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Rostos da Autonomia Madeira

Jaime Ornelas Camacho - o engenheiro na inauguração da Autonomia

Jaime Ornelas Camacho foi o primeiro presidente do Governo Regional, tendo chegado ao cargo na sequência das eleições regionais de 1976. Não permaneceu muito tempo como chefe do executivo, mas desempenhou as funções no momento determinante da Autonomia regional.

Neste trabalho, deixamos uma síntese da sua biografia e o testemunho de Margarida Camacho, sua filha. Esse testemunho foi-nos deixado por escrito e pretendeu fixar a visão da historiadora, mas também a de familiar / filha. Trata-se de um relato ao mesmo tempo objectivo e apaixonado. A não perder.

Nesta plataforma, dnoticias.pt., na secção de podcast, pode assistir a uma conversa com Margarida Camacho, em que são referidos muitos dos facto aqui (abaixo) deixados, mas também elementos novos.

Síntese biográfica

Jaime Ornelas Camacho nasceu em 1921, no Curral das Freiras, concelho de Câmara de Lobos, Madeira. Concluiu o ensino secundário no Liceu Nacional do Funchal e licenciou-se em Engenharia Civil, na especialidade de hidráulica, pelo Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

Regressou à Madeira e a partir de 1948 trabalhou na Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira. Em 1950 ingressou na Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, onde desempenhou funções técnicas ligadas inicialmente ao apoio aos municípios rurais, chegando a chefiar a Secção de Hidráulica. Esteve envolvido na construção de importantes infra-estruturas regionais, incluindo os aeroportos do Porto Santo e da Madeira.

Após o 25 de Abril de 1974, foi um dos fundadores do Partido Popular Democrático (PPD) na Madeira e integrou a sua primeira comissão política. Com a institucionalização da Autonomia, participou na Junta Regional da Madeira e foi nomeado primeiro Presidente do Governo Regional da Madeira por decreto de 27 de Outubro de 1976, tomando posse a 1 de Outubro de 1976. Exerceu o cargo até 16 de Março de 1978, data em que solicitou a exoneração, sendo sucedido por Alberto João Jardim.

Durante o seu mandato, acumulou temporariamente as funções de Secretário Regional da Educação e Cultura, entre 17 e 19 de Dezembro de 1977. Após deixar a presidência do Governo, foi nomeado Secretário Regional do Equipamento Social, funções que exerceu até 28 de Março de 1980.

Ao longo da sua vida foi distinguido com várias condecorações e homenagens, destacando-se:

• Comendador da Ordem do Mérito (9 de Junho de 1993)

• Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (28 de Junho de 2001)

• Medalha de Ouro de Mérito Municipal do Funchal (21 de Agosto de 2001)

• Medalha de Mérito da Região Autónoma da Madeira (1 de Outubro de 2001)

Em 30 de Janeiro de 2009, foi ainda distinguido pela Ordem dos Engenheiros com o título de Membro Conselheiro, o mais elevado reconhecimento profissional atribuído por esta instituição.

A 16 de Outubro de 2026, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos atribuiu-lhe a Medalha de Honra do Município, a título póstumo, como ‘testemunho do reconhecimento do Município de Câmara de Lobos a um dos mais ilustres filhos da terra e insigne personalidade da Autonomia’.

Faleceu a 23 de Fevereiro de 2016, no Funchal, aos 95 anos.

Testemunho de Margarida Camacho

Qual foi o percurso académico e profissional de seu pai até chegar à presidência do primeiro Governo Regional?

JOC foi um excelente aluno desde a infância, tendo frequentado, como as duas irmãs e o irmão, o Ensino Primário no Colégio da Apresentação de Maria (então de ensino misto), de onde trouxe para a vida um primoroso domínio do francês.

Aos 10 anos, ingressou no Seminário por vontade do seu tio materno, Monsenhor Manuel Francisco Camacho, Vigário-Geral da Diocese durante várias décadas e figura tutelar e paternal da família, já que o pai de JOC falecera quando este tinha três anos. Nunca se reviu na vocação sacerdotal, mas nunca se queixou desse período no Seminário, durante o qual adquiriu uma sólida formação clássica. Aos 16 anos, estando a ser ponderada a sua ida para Roma para prosseguir os estudos eclesiásticos, e com a compreensão e ajuda do Reitor do Seminário a quem expôs a sua falta de vocação e a vontade de se tornar engenheiro, saíu do Seminário, uma decisão difícil numa família católica conservadora, que a ela se opôs.

