Cumprimentar com o chapéu dos outros
Há gestos que chegam tarde, outros que chegam vazios. E depois há aqueles que, mesmo cheios de pompa, cheiram a empréstimo: e cumprimentar com o chapéu dos outros continua a ser uma arte muito usada pelas bandas de Santa Cruz.
Madalena Costa, campeã mundial de patinagem artística, conquistou o que poucos conseguem: elevar o nome do concelho ao mais alto patamar internacional, com talento, disciplina e um esforço profundamente solitário. Agora que as medalhas brilham e os títulos fazem manchetes, a Câmara Municipal de Santa Cruz e o JPP apressam se a anunciar homenagens solenes. Atribuir-lhe a chave da cidade, dar o seu nome ao pavilhão de Santa Cruz (construído e mantido pelo Governo Regional), e até propor na Assembleia da República que lhe seja atribuído o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Distinções respeitáveis, diga se. O problema não está no gesto. Está no contexto.
Porque, quando o caminho era duro, quando os custos se acumulavam, quando o apoio fazia mesmo a diferença, valeu o apoio real — não apenas simbólico — do Governo Regional, porque a câmara, essa esteve ausente. Não houve um regulamento, não houve critérios, não houve uma política municipal clara de apoio ao mérito desportivo. Houve silêncio. E esse silêncio contrasta agora com a algazarra das cerimónias.
Mais revelador ainda: a recusa da autarquia em sequer aceitar incluir na ordem de trabalhos a proposta apresentada pelo PSD para a criação de um Regulamento Municipal de Apoio ao Mérito Desportivo, uma proposta cuja criação tinha sido já anunciada pelos vereadores da oposição em reunião de câmara a 20 de novembro de 2025.
A desculpa foi que a Câmara já estará a preparar esse regulamento, não se sabe desde quando mas pelos vistos ao ritmo habitual desta autarquia: lento o suficiente para nunca chegar a tempo de apoiar o mérito.
A proposta do PSD que não criava favores, mas regras. Não distribuía aplausos, mas estabelecia transparência. Era um instrumento que permitiria apoiar atletas do concelho com resultados relevantes — como Madalena Costa — de forma objetiva, justa e antecipada, e não apenas celebratória.
Rejeitar discutir e aprovar esse regulamento e, ao mesmo tempo, multiplicar anúncios de homenagens é uma contradição difícil de disfarçar. É preferir a fotografia à política pública, o palco ao trabalho de bastidores, o símbolo ao compromisso. É aplaudir o resultado ignorando o percurso.
As honras, quando desligadas do apoio real, tornam se um exercício de conveniência. A Madalena não venceu com medalhas oferecidas por instituições; venceu apesar da falta de apoio estruturado por parte do município. As conquistas são dela — o chapéu também. Usá-lo agora, sem reconhecer esse facto, é confortável, mas pouco honesto.
Santa Cruz precisa de menos gestos tardios e mais decisões atempadas. Precisa de regulamentos claros, apoio efetivo e respeito pelo mérito quando ele está a ser construído, não apenas quando já é impossível ignorá lo. Caso contrário, continuaremos a ver este ritual repetido: a Câmara chega no fim, sorri para a fotografia e cumprimenta — sempre — com o chapéu dos outros.