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Asma: as máscaras faciais e as carícias do Saara

Yasmina Khadra, pseudónimo do escritor argelino Mohamed Moulessehout, descreve o deserto de Saara como uma entidade viva, mística e bela. Uma entidade com os seus desafios.

A esteticista argelina Asma Checklout, ora a viver em Portugal, aporta em tudo o que faz, as suas escolhas no filão da beleza, a herança do deserto que foi e é o refúgio espiritual, o espaço de contemplação pura e a perspetiva com que olha o mundo.

Mostrou-me a sua empresa Asma Beauty Cosmetics e os seus produtos: máscaras faciais com história e percurso, com ciência e arte acumuladas e, com ela, pude olhar para os produtos e serviços da beleza de forma mais atenta. Estas máscaras, à falta de melhor metáfora, lembram-me de fortes rajadas de vento durante tempestades. Sim, o deserto.

Asma Checklout nasceu em Bexar, no sudoeste da Argélia, quase na linha da fronteira com o Marrocos. Um tesouro escondido no deserto do Saara, essa pele dourada da terra, foi na sua infância a realidade que moldou a sua forma híbrida de ser e de estar. E foi ali que aprendeu as auroras ascensionais dos dias e os crepúsculos fantásticos das Mil e Uma Noites. Aprendeu os dias tórridos e as noites frias, como as cores cambiantes da areia, a dança das dunas sob o vento, a vastidão do céu estrelado e o esplendor da luz, das evocações de Yasmina Khadra.

Cresceu a aprender com a mãe a transformar ingredientes simples e naturais em verdadeiros rituais de beleza: pepinos frescos para acalmar a pele após o sol do deserto, e rosas para proporcionar uma nutrição profunda e delicada. Esses momentos moldaram a sua visão de beleza: algo autêntico, simples e profundamente respeitador da natureza da pele.

Toda a sua trajetória remete ao que diz a escritora argelina Malika Mokeddem: “Eu sei exatamente que não é preciso renegar nada para se florescer realmente. Mas não quero que me fechem em alguma fronteira qualquer que seja”. Assim, Asma viajou um pouco pelo mundo. Tornou-se cosmopolita sem perder a sua identidade cultural e a sua tradição de filha do deserto, a verdadeira pele do mundo. Casou com um francês e viveu em Istambul. Vivenciou o multiculturalismo e aprendeu a lidar com a pluralidade e a diversidade, sem perder as suas raízes.

Das dunas do Saara ao coração de Lisboa, o seu percurso como especialista em pele começou no seu primeiro salão na zona das Amoreiras, a Asma Beauty. Anos de experiência prática permitiram-me dominar a arte de compreender as necessidades únicas de cada tipo de pele. Utilizava flores, açafrão do Irão, aloé vera, lavanda ou café no tratamento dos clientes, algo inédito em Portugal. Traz ela, agora com as máscaras, a experiência ancestral do deserto, adaptada à cosmética francesa - uma fusão de mundos.

Mas, para além da natureza magrebina de rara beleza, tem a filosofia de vida de gente que nasceu para enfrentar os desafios da vida e para fazer de toda essa herança a condição de sucesso. Tal como recorda Malika Mokeddem: “Minha avó dizia: “Apenas as palmeiras têm raízes. Nós somos nômades. Nós temos uma memória e pernas para caminhar.”

O fascinante deserto do Saara é um verdadeiro arquivo da Terra que continua a ser desvendado. Grandes são os desertos, já lembrava Álvaro de Campos. O deserto é tudo. Asma Checklout procura revelá-lo com as suas máscaras faciais e os seus elixires para a pele. Ela reconstrói a espiritualidade como adveniente de uma identidade múltipla, por enraizada e rizomática. Afinal, a beleza é a grande terapia para a existência de cada um de nós.