Ante a sua firmeza e perante os argumentos do próprio Reitor do Seminário, passou a frequentar com excelente aproveitamento o Liceu, ainda no antigo Paço Episcopal, no edifício que acolhe o Museu de Arte Sacra do Funchal.

O exame de admissão ao Instituto Superior Técnico (IST) era muito exigente e para uma melhor preparação em Matemática, para a qual o seu tio Cónego Camacho (homem de grande cultura) entendia que os estudos clássicos do Seminário e os do Liceu não lhe asseguravam a preparação suficiente, foi por este enviado para Lisboa alguns meses mais cedo, para estudar esta matéria em profundidade com um Professor do IST, onde depois de vencido o exame de admissão ingressou.

Foi sempre excelente aluno e guardou desses tempos gratas recordações e amigos para toda a vida.

Findo o curso, teve três convites profissionais – um para assistente do IST, outro para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e outro para um grande empreendimento de obras públicas numa das então colónias portuguesas em África. Mais tarde, teria ainda um convite de trabalho numa empresa em França, que declinou.

A Madeira e a família estavam para ele acima de tudo e voltou, decidido a trabalhar na sua terra e a contribuir para o seu desenvolvimento, naquilo que estivesse ao seu alcance.

Desde logo, trabalhou na Comissão de Aproveitamentos Hidráulicos dirigida pelo Eng.º Amaro da Costa, em obras dificílimas em zonas íngremes e perigosas, que implicavam semanas passadas na serra, obras que recordava com imensa satisfação pelos benefícios implicados, na sequência das quais ingressou na Junta Geral do Funchal, no Departamento de Serviços Hidroagrícolas (designação a corrigir, estou a escrever de memória).

Na sequência de trabalhos hidráulicos que até meados dos anos 50 lhe propiciaram um bom conhecimento local do Porto Santo, JOC foi convidado pela empresa Construtora do Tâmega para dirigir a construção do aeroporto dessa ilha e a família mudou-se para o Porto Santo.

Esta obra foi de extrema dificuldade pela distância de tudo, desde o transporte de materiais à contratação de trabalhadores especializados fora da ilha e até ao pagamento dos salários, que cabia também ao diretor técnico. Não havendo Banco algum no Porto Santo, JOC tinha a responsabilidade de vir mensalmente ao Funchal buscar essa grande quantia em numerário.

Depois de concluído o aeroporto do Porto Santo dentro dos prazos estabelecidos, JOC e a família voltaram ao Funchal.

Seguiu-se a direção técnica da construção do então aeroporto de Santa Catarina, obra exigente que o marcou pela constante necessidade de controle do manuseamento de explosivos por parte de trabalhadores, pelo que era o responsável, e que numa ocasião quase lhe custou a vida a ele próprio.

Seguiu depois a sua carreira profissional no sector privado, tendo participado em obras como a ampliação do Reid´s Hotel, entre muitas outras.

Trabalhou incansavelmente, de forma independente do poder político de então, até ao 25 de Abril de 1974, tornando-se pouco depois um dos 1ºs militantes do PPD na Madeira, muito pela sua admiração pelos deputados da chamada “ala liberal” da Assembleia da República nos anos anteriores ao 25 de Abril, que vieram a ser os fundadores deste partido. Depois dessa data, veio a integrar a Junta Governativa em 1976 e, numa continuidade compreensível para quem conhecer de perto as circunstâncias específicas de então, tornou-se o 1º Presidente do Governo Regional.

Dizem-me que ele era uma pessoa muito religiosa e que, por exemplo, tocava órgão na igreja. Confirma, pode falar-nos um pouco dessa vertente dele?

Confirmo a sua fé católica profunda, interior, de pessoa que apenas se norteava pelos valores em que acreditava e no imperativo da sua consciência, de que nada fazia desviar. Uma religiosidade não ostensiva, antes vivida e espelhada silenciosamente nas suas ações diárias, impossível de confundir com “beatice”, e marcada por uma enorme tolerância – a tolerância era, aliás, um traço estruturante do seu carácter, a par do apurado sentido de humor.

