Venceu o vazio
O resultado não é um projeto, é um sintoma. Um PS exausto, sem chama, sem ideias mobilizadoras, sem ligação real ao país produtivo, à classe média cansada, aos jovens que já nem se dão ao trabalho de ouvir. A esquerda, no seu todo, está moribunda: perdeu linguagem, perdeu causas, perdeu povo. Vive de memórias e de moralismos alguns deles mortos nos locais onde foram governo.
Entretanto, Luís Montenegro aproxima-se do fim como começou: frágil. Nunca foi forte, nunca liderou verdadeiramente, nunca conseguiu criar um eixo político claro. O PSD nacional sem identidade, perde eleitorado por todos os lados — uns fogem para a abstenção, outros para o protesto. E o protesto hoje tem nome.
André Ventura ronda os 35%. E não, não porque tenha respostas sólidas, mas sim porque os outros deixaram de ter perguntas relevantes. O guião está feito . Um veto aqui, uma crise institucional ali, um problema jurídico real ou inventado — e o Governo cai. Não por força do Chega, mas pela fraqueza estrutural do sistema. Ventura não precisa de conquistar o poder: basta-lhe empurrar um edifício já rachado.
E atenção à Madeira. O “método Ventura” espalha-se sempre pelos mesmos atalhos: conflito, ressentimento, casos mal explicados, instituições em silêncio, elites a protegerem-se mal. Basta um erro, um abuso, um processo mal conduzido — e o discurso cola. Não porque seja justo, mas porque encontra terreno fértil, quer nos media quer nas redes sócias quer no popvox .
O problema não é apenas Ventura. O problema é que só Ventura galvaniza.
Não por mérito próprio, mas por falência coletiva. Quando PS e esquerda se tornaram irrelevantes, e o PSD se tornou amorfo, o espaço foi ocupado por quem grita mais alto. A política deixou de ser escolha entre projetos e passou a ser reação emocional. Talvez esteja a chegar o momento — lá e cá, no continente e na Madeira — de surgir uma nova onda política séria, que recolha: i) os socialistas moderados e liberais, órfãos de casa, ii) os sociais-democratas centristas, cansados da indefinição; iii) e todos os que não se revêm nem no populismo, nem na inércia. Uma onda que fale de instituições fortes, economia real, responsabilidade social sem infantilismo, autoridade sem autoritarismo, liberdade sem cinismo centrada no Cidadão e na Família através das empresas e da produtividade .
Se isso não acontecer, o futuro está escrito. Não porque Ventura seja inevitável.
Mas porque o vazio, quando não é preenchido com ideias, é sempre ocupado pelo ruído.