Identidade do clube ou colonialismo?
Há clubes na Madeira com mais de cem anos de História. Não são aviários de crianças destinados a vender atletas a Lisboa, nem oficinas de reparação de automóveis, nem lavandarias equipadas com máquinas de última geração. São instituições de forte identidade, construída por gerações madeirenses. São instituições que representam memória, dignidade e autonomia próprias.
Vem esta reflexão a propósito de anunciadas parcerias entre clubes regionais e continentais, para formarem escolas de futebol, onde entra a tão proclamada metodologia de treino e um determinado apoio em dinheiro. Mas, o que nos traz aqui não são questões de natureza financeira. São tão só de índole académica e sentimental.
Pois bem, a instalação, no interior de uma qualquer coletividade local, de uma escola de formação, seja qual for a modalidade desportiva, em que crianças e jovens passam a utilizar, durante a semana, o equipamento com a águia, dragão ou leão ao peito, não pode ser apresentada como simples modernização. É uma operação de substituição simbólica, através da qual um clube histórico corre o risco de ser convertido num posto avançado de interesses externos.
O problema não está na cooperação desportiva em si. Está no facto de uma instituição centenária da Madeira poder ser colocada ao serviço de uma lógica identitária, estratégica e económica, que não nasceu nela, não a representa e não respeita suficientemente a sua identidade, muito menos, a sua rica história.
Quando uma criança entra no campo do Marítimo, Nacional, Estrela da Calheta ou do 1º De Maio, por exemplo, veste o equipamento de um clube que não é o seu, o que está a ser formado não é apenas um jovem atleta. Está a ser produzido um vínculo de identificação, que desloca o centro da pertença, da memória e da lealdade desportiva. A criança deixa de se reconhecer, em primeiro lugar, no clube da sua terra, da sua comunidade e da sua história, para passar a reconhecer-se numa marca desportiva exterior.
Portanto, o que aqui está em causa ultrapassa o futebol e o desporto em geral. No seu significado sublimar, atinge a autoestima dos clubes aderentes; inclusive, a memória das pessoas que fizeram e fazem parte da sua história social, cultural e desportiva.
Quando se normaliza que um clube centenário se entregue a uma lógica que não é sua, transmite-se a ideia de que a Autonomia é negociável e que o clube e a própria Madeira é adaptável ao que o centralismo e o colonialismo decidem.
É assim que os clubes grandes do País pretendem converter os clubes regionais em seus satélites. Seguem esta estratégia para crescerem em visibilidade e para ver se descobrem mais alguns Cristianos Ronaldo. Como se os clubes regionais deste Portugal fossem um mero adereço e não uma conquista histórica.
Num tempo em que Tucídides volta a ser historiador de serviço, o paralelo é evidente. Quando os fortes impõem e os fracos cedem, hão há parceria, há hierarquia. E é precisamente essa hierarquia simbólica que se instala quando o azul da nossa bandeira começa a ser pintado de verde e a cruz de Cristo se vê subordinada ao leão, não por convicção, mas por cedência. Só para dar um exemplo.
Mais grave ainda é que tudo isto possa ser apresentado como oportunidade. Oportunidade para quem? Para o clube, que abdica dos seus sinais identitários dentro da sua própria casa? Para a Madeira, que vê uma instituição histórica transformar-se em plataforma de captação e fidelização de jovens a favor de um clube exterior? Para as crianças, que deixam de crescer desportivamente, enraizadas numa memória local, para serem integradas, desde cedo, numa lógica de marca alheia?
A formação desportiva não é neutra. O equipamento que se veste, o emblema que se transporta ao peito e o clube pelo qual se aprende a jogar produzem pertença, memória e identidade.
Assim, um clube centenário corre o risco de se transformar numa espécie de laboratório de uma nova forma de colonização política e desportiva, discreta, silenciosa e profundamente corrosiva. Uma colonização que não chega com navios, mas em protocolos. Que não se apresenta como domínio, mas como oportunidade.
Os clubes madeirenses não precisam de serem pintados de vermelho, azul ou verde para terem futuro. Precisam é de serem respeitados na sua história, na sua identidade e na sua autonomia.
A modernização do desporto madeirense não pode começar pela descaraterização dos seus clubes históricos. Tem de começar pelo reconhecimento de que nenhuma política desportiva digna desse nome se constrói apagando a memória das instituições que deram corpo, alma e dignidade ao desporto da nossa Região Autónoma da Madeira.