Pertencer à JUC (Juventude Universitária Católica) enquanto estudante do IST, ser colaborador salesiano, tocar órgão na Sé, Paróquia de Fátima ou noutros locais, era algo de pessoal, nunca imposto ou impositivo.

Mas quanto a este aspecto de tocar órgão em igrejas, o que fez desde muito cedo, sempre me pareceu que tinha tanto de contributo de paroquiano empenhado como de puro prazer pessoal. Uma das grandes paixões de JOC era a música (além do Marítimo, da caça, da leitura); tinha ouvido absoluto, aprendeu órgão de forma quase autotodidacta e depois com o renomado músico e professor madeirense Gustavo Coelho. Dizia que poderia ter sido organista, mas venceu a engenharia.

Cultivou a música durante toda a sua longa vida e o prazer de tocar aquele instrumento era evidente para mim, que muitas vezes apreciava, acabada a Missa, os seus improvisos musicais no órgão da capela de Fátima. Legou aos filhos o gosto pela música, e com grande satisfação teve um filho e uma neta músicos.

Sair da presidência do Governo Regional e aceitar ser secretário regional indica duas coisas: humildade e um projeto para a Madeira. Estou certo?

Essa questão da transição em 1978 foi colocada a JOC em vida muitas vezes, por órgãos de comunicação social regionais e nacionais, e ele foi sempre reservado sobre essa matéria. Nunca misturou a sua vida profissional e institucional com a vida privada nem falava sobre trabalho e atividade política em casa, e aquilo que pude saber sobre essa questão foi através de testemunhos diversificados que chegaram até mim, antes e sobretudo após a sua morte em 2016. Além disso, cabendo-me a difícil tarefa de esvaziar a casa dos meus pais após a morte da minha Mãe em 2019, tomei conhecimento de documentação pessoal que, por respeito pela sua reserva e privacidade, ainda hoje não li na íntegra, apenas superficialmente e para avaliar do seu real interesse e pertinência para a compreensão de um período complexo – sou licenciada em História e por deformação profissional, este período muito referenciado mas pouco conhecido em profundidade, para além da factologia, interessa-me. Dois anos antes da sua morte, estando a estudar o momento da extinção dos governadores civis na RAM, em 1976, questionei-o sobre um ponto específico. Sempre lúcido, esclareceu-me quanto ao papel da Junta Governativa após a saída de Azeredo do Funchal no início de Agosto e a tomada de posse do 1º Governo Regional (GR) a 1 de Outubro, que se me apresentava como um limbo quanto à efectiva direção deste órgão que foi um pré-executivo regional. JOC teve essa experiência pré-governativa num período conturbado, e sabia perfeitamente o que o esperava assumindo o cargo de Presidente do GR. Formou um governo de reconhecida competência técnica nas diversas áreas então entendidas como prioritárias, e realço o facto de entre os seus Secretários Regionais se encontrar a 1ª mulher a assumir funções executivas em democracia – antes de Maria de Lourdes Pintassilgo e de Leonor Beleza - e a 2ª em Portugal (antes dela, apenas houve uma mulher como subsecretária de Estado no governo de Marcello Caetano) - a Dra. Margarida Neves da Costa, com a pasta da Educação.

Mas creio não ser este ainda o tempo para um olhar objetivo e desapaixonado sobre esse 1º governo, e haverá necessariamente muitas fontes dispersas ainda desconhecidas que certamente emergirão e serão estudadas no futuro, como é próprio do “fazer história”.

Obviamente, e apesar de muitas narrativas díspares que sobre esse facto político de 1978 oiço e leio há muitos anos, respeito acima de tudo a forma de estar na vida do meu Pai, falecido há apenas 10 anos, e a reserva que quis manter sobre assuntos que entendeu serem exclusivamente seus. Por este motivo, não me caberia divulgar aqui nada que não pudesse ser igualmente testemunhado por quem tivesse conhecido de muito perto o seu carácter – poucos, aliás.

