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Crónicas

Manual de propaganda para transformar miséria em estatística e ruído em governação

Dez truques para enganar incautos

O Governo Regional tem uma habilidade muito própria, quase artesanal, para fazer de conta que governa: vai buscar meia dúzia de números com bom ar, limpa-os com um pano húmido, dá-lhes lustro e mostra-os como quem mostra uma prenda cara. Depois, fica à espera de que o povo, cansado e com a cabeça cheia de contas e o estômago cheio de dias, conclua que, se “eles” dizem que está melhor, então deve estar. Isto não é política económica. É truque de feira, com mãos rápidas e sorriso treinado, só que o coelho és tu e a cartola é o teu bolso.

Vamos por partes, porque este tipo de embuste vive precisamente disto: simplicidade, repetição e impunidade, como o sal no pão e a ferrugem na fechadura, sempre a mesma coisa, sempre a mesma insistência, até a pessoa se habituar ao cheiro e já nem dar por ele.

Primeiro truque: a “média”, essa mentira respeitável, com gravata e carimbo. A média aritmética serve para fabricar sensação de melhoria sem melhorar a vida de quase ninguém. Soma-se o que há, divide-se por todos e aparece um número com ar sério, daqueles que não tremem. Numa região pequena, meia dúzia de salários altos puxam o valor para cima e uma multidão fica a viver no “quase dá”, no “este mês não dá”, no “logo se vê”, como quem vive num corredor estreito. O Governo não precisa de mentir. Basta escolher a estatística que melhor esconde a fila do meio. E depois apresenta a “remuneração média” como retrato do madeirense comum, quando é apenas um espelho deformado.

Segundo truque: falar de aumentos nominais como se fossem aumentos reais. “Subiu 26%”, “cresceu 321%”, “mil milhões em 10 anos”. Números grandes têm um efeito narcótico, sobretudo quando aparecem em manchetes e em letra gorda, como se o tamanho fosse prova de virtude, e não apenas de espectáculo. Só que a vida não se paga em percentagens. Paga-se em renda, prestação, supermercado, gasolina, electricidade, escola, médico, quando o público falha e isso acontece vezes demais, e naquela lista interminável de despesas que não se adiam com discurso, nem com sorriso, nem com aplauso. Se a inflação, e sobretudo a da habitação, sobem mais depressa do que os salários, a pessoa fica pior, mesmo que a folha diga que ficou melhor. O Governo sabe isto. E por saber, escolhe os números onde a moeda emagrece e a comparação fica convenientemente adulterada.

Terceiro truque: o salário mínimo como medalha moral. Subir o mínimo dá sempre jeito para posar de virtuoso: “justiça”, “valorização do trabalho”, “coragem”, palavras de altar, palavras de cartaz, palavras que não pagam contas. Fica bem em fotografia e, melhor ainda, num discurso com tom de homilia, como se governar fosse distribuir hóstias. Só que riqueza não se cria por decreto e salário é custo. Esse custo vai parar a algum lado: empresas frágeis cortam contratações, reduzem horas, sobem os preços, empurram gente para a precariedade ou fecham, como portas que se batem sem barulho. Os grandes aguentam. Os pequenos sangram. E, no meio, fica o trabalhador que, teoricamente, “foi valorizado”, mas, na prática, vê oportunidades a encolher e o custo de vida a devorar-lhe o aumento. O Governo vende virtude e empurra a conta para o lado, como quem parte um prato e finge que não foi.

Quarto truque: o achatamento salarial vendido como progresso. Há uma coisa que devia inquietar qualquer pessoa com dois dedos de testa, mas a inquietação dá trabalho e o trabalho não dá votos: quando o mínimo se aproxima demasiado do “médio”, a sociedade deixa de ter escada. Fica tudo comprimido, como gente numa sala sem janelas. A diferença entre esforço e recompensa encolhe. E uma economia sem degraus ensina as pessoas a desistir: estudar para quê, especializar-me para quê, assumir responsabilidade para quê, se a distância entre o “mínimo” e o “acima” é uma esmola? Numa região que já perde jovens, isto é veneno. O Governo celebra o número, mas o número, lido com seriedade, é um alarme.

Quinto truque: desemprego baixo como final feliz, sem olhar para a qualidade do emprego. Dizer “5,3%” e encerrar o assunto é como afirmar “não tens febre, logo estás óptimo”, enquanto a pessoa mal respira e o peito faz barulho, e ninguém o quer ouvir. Pode haver emprego e, ainda assim, ser emprego sazonal, mal pago, com horários absurdos, com rotatividade, com gente a fazer dois trabalhos para sobreviver, como quem carrega dois sacos e ainda leva um terceiro na cabeça. Pode haver “bons números” e uma vida péssima por trás. E há o detalhe politicamente inconveniente: se as pessoas saem, a estatística melhora. A emigração também é uma forma de “política activa de emprego”, só que sem a parte em que alguém o admite.

