Manuel, guarda no Tarrafal, levava recados dos prisioneiros para fora
Nhuné conheceu a Colónia do Tarrafal quando ia receber comida da mão dos presos portugueses no portão. Foi no Campo da Morte Lenta que teve o seu primeiro emprego, como guarda, enquanto levava recados para fora. Não pensava na prisão. Pensava na alimentação, que era muito escassa em Cabo Verde. Pensava em comer, porque eu tinha mulher e filhos, antigo guarda auxiliar de vigilância da colónia penal. Em 29 de outubro de 1936, chegaram ao Campo de Concentração do Tarrafal, em construção, os primeiros 152 detidos antifascistas, obrigados a trabalhar sob um sol escaldante na construção do muro que seria a própria prisão. O pai de Manuel começou a trabalhar na colónia penal em 1942, como ajudante de servente e levou-o para o interior, onde estavam os presos políticos todos portugueses. Chegava aqui para trazer o almoço todos os dias para o meu pai.
Tinha 13 anos, Nhuné percorre o interior do antigo campo de concentração criado pelo regime fascista português em 1936, na sua terra-natal, e que assim funcionou, inicialmente, durante quase 20 anos. O benefício que dava para nós era a recolha de alimentos que sobravam e que nos davam. No início a colónia penal recebia a comida diretamente da metrópole, enquanto o Tarrafal, norte da ilha de Santiago, vivia uma forte seca. Eram dois presos que traziam a comida que sobrava com um balde grande. A distribuição tinha de ser na entrada, à frente dos guardas portugueses. Essa comida era então distribuída pelos moradores, sobretudo na aldeia de Chão Bom, terra que mais tarde daria o nome ao campo de concentração. Em 1950 foi guarda auxiliar de vigilância. Fazia o trabalho no talude e os guardas portugueses dentro, os cabo-verdianos, à volta. Os guardas portugueses é que falavam com os presos, nós não tínhamos direito. Mas falávamos, quando eles iam trabalhar fora. Manuel casou-se em 1954, com 25 anos, quando vivia do que ganhava a vigiar o exterior da prisão, oito horas por dia. Começávamos a ganhar 215 escudos para sustentar a família. Na sua primeira fase, o Tarrafal recebeu 340 presos políticos portugueses e 32 morreram ali. Com o seu primeiro encerramento, Manuel deixou o trabalho de guarda. Contudo, em 1962, foi reaberto com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom, para encarcerar os anticolonialistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, no total de 230. Nunca teve problemas com os guardas portugueses. Não tinha nada a fazer. O que tinha a fazer, fez antes. Fazer alguns mandados secretamente. Aproveitando ter caído nas boas graças dos guardas portugueses, Manuel levava recados dos presos portugueses, os que tinham liberdade condicional normalmente a marcar encontros com mulheres locais. Não foi apanhado, teve sorte. O jovem guarda conheceu vários portugueses ali colocados. Relatavam-lhe tentativas de fuga para Espanha ou o envolvimento com o PCP. Ainda criança, Nhuné começou a ouvir ali a história de Bento Gonçalves , com quem se cruzou em pequeno. Foi secretário-geral do PCP até morrer no Tarrafal, com biliosa, sem tratamento. Grande homem. Um preso respeitado. E quando houve reclamação de comida mal feita, foi através dele. Nenhum tinha coragem para falar com o director, só ele. Veio para aqui porque enfim… O Salazar tinha medo dele. Manuel conheceu um diretor da cadeia que chicoteava as crianças que se concentravam no exterior, à espera de comida. Os meninos vinham aqui pedir comida e ele chicoteava-os. Não tinha coração. Sobre as condições no Tarrafal. Era horrível. Chovia muito, mas também fazia muito sol. Os provenientes da capital eram terríveis para os guardas portugueses, que os acompanhavam ao mar, próximo do campo. Fugiam nos barcos, mas eram logo apanhados. Depois de 1956, Manuel deixa o Tarrafal. Juntou-se ao movimento pela independência de Cabo Verde e, com o sexto ano de escolaridade, foi chamado para a contabilidade da Câmara Municipal do Tarrafal, após a saída dos portugueses. Tinha pouca gente que sabia ler em Cabo Verde. Ficou como chefe da contabilidade. Desde 2000 o Campo alberga o Museu da Resistência. Foi classificado Património Cultural Nacional em 2004 e integra a lista indicativa de Cabo Verde a património da UNESCO.