JOC era extremamente ponderado e imune a pressões e influências, e certamente que as houve, de todos os tipos. Mas não terá saído pela incapacidade de lhes resistir. Analisava racionalmente os factores em causa em cada momento e decidia, nunca voltando atrás e nunca lamentando as suas decisões. Não duvido que o facto de deixar de ser Presidente do GR resultou dessa ponderação e da sua – exclusivamente sua - decisão pessoal subsequente.

Que JOC tinha um projeto para a Madeira era evidente, desde logo por a ela ter regressado e aqui ter desenvolvido a sua carreira profissional. Era um fervoroso autonomista, daqueles que tinham experimentado trabalhar numa época em que, como ele dizia, era preciso pedir licença a Lisboa para elaborar o traçado de uma estrada. Desse projeto autonomista de desenvolvimento da Madeira, muito focado nas questões sociais como não poderia deixar de acontecer com alguém que perfilhava a doutrina social da Igreja e que conhecia a fundo os problemas da população rural (em especial do seu amado Curral das Freiras natal), e da forma como entendia esse projecto, ficou como grande referência o seu notável discurso de tomada de posse, que só conheci há alguns anos (a família estava longe nesse dia 1 de outubro de 1976).

E ficaram dois anos de enormes dificuldades a enfrentar, incluído o período de vigência da Junta Governativa – relembremos o controverso período anterior, as aspirações distintas de várias forças e entidades relativamente à nascente autonomia, as dificuldades da efectiva regionalização de competências - apesar de plasmadas na Constituição e no Estatuto Provisório, tinham que ser quase arrancadas às Direções-Gerais dos Ministérios, pouco ou nada disponíveis para essa cedência definitiva. E ainda a instabilidade e a violência, tendo JOC sido chamado a Lisboa pelo Presidente da República Ramalho Eanes para explicações sobre atividades da FLAMA.

Não creio também que o que o fez deixar de ser Presidente (um cargo para o qual tinha sido legitimamente empossado e que ninguém poderia forçá-lo a abandonar se não fosse essa a sua vontade) e tornar-se Secretário Regional se devesse à “humildade”, ou ao reconhecimento de uma alegada “fraqueza” para lidar com o momento. Não era um homem fraco. Basta lembrar a sua coragem pessoal quando o edifício do Governo Regional foi cercado e ameaçado de invasão, animando os seus Secretários Regionais naquele momento crítico (sei disso por um testemunho, não dele); ou ainda a sua indiferença às ameaças de bombas – houve várias, telefónicas, e em nossa casa nunca houve um polícia à porta, ou seguranças a acompanhá-lo.

Essa mudança de cargo terá sido devida antes à convicção profunda de que como Secretário Regional de uma área que dominava – o Equipamento Social - poderia ser mais útil, face ao momento e a circunstâncias complexas que determinaram a sua decisão e que muito poucos terão conhecido, além dele que já faleceu e delas não quis falar.

JOC era um homem de consensos e de serviço público. Este estava para ele acima de quaisquer outras considerações, e assim decidiu. Compreendo que isto seja difícil de entender por quem não o conheceu de perto, mas era uma pessoa muito especial, regendo-se por valores fora da norma comum, e o julgamento dos outros era-lhe indiferente se estivesse convicto da justeza das suas decisões. Para ele, os cargos políticos nunca foram o objetivo, mas como poderia contribuir para o desenvolvimento da Madeira exercendo-os, fossem eles mais ou menos elevados na hierarquia. Aliás, veio ainda a ser Diretor Regional do Saneamento Básico, com a mesma competência e convicção.

Em várias entrevistas nas suas últimas décadas de vida, congratulou-se sempre pelo desenvolvimento que tinha visto a Madeira prosseguir desde 1976 – era este que lhe importava, e não o seu protagonismo nele. Soube ocupar e sair dos cargos que exerceu, era sobretudo um homem de grande dignidade.

Esta postura de serviço público e desapego a cargos políticos não foi exclusivo seu: lembremos o Eng.º Rui Vieira, que fora Presidente da Junta Geral do Distrito antes do 25 de Abril, o mais elevado cargo executivo de então na Madeira, e que pela sua reconhecida competência veio a ser, com mérito, director regional do Planeamento no Governo Regional.

