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Leão e Trump, lucidez e transgressão

A política contemporânea revela-se cada vez mais um espetáculo. A fé, a guerra, a diplomacia, a moral, tudo cabe hoje na mesma lógica de palco e plateia.

Nesse teatro global, temos agora dois protagonistas na ordem do dia, ambos norte-americanos, Donald Trump e o Papa Leão XIV, um sentado na Sala Oval, outro na cadeira de Pedro.

E nós assistimos estupefactos, até incrédulos, a todo um confronto de ideias e de formas de ser e de estar, cujos efeitos não se circunscrevem aos Estados Unidos da América.

Trump, na sua retórica caraterística que vive da simplificação e amplificação, ataca o Papa, depois de ter saudado no passado a sua escolha como “uma grande honra para o país”, apelida-o agora de “fraco” e acusa-o de ingenuidade em matéria de política externa.

E quando pensávamos que o silêncio seria a resposta, Leão XIV, com o seu tom pausado e a insistência quase obstinada em palavras como paz, prudência e dignidade humana, faz ouvir a sua voz, aquela que ainda acredita que nem tudo se resolve através da força, ameaças ou mísseis. Num mundo cada vez mais perigoso, em que o conceito de guerra preventiva serve para justificar conflitos, Leão XIV alerta que “o Evangelho é claro” e que “a Igreja tem a obrigação moral de ser contra a guerra”.

Ao longo da sua história milenar, a Igreja Católica nem sempre esteve do lado certo da história, convém recordá-lo com honestidade. Mas, apesar de todos os seus paradoxos históricos, foi também, e muitas vezes sobretudo, uma voz incómoda perante o poder.

E, pelo menos na sua melhor versão histórica, nunca foi uma instituição confortável com o entusiasmo bélico dos governantes. Desde os tempos de Agostinho até às encíclicas modernas, o seu papel tem sido frequentemente o de recordar que o mundo não é apenas um tabuleiro estratégico. Foi assim com guerras, com injustiças sociais, com perseguições políticas.

Quanto a Trump, há uma pergunta que acompanha a sua carreira política desde o primeiro dia e que regressa sempre que uma nova polémica irrompe: aquilo que vemos é método ou instinto? Estratégia ou descontrolo?

Trump construiu uma forma de exercer a presidência que mistura provocação, teatralidade e conflito permanente. Há quem veja nisso uma calculada tática política: dominar o ciclo mediático, impor o tema do dia, obrigar todos os outros a reagir.

Se quisermos ver este atual duelo retórico sob o prisma de estratégia de Trump, e não um impulso ao acaso ou deslize, então trata-se de um ataque deliberado num momento de impasse político, nomeadamente em termos da guerra com o Irão. Embate em que mais uma vez usa a religião não como fé, mas como instrumento de poder.

Mas há quem não vislumbre qualquer passo ponderado ou deliberado, mas tão-somente impulso desnorteado, inclusive alguma insanidade ou mesmo loucura.

A verdade, como quase sempre, talvez esteja algures no meio. Mas essa ambiguidade, longe de o fragilizar, tem alimentado a sua força política. Na prática, Trump responde como Trump responde a tudo: transformando o desacordo num combate pessoal, numa provocação e numa manifestação, na sua cabeça, de poder e influência. Até porque facilmente podemos intuir que lhe incomoda o protagonismo do Papa, que é, ao mesmo tempo, norte-americano e supra-americano, ou seja, eleva-se acima do mundo de Trump, que se julga um enviado de Deus, ou mesmo Jesus Cristo.

Não posso deixar de relembrar o caricato da intervenção recente de Pete Hegseth, Secretário da Defesa dos EUA, em que refere um suposto versículo da Bíblia, que afinal era parte do filme “Pulp Fiction”, defendendo quiçá uma guerra santa em nome de “São Tarantino” …

Curiosamente, Trump e o Papa, em grande medida, falam para audiências semelhantes, que frequentemente se sobrepõem. Milhões de crentes católicos vivem nos EUA e representam cerca de um quinto da população. No entanto, embora sejam uma presença relevante, não é a dominante, espaço esse que pertence ao universo evangélico e protestante conservador, que não só tem mais capacidade de mobilização como demonstra historicamente uma maior lealdade política.

Sob essa visão, Trump, ao atacar o Papa, não está necessariamente a alienar a sua base de apoio. Pelo contrário, pode até reforçar a mensagem junto do seu público-alvo que preza os valores de nação e ordem.

Não se pode esquecer que muitos norte-americanos e milhões de pessoas por todo o mundo admiram simultaneamente uma liderança política forte e a autoridade espiritual da Igreja. Pessoas que escutam com atenção tanto o discurso político como a palavra religiosa. Entre o púlpito e o palanque existe, afinal, uma plateia comum.

Mas quero acreditar que, mesmo entre os apoiantes de Trump, haja quem ache um exagero, mesmo uma blasfémia, a sua cruzada contra o Papa Leão XIV.

Entre a política do confronto permanente de Trump e a voz moral da Igreja do Papa Leão XIV, existe algo mais profundo do que um simples desacordo diplomático. Trata-se de duas formas de olhar para o poder e a fé.

Quando a História olhar para este tempo, verá estratégia brilhante… ou apenas o retrato de uma época que confundiu poder e fé com espetáculo?

Talvez o mundo precise de menos demonstrações de força e de um pouco mais de consciência.

Talvez seja preciso relembrar que o poder também precisa de moralidade e humanidade.

Termino com uma frase que o Papa Leão XIV replicou do Papa Pio XII, dita em 1939: “Nada se perde com a paz. Tudo pode ser perdido com a guerra”.