O primeiro passo
Tendo recentemente terminado a época de pré-inscrições para os mais novos pretendentes de iniciarem o seu percurso no Conservatório – Escola das Artes da Madeira, e sabendo que este percurso, tal como qualquer um na nossa vida, implica tanto momentos de alegria, satisfação e concretização como os de tribulações, dúvidas e desmotivação, talvez valha a pena dar alguma luz acerca da perspetiva do caminho à frente.
Diversos estudos independentes calcularam que a proficiência (diga-se, até, ao nível profissional!) num instrumento ocidental tende a exigir cerca de 10.000 horas de prática acumulada. Aiiii… dez mil horas, quem seria tão louco? Dá-se uma volta-face e nem pensar fazer o primeiro passo!
Mas calma, as contas não são tão assustadoras quanto isso. Com uma média de 10 anos de aprendizagem, entre a iniciação e os cursos oficiais, estudando apenas 1 hora de 2 em 2 dias, ou meia horinha por dia, e nos anos finais um pouco mais, talvez uma horinha mais por dia, já estamos com quase 3 mil horas. Quem continuar, nos 5 ou, frequentemente, mais anos de estudos superiores, chega no mínimo a umas 7 mil horas. E os mais ambiciosos vão continuar durante mais uns anos para chegarem, ou ultrapassarem, às tais 10 mil, e serem consagrados como profissionais plenos.
O caminho, ou melhor, os caminhos, naturalmente, estão abertos, e cada um encontra o seu. É inegável que as experiências musicais vividas estão estritamente ligadas ao poder da emoção. Quando uma pessoa está a aprender um instrumento musical, se estes sentimentos forem positivos, podem catalisar o desenvolvimento dum compromisso com a sua participação musical, mesmo quando realizam tarefas repetitivas rotineiras, entendendo-as como necessárias para o seu desenvolvimento. No entanto, quando negativos, podem ser uma poderosa força que limita o envolvimento musical. Quantas pessoas não conseguem motivar-se para praticar porque se sentem aborrecidos, solitários, ou a estagnar?
Pesquisas demonstram que uma imersão focada, associada a sentimentos positivos e energizantes, contribui para garantir o compromisso dos alunos com a prática musical e, consequentemente, o seu envolvimento. Assim, compreender as emoções que vivenciam durante essas experiências de aprendizagem é crucial para ajudar a ampliar o apelo da música como área de aprendizagem.
Os estudos relacionados com as crenças sobre si mesmo são tão prevalentes na investigação em psicologia que dominam a área. Não surpreende que a investigação dessas crenças e a música em contextos ocidentais revela que os jovens experimentam a maior satisfação quando estão altamente envolvidos com a música. Uma conjugação dos fatores tais como apoio externo e a motivação por parte de um professor ou pai, ajuda a experimentar recompensas intrínsecas associadas às emoções positivas do envolvimento musical.
E agora estas conclusões foram validadas a nível do País, através dum estudo que tive o privilégio de realizar em conjunto com Rúben Sousa, psicólogo do Conservatório, e que foi recentemente apresentado no Congresso Internacional de Educação Artística no Funchal. Abordando alunos de 3.º ciclo do Ensino Artístico Especializado nos conservatórios oficiais em Portugal, incluindo as regiões autónomas, o estudo confirma que experiências de aprendizagem positivas estão intimamente ligadas à construção da autoeficácia musical e à formação de expectativas de resultado favoráveis.
Desta forma, podemos dizer que maiores níveis de autoeficácia, melhores experiências de aprendizagem, expectativas mais positivas, maior identificação pessoal, e a sensação
de a decisão ter sido feita pelo próprio e está a ser reconhecida pelos pares, contribuem para uma maior clareza vocacional.
E tudo isso começa com aquele primeiro dos 3 mil (ou 7 mil, ou 10 mil) passos – o passo corajoso, por ter sido feito por vontade própria, e confiante, por ser apoiado e entusiasmado.