Quanto à “humildade”, não acho que o meu Pai fosse humilde no sentido usual deste termo. Não era nada vaidoso e não tinha, de todo, o culto da personalidade, tinha até o dom de rir de si próprio. Mas não era modesto quanto àquilo que tinha feito com convicção e profissionalismo. Aceitou todas as homenagens de que foi alvo com satisfação e sem falsas modéstias, grato por ter podido contribuir ao longo da sua carreira para algo que tinha sido para ele um desígnio.

Tem ideia, do percurso profissional e político de seu pai, de que é que ele mais se orgulhava?

Não sei dizer com rigor. Como já disse antes, o meu Pai não falava dessas questões, eram, como dizem os italianos, “affari suoi”, coisas dele. E “orgulhar-se” é um verbo difícil de aplicar tratando-se de JOC. Fora educado por pessoas nascidas no séc. XIX, uma educação vincada pela não exteriorização de emoções pessoais (pressentíamo-las pelos seus actos, mas não as verbalizava a não ser em raras ocasiões festivas familiares, em que os seus brindes improvisados eram pequenas peças de oratória), bem como pelo não enaltecimento pessoal e pelo dever do serviço, na família ou na vida em geral.

Mas, se questionado, falava com naturalidade e alguma saudade do seu trabalho na Comissão de Aproveitamentos Hidráulicos, e de um dos primeiros trabalhos quando ingressou na Junta Geral: uma ponte provisória em madeira que teve que planear e executar em Machico, que suportasse trânsito de pesados, quando uma grande enxurrada abateu a ponte entre o centro e a Banda d´Além. Falava também de algumas pequenas obras iniciais de captação de águas que beneficiaram o “seu” Curral, o que muito o satisfazia. Falava da mesma forma das pequenas obras como das grandes, como a construção dos aeroportos da Madeira e Porto Santo.

Quanto à atividade política, nunca manifestou à família e decerto não o terá feito a outros algum orgulho especial, antes mais genérico e não centrado nele, a satistação de ter integrado um colectivo em prol do desenvolvimento da sua terra.

Revia-se particularmente na Lei da Extinção da Colonia, em 1977. Apesar de descendente de proprietários rurais, conhecia bem a dureza dessa realidade e congratulou-se especialmente com o seu fim.

O momento mais doloroso enquanto Presidente do GR foi, sem dúvida, o da queda do avião da TAP, em Novembro de 1977. Lembro-me da chamada telefónica a avisá-lo, da sua saída de casa para Santa Cruz, da consternação profunda dos dias seguintes.

Qual era a maior pena dele, que projeto lamentava não ter concretizado?

“Pena” e lamentação” são vocábulos também impossíveis de aplicar tratando-se de JOC.

Acho que só o ouvi lamentar-se uma vez, no seu penúltimo internamento hospitalar, um mês antes da sua morte. Fui visitá-lo ao almoço e encontrei-o sentado, em frente ao tabuleiro da refeição, com um esgar contraído que interpretei como de dor extrema. Perguntei: “Tem muitas dores, Pai?”, ao que a resposta foi, com o humor de sempre: “Não, é esta sopa!”, referindo-se à falta de tempero própria da comida de hospital.

Quanto a projetos não concretizados, lembro-me apenas de dois: o de dedicar-se a fazer vinho na sua fazenda no Curral, quando se reformasse (o que acabou por não acontecer porque a reforma efectiva foi tardia, aos 80 anos, e então outras necessidades familiares convocaram a sua atenção permanente) e o de ganhar o Euromilhões, que nos últimos anos de vida jogava semanalmente – não para si, mas, segundo dizia, para deixar os filhos livres de dívidas aos bancos pela aquisição das suas casas. 

JOC era verdadeiramente um homem de bem com a vida. Tinha uma fé inabalável. Trabalhara muitíssimo, mas revia-se no percurso e na carreira que tivera. Praticava música diariamente no piano de casa, e nos últimos anos num pequeno órgão oferecido pelos filhos; continuava a frequentar concertos, lia os jornais regionais e nacionais e acompanhava o que se passava no país e no mundo com a atenção de sempre; deslocava-se frequentemente à sua casa e fazenda no Curral. Dava-se bem com todos, teve uma vida longa e saudável até muito tarde, estimado por filhos, netos e amigos, a quem era devotado. E teve junto de si o grande amor de toda a vida, a nossa Mãe, Iolanda. Entre namoro e casamento estiveram ligados 73 anos, e apesar das diferenças temperamentais e dos poucos momentos de dissensão entre os dois, foram um casal profundamente unido até à sua morte.

