Rui Alves encosta 'grandes' à parede por metade das receitas televisivas
Dirigente quer modelo em linha com as principais ligas europeias e que garanta maior equilíbrio financeiro e competitivo entre os clubes
O presidente do Nacional formalizou uma proposta que promete incendiar a Assembleia-Geral da Liga agendada para esta sexta-feira. Rui Alves quer metade do bolo das transmissões dividido em partes iguais por todas as equipas - contrariando os 32,5% sugeridos pelo organismo - e exige que o dinheiro dos direitos internacionais seja totalmente repartido sem olhar a classificações. Se a medida passar, os três grandes arriscam perdas milionárias.
O Nacional resolveu agitar as águas e coloca agora todas as cartas em cima da mesa na tão discutida centralização dos direitos televisivos do futebol português. Segundo avança o jornal A BOLA, Rui Alves já entregou uma proposta oficial à Liga de Clubes que, na prática, exige uma revolução na forma como o dinheiro das transmissões é distribuído.
A ideia base é muito clara: metade das receitas totais do mercado nacional tem de ser dividida em fatias exactamente iguais por todas as equipas, o que bate de frente com a proposta da própria instituição. Até agora, a Liga apontava para uma divisão igualitária na ordem dos 32,5%, um valor que os madeirenses consideram manifestamente insuficiente para nivelar o campeonato.
Centralização dos direitos televisivos no futebol vai ‘rolar’ à mesa da Liga de clubes
Assembleia Geral agendada para sexta-feira vai definir a forma de comercialização centralizada dos direitos audiovisuais a partir de 2028/29. Benfica SAD estima perda de 15 milhões de euros por ano.
Para a estrutura alvinegra, a matemática do negócio tem de ser simples e assentar em três grandes frentes, logo depois de garantidos os tais 50% iguais para todos. A proposta detalha que 25% das receitas fiquem dependentes do mérito desportivo no relvado - sendo que a classificação da época actual pesaria 70%, e a média das últimas quatro temporadas os restantes 30%.
Outros 15% do bolo seriam canalizados para as audiências, ou seja, para quem gera mais interesse e prende mais espectadores aos ecrãs, de acordo com dados auditados. E, por fim, os últimos 10% serviriam para premiar a implantação social e a formação.
Na prática, este último critério recompensa o número de sócios, a venda de cadeiras anuais, a aposta em jogadores formados em casa e a cedência de talentos às selecções nacionais.
O documento será discutido na Assembleia-Geral Extraordinária da Liga, marcada para as 15 horas desta sexta-feira, na cidade do Porto.
Direitos de transmissão internacionais
Se no mercado interno a proposta já é arrojada, no que toca aos direitos de transmissão internacionais - os jogos vendidos para canais e plataformas estrangeiras - a exigência que sai da Choupana é ainda mais radical.
O Nacional propõe que este bolo financeiro específico seja dividido a 100% em partes rigorosamente iguais por todos os clubes da Liga, varrendo para debaixo do tapete qualquer tipo de prémio ou diferenciação por mérito desportivo.
O clube insular argumenta que é imperativo colocar o futebol português em linha com aquilo que já é uma norma lá fora - olhando para o padrão das principais ligas europeias, como Inglaterra, Espanha, Itália e França.
Sindicato dos futebolistas avança com aplicação de denúncia de resultados combinados
O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) vai implementar na próxima época em Portugal a 'Red Button', uma aplicação de denúncia anónima de resultados combinados, revelou hoje o responsável jurídico da entidade.
A ideia passa por garantir um campeonato mais disputado, onde os clubes de menor dimensão não fiquem a anos-luz financeira dos crónicos candidatos ao título. Aliás, apenas a Alemanha foge a esta regra, privilegiando o mérito desportivo com 70% da receita.
O grande entrave - e o motivo pelo qual a reunião de sexta-feira promete ser quente - é que esta visão ameaça directamente a carteira dos clubes mais 'poderosos'. Se a proposta for aprovada e a centralização se tornar lei nestes moldes, os três grandes vão ter de abrir mão de uma fatia milionária a que se habituaram ao longo de décadas e ficam reféns do poder de voto e das decisões da esmagadora maioria dos clubes mais pequenos.
A SAD do Benfica, através do seu administrador financeiro, já veio a público estimar um trambolhão nas contas na ordem dos 15 milhões de euros por ano com o novo sistema de vendas conjuntas.
Reunião marcada para esta sexta-feira
Na reunião magna, as 33 sociedades desportivas que compõem o futebol profissional vão ter de definir as regras de participação nos leilões, as limitações e, nas palavras de André Mosqueira do Amaral, director executivo da Liga Portugal, "as linhas vermelhas que não poderão ser ultrapassadas em nenhuma instância durante a venda e a exploração destes direitos".
Será, assim, um documento estratégico que vem valorizar o produto, mas que terá, obrigatoriamente, de passar pelo crivo estatal. Após a votação desta sexta-feira, o modelo de comercialização será entregue à Autoridade da Concorrência (AdC), que tem trabalhado em parceria com a Liga para evitar monopólios ou práticas anticoncorrenciais.
Este documento espelha um conjunto de estratégias que visam a maximização do valor económico dos direitos, bem como o cumprimento das medidas definidas pela AdC para mitigar qualquer prática anticoncorrencial no mercado português. Resumidamente define as regras do jogo para este primeiro ciclo que se irá iniciar em 2028 André Mosqueira do Amaral
Por sua vez, o Estado impõe que a aprovação da AdC aconteça até ao final da próxima época desportiva (2025/26), deixando tudo oleado para que a centralização seja a única realidade possível nos relvados portugueses a partir da temporada 2028/29.