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Amnistia vê menos direitos com reeleição de Orbán e mais desafios na vitória de Magyar

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Foto Alexandros Michailidis / Shutterstock.com

A Amnistia Internacional alertou que uma reeleição do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, no dia 12, significará um aprofundamento das restrições das liberdades e direitos, enquanto uma vitória do opositor Péter Magyar trará incógnitas e "enormes desafios".

"Não me lembro de umas eleições húngaras tão interessantes mas também em que tanto está em causa", resumiu, em entrevista à Lusa, o diretor de comunicação e campanhas da Amnistia Internacional (AI) húngara, Arón Demeter, em Budapeste.

Pela primeira vez desde que assumiu o poder em 2010, o primeiro-ministro populista enfrenta um concorrente, Péter Magyar (Tisza, centro-direita), que está à frente nas sondagens, embora, a uma semana das eleições legislativas, ninguém arrisque fazer prognósticos dos resultados.

O Fidesz promoveu ao longo dos anos sucessivas alterações das leis eleitorais, que colocam a oposição em desvantagem, segundo analistas.

A organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos AI traçou um "quadro muito sombrio".

"Sabemos o que está em jogo com o Fidesz. Penso que esperaríamos retaliação contra organizações, ativistas e políticos que criticam o Fidesz. Veríamos mais restrições às liberdades fundamentais básicas e aos direitos humanos", comentou o responsável.

Um quinto mandato de Orbán no poder seria "a continuação dos últimos 16 anos, que levaram a um país onde a maioria das instituições independentes desapareceu porque foram tomadas pelo governo, com um nível extremo de corrupção estatal, e onde praticamente todos os serviços públicos, desde a saúde aos transportes e educação, estão a desmoronar-se", disse.

E, no dia 13, "haverá pelo menos 2 a 2,5 milhões de pessoas que votaram na oposição e é muito difícil dizer, neste momento, como reagiriam a mais quatro anos de Governo Fidesz".

Por outro lado, uma vitória de Péter Magyar, dissidente do partido no poder, ainda representa muitas incógnitas.

O manifesto eleitoral do Tisza, argumentou Demeter, tem "propostas muito promissoras", nomeadamente quanto à restauração do Estado de Direito ou direitos das mulheres, mas, por exemplo, quanto à imigração, "pode até dizer-se que é mais à direita que o Fidesz".

"Por isso, não sabemos bem o que esperar", referiu, acrescentando que "a maior questão" é mesmo saber como Magyar pode cumprir algumas promessas, como recuperar a independência das instituições ou o "dinheiro roubado" pela corrupção de que o Fidesz é acusado, "sem quebrar nenhuma regra".

Por outro lado, se o Tisza vencer, "a maioria dos eleitores vai querer sangue, porque foi prometido que haverá responsabilização, que as pessoas [ligadas ao atual poder] serão afastadas e o dinheiro seria retirado onde houvesse suspeita de corrupção".

"Se ganhar, terá um enorme desafio em todas as frentes. E, mais uma vez, não sabemos o que isso significa na prática", considerou.

"A verdadeira questão é se Péter Magyar pode e quer realmente fazer o que diz e se está realmente empenhado em cumprir o seu programa. Não será um programa popular, será muito longo e difícil", admitiu o responsável da AI.

Mas, "pelo menos com a potencial vitória do Tisza, há a possibilidade de ser diferente", sublinhou.

Para muitos, as eleições do próximo domingo estão a ser vistas "como uma revolução ou uma transição".

"A transição da Hungria foi há 16 anos, ou seja, andamos de transições radicais em transições radicais, com a reformulação completa das nossas instituições, das nossas regras e até das nossas constituições", comentou, perguntando: "Como é que alguém pode esperar que o país se torne uma democracia liberal aborrecida se não fizermos eleições, apenas fizermos estas transformações radicais do poder?".

Além disso, salientou: "Também temos de reaprender como funciona uma democracia".