Tenho a ideia de que era uma pessoa reservada. Estou certo?

Acho que esta questão está parcialmente respondida em tudo o que já disse atrás.

O meu Pai não expressava verbalmente emoções pessoais, nem partilhava com outros – em casa ou fora dela – aquilo que entendia serem assuntos seus, ou seja, da sua carreira profissional e atividade política. Mas isso não se confundia de todo com a falta de manifestação firme das suas opiniões, quando o momento se impunha. Sempre o fez, em casa e fora dela, mesmo que implicassem a má compreensão de quem as ouvia. Era inteiramente verdadeiro, não sabia mentir.

Nem se eximia a falar sobre vivências da sua infância e vida adulta, que nós filhos gostávamos de ouvir. Mas transmitia-as sempre de modo positivo; muitas das dificuldades por que passou reservou-as para si, eu soube de algumas delas por outros elementos da família ou fora dela.

Como era no dia-a-dia, com a família, com os amigos, com os conhecidos, com os vizinhos? Que memórias guarda?

Ao contrário do que a sua “gravitas” pública transmitia, JOC era um homem alegre, de riso fácil e um agudo sentido de humor e do ridículo, tanto em relação aos outros como a ele próprio. Não era cáustico ou malévolo, mas bastava-nos em algumas situações ver os seus olhos a piscar de riso, enquanto mantinha a compostura que o caracterizava em público.

A sua gargalhada sonora era contagiante, sendo impossível não rir de imediato ao ouvi-la. Lembro-me de, adolescente, após o almoço, ouvir diariamente com ele os “Parodiantes de Lisboa” e de como nos ríamos com as aventuras do inspector Patilhas, do Ventoinha e do Buraquinho. Após 1972, continuou a preferir a leitura dos jornais regionais e nacionais e via pouca TV, sobretudo os noticiários, mas delirava com os filhos vendo os episódios dos Monty Python, quando foram transmitidos pela primeira vez.

Guardo, como os meus irmãos, a memória de um Pai extraordinário, que nos dedicava todo o seu pouco tempo livre. As suas férias eram um período curto, que coincidia com a época da caça no Porto Santo – era caçador desde a juventude. Ensinou os meus irmãos a atirar com a espingarda de ar comprimido, num poio da fazenda do Curral, em que um tabuleiro redondo da minha Avó era o alvo. Ensinou-os a conduzir muito cedo, por volta dos 13 anos. Jogava também à bola com eles. Estas práticas não me atraíram, declinei-as. Ensinava-nos a andar de bicicleta, a fazer joeiras e a lançá-las na praia do Porto Santo, a jogar ténis. Praticava música connosco (algo que a chegada da TV à Madeira em 1972 diminuíu um pouco, dado o nosso fascínio por esta novidade). Tocava piano comigo a quatro mãos, e como nos fez frequentar a Academia de Música da Madeira, todos os cinco filhos praticavam, melhor ou pior, algum instrumento, o suficiente para tocarmos em conjunto. Ele e a minha Mãe liam muito (a biblioteca pessoal do meu Pai era eclética e nela encontrei muitos livros de Economia, que visivelmente o interessava) e estimulavam o nosso gosto pela leitura. Éramos levados todos os meses pela nossa Mãe à Casa Figueira e cada filho escolhia um livro novo.

Exasperava-se tentando-me ensinar desenho geométrico, que eu borrava sistematicamente com tinta-da-china.

O nosso Pai levava-nos em passeios a pé no Verão, no Curral ou no Porto Santo, e aqui, todos os anos levava a família a dar a volta à ilha num velho jipe emprestado, da qual chegávamos todos empoeirados e diretos ao banho de mar, depois de percorrer estradas em terra, algumas das quais já não existem hoje.

Toda a vida nos contou histórias hilariantes, reais, mas cujas personagens mais tarde me pareciam saídas do realismo fantástico da literatura sul-americana. Ainda hoje as evocamos, entre filhos e netos, e continuamos a rir delas.