Sexto truque: transformar esmolas em epopeias. Este é dos mais engraçados, se assim se lhe pode chamar, no sentido de dar vontade de bater com a cabeça, devagar, na parede, para sentir que ainda se está vivo. Anunciam-se milhões como se fosse revolução e, quando se faz a conta por pessoa, descobre-se que aquilo só dá para um café e pouco mais. Mas reparem na disciplina do método: o Governo não quer contas pequenas. Quer números grandes porque números grandes dispensam pensamento. “Mil milhões em 10 anos” soa a filme épico. “1,10 € por dia” soa ao que realmente é: quase nada. E o requinte final é chamar “devolução” ao acto de devolver o que já era das pessoas, embrulhado em retórica como se fosse generosidade.

Sétimo truque: o PIB como maquilhagem total. A Madeira cresce “no papel” porque o turismo cresce. Depois, como o turismo puxa preços, puxa rendas, puxa serviços e puxa uma economia de catálogo, o Governo finge que isso é prosperidade geral, como se a vitrina fosse a casa. Só que prosperidade real mede-se em liberdade prática: pagar casa sem sufoco, poupar, mudar de emprego sem cair no abismo, fazer planos sem tremor, conseguir dormir sem a cabeça a fazer contas. Quando a habitação dispara e engole metade do rendimento, o resto é conversa de enfeite. Pode haver mais dormidas, mais aviões, mais cartões estrangeiros a passar, e ainda assim haver menos vida para quem cá vive. Crescemos para quem? Para a estatística, para o folheto, para a fotografia. Não necessariamente para o residente.

Oitavo truque: a “solidez” emprestada, vendida como virtude própria. Há um tipo de propaganda particularmente conveniente: agarrar numa avaliação, numa sigla, num “selo” e vender aquilo como prova absoluta de competência regional, omitindo as muletas e as dependências que tornam a história menos bonita, porque a beleza dá votos e as muletas dão perguntas. É a política a fazer contrabando emocional com tecnicidade: o cidadão lê “BBB+”, “solidez”, “confiança” e conclui que aquilo é mérito puro, quando, muitas vezes, é contexto, garantia, protecção externa, conjuntura favorável, turismo em alta e receitas a subir por razões que não são reforma estrutural nenhuma. O Governo escolhe a parte que brilha e apaga a parte que explica.

Nono truque: silêncio sobre o imposto mais cruel de todos, a inflação do custo de viver. Aqui está o centro do logro: falam de rendimentos, mas não falam do que esses rendimentos compram, como se comprar fosse um detalhe menor e não a vida inteira. Falam de aumentos, mas calam o buraco negro da habitação. Falam de “recordes”, mas evitam a vida espremida entre renda, prestação e supermercado, aquela vida que não dá para pôr em gráfico. Uma política que não mete a habitação no centro é teatro. E uma economia que celebra números enquanto expulsa residentes do Funchal e dos arredores é uma economia que cresceu, sim, mas cresceu contra as pessoas.

Décimo truque: fingir que governa. Este é o truque-mãe, o truque que permite todos os outros, como aqueles bonecos russos que vão saindo uns de dentro dos outros até ao mais pequeno, e, no fim, não há nada, só madeira pintada. Governa-se por encenação: conferências de imprensa, inaugurações repetidas, visitas a empresas em barda, “planos” com nomes pomposos, comissões, grupos de trabalho, estudos encomendados a tempo de já não servirem para nada. A máquina não decide, anuncia. Não executa, promete. Não reforma, remenda. E quando a realidade desmente, muda-se o assunto, arranja-se um culpado exterior, a conjuntura, Lisboa, Bruxelas, o mundo, o mau feitio do tempo. O Governo não precisa de resolver, precisa de parecer que está a resolver, porque, para enganar tontos, o essencial é ocupar o palco. E quanto mais barulho fizer, menos se nota que a casa continua por arrumar.

E agora, a parte mais irritante, precisamente por ser a mais simples: esta estratégia funciona porque é preguiçosa e conta com a preguiça do outro lado, com a fadiga, com a resignação, com a ideia de que discutir dá trabalho e o trabalho não muda nada. O Governo aposta em três coisas: a maioria não vai fazer contas; a maioria está cansada demais para discutir; a comunicação social repete a versão oficial como quem lê a meteorologia. No fim, a propaganda nem precisa ser sofisticada. Basta ser constante.

O antídoto, curiosamente, é banal e quase ofensivo de tão básico: fazer sempre as contas pequenas e fazer sempre as perguntas incómodas, aquelas perguntas que estragam a fotografia e obrigam a tirar a máscara.

Quando te disserem “média”, pergunta: “mediana e distribuição”?

Quando te disserem “cresceu”, pergunta: “em termos reais e no custo de viver”?

Quando te disserem “milhões”, pergunta: “por madeirense, por mês, por dia”?

Quando te disserem “sucesso”, pergunta: “para quem?”

Quando te disserem “valorização”, pergunta: “com habitação, a quanto e com que poder de compra?”

Quando te disserem “solidez”, pergunta: “com que garantias e com que dependências?”

Isto estraga a festa, pois... estraga. Mas também impede que continuem a vender prosperidade a quem vive numa vida que não cabe no cartaz, nem no discurso, nem na estatística, nem na mentira respeitável que chamam de governação.