente, a envelhecer em espera.

Já depois do Primeiro de Maio, celebra-se o trabalho no discurso, mas é na prática que ele se precariza. O pacote laboral de PSD e CDS, tão diligente a normalizar a instabilidade, ergue-se como um exercício de coerência invertida: exalta-se o trabalhador no calendário festivo enquanto se lhe trama a vida na legislação.

Entre congressos coreografados, festas cenográficas, normas elásticas e promessas adiadas, um país mergulhado numa inflação global vai vegetando, embalado por mais um cartaz de inspiração evangélica: o Portugal Recuperação e Resiliência, com a devida agência e o correspondente comissariado político. Tanta sonoridade cénica, tanto “pathos” ao som do hino, e, no fim, a mesma dúvida de sempre: haverá, por detrás deste circo cuidadosamente ensaiado, substância, ou será apenas mais um guião para aplausos efémeros e promessas que se evaporam?