Foi um Pai presente e tolerante, dando a sua opinião pessoal sobre opções de vida de cada um dos filhos, mas jamais a impondo. Éramos todos diferentes uns dos outros e ele tinha a capacidade de tratar cada um como se fosse o seu filho preferido. Quando nos envolvíamos à mesa em acesos debates uns com os outros, ouvia-nos impávido, prosseguindo calmamente a sua refeição.

Uma sua prática de sempre era a frequência de concertos e a infalível ida semanal às sessões do Cine-Fórum, com a nossa Mãe. Gostava muito de cinema, mas imagino, por experiência própria, que devia ser difícil acompanhar os filmes de Pasolini depois de um intenso dia de trabalho. Mas nunca decepcionou a sua mulher, que não quereria perder nenhum daqueles filmes e debates.

Com os vizinhos tinha relações cordiais mas não próximas, nem tinha tempo para as cultivar, esse era o departamento da nossa Mãe.

Tinha a sua tertúlia de conhecidos no Sunny Bar e mais tarde no Café Funchal. Presumo que os jogos do Marítimo, de que era fervoroso adepto (chegou a ser seu presidente) fossem o grande tema. Não sendo supersticioso, deixou de frequentar o Estádio dos Barreiros quando entendeu que a sua presença “dava azar” ao Marítimo, depois de algumas derrotas seguidas. Aliás, quanto a isto, soube mais tarde que o meu Pai, homem de educação esmerada e perfeito cavalheiro, segundo o conhecíamos e pelos muitos testemunhos de quem lidou com ele, conseguia transformar-se em verdadeiro hooligan verbal nos jogos do seu clube, tendo chegado numa ocasião a ser expulso do Estádio dos Barreiros por insultos ao árbitro num jogo com o Nacional. É-me difícil imaginá-lo, mas ocorreu.

Quanto aos amigos, coleccionou-os em todas as fases da sua vida e manteve-os sempre. Destaco o seu amigo de infância Clementino, companheiro de brincadeiras nos 3 meses de férias que passava no Curral das Freiras na infância e juventude; o amigo Cónego Damasceno dos tempos do Seminário; outros do tempo do Liceu e da Universidade (todos os anos comparecia ao jantar de curso, mesmo quando já eram muito poucos os sobreviventes, entre os quais o Eng.º Jácome de Castro e o Eng.º e Padre Manuel Belo); da vida profissional, realço, dos tempos dos Aproveitamentos Hidráulicos, os Eng.os Amaro da Costa, Gonçalo Câmara e Pinto Eliseu; na Junta Geral, o seu chefe e padrinho de casamento, Eng.os Ribeiro Pereira, também acompanhante nos jogos do Marítimo; o Eng.º Rui Vieira, que já doente, com grande esforço, compareceu à cerimónia de atribuição a JOC do grau de Membro Sénior da Ordem dos Engenheiros; do seu período no sector privado, o Sr. Fonseca, da Construtora do Tâmega, o Sr. Rocha, encarregado da Junta Geral no Porto Santo, os membros da família de João Augusto Sousa, empresa com a qual colaborou, e o Arqº Rui Góis Ferreira. Era grande amigo do seu médico, Dr. Adolfo Brazão. A lista seria extensa, e continuou a fazer amigos nos seus últimos tempos, no IGA (actual ARM), em cujas reuniões participava e tinha um gosto enorme em relacionar-se com os Eng.os mais novos; e mais tarde, quando já não podia conduzir e tomava a meio da manhã o infalível café com torrada ou bolo no bar da Lavagem de São João, pouco abaixo da sua casa, onde desconheciam o seu percurso e era naturalmente o “Sr. Jaime”, muito estimado por ali.

Ele deixou, pelo menos, um esboço da sua biografia?

