Não estamos cansados, estamos desalinhados
A nossa natureza está intimamente ligada à do Planeta
Teria eu uns seis ou sete anos. Estávamos de férias no monte, no Alentejo. A água era fresca, vinda do poço, ainda havia bacios e banhos aquecidos a lenha.
Eu acordava com os primeiros raios de sol, com o balir e os guizos das ovelhas.
O aroma do café de cevada, acabado de fazer, invadia-me os sentidos.
Saltava da cama, descalça, agarrava uma fatia de pão alentejano cozido a lenha, regado com um fio de azeite que chegava do lagar, e sentava-me na ombreira da porta.
Os raios de sol tocavam-me a pele, os pés descalços sentiam a força das entranhas da terra. Tudo ali era uno. Agora que escrevo, volto a sentir.
Há dias, prometi-me permitir, de uma vez por todas, voltar ao corpo e à natureza, a que me habita e me sustenta.
As minhas filhas cresceram, sempre que possível, descalças, a brincar na relva e na horta biológica que construíamos e nutríamos juntas. E, sempre que as sinto desreguladas, em sobrecarga sensorial, sei onde está a resposta, em voltar a casa, em voltar à natureza.
Hoje, quando paro para observar o ritmo em que vivemos, tudo parece ligeiramente desalinhado, rápido, ruidoso, artificial. Lemos listas que nos recomendam exposição solar, pés descalços, contacto com o verde, menos plástico, mais silêncio, e sentimos, quase de imediato, que fazem sentido. Ainda assim, uma parte de nós, moldada pela pressa e pelo ruído, reage com um ceticismo discreto, será mesmo assim tão simples?
Tenho para mim que é precisamente essa simplicidade que mais nos inquieta.
A resposta não é confortável, é simples. E é precisamente isso que a torna exigente.
No “Prevenir, Curar, Viver”, o livro publicado pela Contraponto, da autoria de André Dourado, professor universitário de Medicina Integrativa e Longevidade, há um lembrete claro, estas “regras de ouro” não são tendências de bem-estar, são instruções biológicas básicas que fomos desaprendendo. E aqui está o ponto essencial, não estamos cansados apenas porque fazemos muito, estamos cansados porque vivemos desalinhados com aquilo para que o nosso sistema nervoso evoluiu.
O cérebro não evoluiu para ecrãs ou luz artificial constante, mas para ciclos naturais, movimento e estímulos reais. Quando esses estímulos desaparecem, o sistema compensa com ansiedade, fadiga, inflamação. Não é fraqueza, é adaptação.
Na neurolinguística, conhecemos bem a importância do estado interno. O estado não é apenas emocional, é fisiológico, e depende também do ambiente. É influenciado pela luz, pelo chão que pisamos, pelo ar que respiramos, pelo contexto que escolhemos habitar.
A exposição solar regula ritmos, afina hormonas, melhora o humor.
Andar descalço ativa o corpo, reduz inflamação, melhora a percepção.
Estar na natureza diminui o cortisol, aumenta o foco, reorganiza a mente.
Isto não são conceitos alternativos, são dados.
E, ainda assim, continuamos a tratá-los como opcionais.
Tenho a convicção de que isto acontece porque mudar hábitos simples é, paradoxalmente, mais difícil do que adotar soluções complexas.
Caminhar ao nascer do sol, respirar ar puro, dormir melhor, nada disto nos faz, à primeira vista, sentir extraordinários. Mas há transformação.
Não mudamos a vida em grandes momentos, mudamos a vida naquilo que repetimos quando ninguém está a ver.
Cada uma destas regras é um convite a interromper o padrão automático e a regressar ao essencial.
Na neurolinguística, diríamos que isto é uma mudança de contexto, e quando o contexto muda, tudo se reorganiza, porque o comportamento não acontece no vazio, é moldado pelo ambiente que o favorece ou o compromete.
Se vivemos rodeados de estímulos artificiais, teremos respostas artificiais. Se vivemos próximos do natural, o corpo lembra-se de como funcionar.
Este livro contém reflexões e factos que podem causar desconforto, porque colocam em causa a nossa coerência. Somos aquilo que comemos, mas também aquilo que vestimos e o ambiente em que vivemos. Já não se trata apenas de dieta ou exercício, trata-se de alinhamento. E a coerência constrói-se.
E há outra forma de reconhecer esse desalinhamento. A dor não é um álibi. O sofrimento não nos dá o direito de perder a gentileza.
Vivemos tempos em que a pressa e a sobrecarga nos empurram para a dureza. Mas a amargura não é força, nem a crueldade é lucidez.
A bondade continua a ser uma escolha, mesmo quando tudo nos puxa na direção contrária. E começa de nós para nós próprios.
É o primeiro passo do verdadeiro regresso a ‘casa’, connosco, porque é assim que estaremos com os outros.
Não se trata de voltar atrás nem de idealizar uma vida impossível. Trata-se de pequenas reconexões conscientes, todos os dias, de devolver ao corpo aquilo que ele reconhece como seguro, previsível, humano.
Como diz Jorge Garcia Dihinx, médico pediatra, os anos que temos são na verdade os que já não temos. Os únicos anos que realmente temos são os que nos faltam viver.
E o verdadeiro luxo, hoje, pode muito bem ser voltar ao essencial, antes que o corpo nos obrigue a lembrar. O corpo tem memória, e, mais tarde ou mais cedo, faz-nos lembrar.