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Crónicas

Entre o que sentimos e o que fazemos com isso

Há uma diferença silenciosa entre o que nos acontece e aquilo que fazemos com isso, e é aí que quase tudo se decide

E se pudéssemos reescrever a forma como sentimos?

Assim, quase como quem muda o guião de um filme que já viu vezes demais, e já sabe de cor onde vai doer.

É possível? Sim. Mas não da forma mágica que, às vezes, nos querem vender.

O livro A Linguagem da Mente, escrito por um dos co-criadores da programação neurolinguística (PNL), Richard Bandler, e publicado pela Alma dos Livros, não explica a mente. Encontramos um convite, mais provocador do que didático: mexer nela.

E isso é, ao mesmo tempo, libertador e desconfortável.

Ao longo das páginas, há uma sensação curiosa: não estamos apenas a ler, estamos a ser conduzidos. A linguagem oscila entre o técnico e o quase hipnótico. Há frases que parecem simples, mas ficam a ecoar. Perguntas que não pedem resposta imediata, pedem espaço.

E é nesse espaço que algo começa a acontecer.

Não é tanto o que o autor diz. É o que se move dentro de nós enquanto lemos.

Porque, de repente, percebemos algo incómodo: aquilo a que chamamos “realidade” talvez seja, em grande parte, um hábito.

Uma sequência repetida de imagens internas, de frases que dizemos a nós próprios, de emoções que aprendemos a acionar quase automaticamente.

Como quando alguém não responde a uma mensagem, e, sem dar por isso, construímos logo uma história:

“Está a ignorar-me.”

“Fiz algo errado.”

“Já não sou importante.”

Nada disso aconteceu, de facto. Mas sentimos como se tivesse acontecido.

A proposta da programação neurolinguística é considerado o modelo de comunicação mais eficaz que se conhece e é simples, perigosamente simples: se mudarmos a forma como representamos a experiência, mudamos a experiência.

E, em certos momentos, isso é verdade. Por exemplo: uma memória embaraçosa que revemos em “alta definição”, com som, cor e proximidade, tende a encolher-nos.

Mas se a imaginarmos mais distante, quase como uma cena antiga, com menos intensidade, o corpo responde de forma diferente.

Não é o passado que muda. É a nossa relação com o passado.

E é aqui que importa não romantizar.

A vida raramente cabe em exercícios.

Há dores que não se deixam editar.

Há perdas que não se tornam leves por as colocarmos “a preto e branco” na imaginação.

Há histórias que resistem, e ainda bem.

Porque desprogramar não é apagar. Não é fingir que não doeu. Não é criar uma versão mais confortável só para conseguirmos seguir em frente.

É algo mais subtil, e mais honesto. É criar espaço.

Espaço entre o que acontece e a forma como reagimos.

Criar espaço entre a memória e a identidade.

Entre o “isto aconteceu-me” e o “isto define-me”.

É aquele segundo, quase invisível, em que em vez de reagirmos automaticamente, conseguimos perguntar: “Espera, o que é que eu estou a fazer com isto que estou a sentir?”

A linguagem tem esse poder discreto. Não muda o passado, mas pode alterar o modo como o revisitamos. Não elimina o desconforto, mas pode impedir que ele se torne destino. E, sobretudo, devolve-nos uma pergunta essencial: até que ponto aquilo que sentimos é inevitável, e até que ponto é aprendido?

E isso muda tudo.

Provavelmente não de forma dramática. Mas de forma consistente.

Porque nem tudo o que sentimos está ao mesmo nível dentro de nós.

Há coisas que acontecem à nossa volta. Outras que fazemos. Outras ainda que acreditamos. E depois há aquelas mais profundas, as histórias que contamos sobre quem somos. E, muitas vezes, o sofrimento instala-se quando misturamos tudo.

Quando algo que aconteceu num momento passa a definir uma identidade inteira.

Talvez por isso, pessoalmente, não me reveja totalmente na ideia de “dominar a mente”, como por vezes é sugerido dentro da PNL, na linha do Bandler. Escolhi a linha de PNL da NLP University California (o berço da neurolinguística e com uma vertente humanista muito vincada).

Observar parece-me mais poderoso do que controlar.

Escutar o diálogo interno, não para o silenciar à força, mas para o compreender.

Reparar na tonalidade com que falamos connosco, porque, muitas vezes, não é o que dizemos, é como dizemos.

“Falhei outra vez…” pode ser um ataque. Ou pode ser um ponto de partida.

Com menos pressa de corrigir.

Mais curiosidade para perceber.

Menos necessidade de controlo.

Mais flexibilidade.

Mais curiosidade.

E, talvez o mais difícil, mais abertura ao que ainda não sabemos nomear.

Porque, no fundo, a transformação raramente acontece quando encontramos “a técnica certa”. Isso é uma ilusão confortável.

Acontece quando criamos espaço suficiente para que algo novo, ainda incerto, ainda imperfeito, possa emergir.

Tenho a convicção que, no fim, isso é o que mais se aproxima da liberdade: não controlar tudo o que sentimos, mas deixar de ser completamente conduzidos por isso.