Por tudo o que já disse, é fácil perceber que não, de forma organizada. JOC escrevia muito bem, mas nunca expressou qualquer vontade de redigir memórias, era um homem de acção e virava com toda a naturalidade as páginas da sua vida. Não achava importante falar de si próprio aos outros, bastava-lhe a consciência de em cada momento ter feito o melhor que sabia e podia, nas circunstâncias específicas de cada momento. Esta faceta discreta, que admirávamos, podia também ser extraordinariamente irritante em família. Em particular para nós filhos, como nas ocasiões em que lhe foi atribuída a Medalha de Mérito da Cidade do Funchal, ou quando no Curral foi inaugurada uma nova estrada com o seu nome. Não nos referiu nada e soubemos dos dois factos pela imprensa do dia seguinte. Apanhou boleia do presidente da Câmara de Câmara de Lobos para essa inauguração no Curral, contra o que depois me insurgi severamente, perguntando-lhe se queria que pensassem que estava “órfão” de filhos. Apenas me sorriu, de forma algo comprometida, mas nada arrependido. Já na cerimónia de 2001 em que foi homenageado na ALM e na inauguração da estrada e túnel que têm o seu nome no Funchal, os filhos souberam antecipadamente, embora não por ele, e acompanharam-no nas duas ocasiões.

Quando em 2018 morreu o meu irmão Ricardo, um artigo do Público, referindo-se à sua atividade como produtor musical de muitos artistas e grupos de renome, intitulou-se “O homem da sombra que iluminou a música portuguesa”. Pensei então que o meu irmão herdara do Pai esta qualidade invulgar de iluminar na sombra. Aliás, o mesmo se poderia dizer do homem que educou JOC, o nosso tio-avô Cónego Manuel Francisco Camacho, Vigário-Geral da Diocese durante décadas difíceis, figura muito conhecida no seu tempo, cujo obituário em 1970 o retrata como um grande diplomata em prol dos interesses da Igreja e da Madeira, muito além da vida eclesiástica. Quando se celebraram os 500 anos da Diocese do Funchal e muita da história diocesana distante e próxima foi evocada, o nome do Cónego Camacho nem foi referido. Mais um “homem da sombra” familiar.

Mas quanto a elementos para uma sua biografia, JOC era da época em que tudo se guardava, e conservou alguma documentação escrita e imagens elucidativas da sua vida pessoal e profissional. E eu, que desde cedo me interessei por ouvir contar as memórias da família, guardo muitas delas, bem como os meus irmãos. Nos últimos anos do meu Pai, questionei-o frequentes vezes sobre pormenores da sua infância e juventude, entre outros assuntos. Tomei muitas notas, não então com o intuito de escrever a sua biografia, mas de organizá-las em texto que legasse aos netos e bisnetos a sua memória e as histórias de uma vida que, entre 1921 e 2016, se cruza com momentos marcantes da história da Madeira (a Revolta de 1931, a 2ª Guerra Mundial que o apanhou na Universidade e o obrigou a regressar para cumprir o serviço militar, interrompendo o curso, etc.). Não aconteceu ainda, da minha parte, essa sistematização e a seu tempo, eventualmente, ponderarei com os meus irmãos o que fazer com essas memórias e documentação correspondente.

Aparentemente, ele nunca quis falar em público do processo que conduziu à sua saída da presidência do Governo Regional. Pode confirmar que essa foi uma opção dele? No caso afirmativo, é algo quem enquanto familiar, continua ou pode falar-nos desse processo?

Quanto a JOC, essa questão está já amplamente respondida anteriormente em 3.

Mas sobre esse “silêncio” a que alude, cabe ainda apontar que não apenas JOC como os seus Secretários Regionais, alguns dos quais se mantiveram em funções em 1978, no segundo GR, alguns ainda vivos, não falaram publicamente sobre esse período inaugural da autonomia madeirense, na perspectiva do primeiro GR que integraram. Era um tempo assim: quando se saía, não se comentava aquilo de que se tinha tido conhecimento enquanto titulares de cargo abrangido pelos deveres do sigilo e da lealdade. E houve, aliás, muitos outros exemplos posteriores deste mesmo entendimento, noutras formações do GR ao longo de várias décadas.

Ele manteve amigos na política, depois de se afastar da política activa?

Sim, manteve-os. Continuou a fazer parte da evolução do PPD, depois PSD, tanto a nível da política regional como da nacional. Dessas relações muito próximas que manteve recordo, em especial, Barbosa de Melo, mas também outros que com ele se correspondiam e/ou que lhe enviavam livros de que eram autores. E recordo mais proximamente de, em 2014, JOC ter tido pena de já não poder corresponder, por motivos de saúde, ao convite do Dr. Pinto de Balsemão para a celebração dos 40 anos do partido de que fora militante logo em 1974.