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A, B, C, … Ingrid, Joseph, KRISTIN, Leonardo, Marta, N, O … A, B, C, … Que lições a retirar para a RAM?

É necessário melhorar os sistemas de alerta precoce que permitem prever com maior precisão onde e quando os impactos serão mais severos e assegurar uma maior literacia climática das populações

A passagem da Depressão Kristin voltou a expor, de forma clara, a crescente vulnerabilidade do país a fenómenos meteorológicos extremos. Em Portugal continental, assistimos a um “comboio” de tempestades, sucedendo às depressões Ingrid e Joseph, seguida da Leonardo e Marta, num encadeamento que trouxe chuva persistente, vento intenso, agitação marítima significativa e danos severos em infraestruturas, habitações, áreas industriais, agrícolas e florestais e extensas zonas inundadas.

O aquecimento global aumenta a energia disponível na atmosfera, intensificando sistemas depressionários, tornando mais frequentes os eventos extremos, em latitudes onde tais fenómenos eram mais raros ou inexistentes.

Na RAM, as modificações dos padrões climáticos têm consequências particularmente complexas. A orografia acidentada da Madeira intensifica cheias rápidas, aluimentos e movimentos de vertente, sobretudo quando a precipitação é intensa e ocorre de forma persistente, agravando o risco de galgamentos na foz das ribeiras, onde se concentram as populações e infraestruturas importantes. De registar o trabalho desenvolvido na sequência da aluvião de fevereiro de 2010 que poderá ter de ser estendido a outras ribeiras.

Adicionalmente, a combinação de padrões atmosféricos alterados com a nossa orografia singular cria condições particularmente propícias a eventos severos de vento, sendo especialmente desfavoráveis quando os ventos predominam do quadrante sul, onde se concentra a maioria da população e das infraestruturas críticas. Um grande sistema convectivo, gerador de instabilidade atmosférica, pode transformar-se num risco sistémico para edifícios, gruas de construção, árvores, torres de telecomunicações, redes elétricas e outras infraestruturas críticas.

O setor energético, um dos mais importantes para a vida normal do dia-a-dia, pode ser afetado por ventos severos que obrigam à paragem de aerogeradores, danificam painéis fotovoltaicos e redes elétricas (embora haja redundância/recurso para parte das linhas aéreas), enquanto a precipitação intensa potencia derrocadas, impactando a produção hídrica pelos danos em levadas e afetando também o abastecimento de água às populações. É aqui que soluções como micro redes elétricas, autónomas, ganham relevância estratégica para garantir o funcionamento de infraestruturas críticas.

O incremento da frequência e intensidade de episódios extremos de agitação marítima, conjugado com a elevada concentração de infraestruturas na orla costeira, potencia a exposição à agitação marítima severa, aos galgamentos costeiros e aos processos de erosão litoral, aos quais a ilha do Porto Santo se revela particularmente suscetível em função das suas características geomorfológicas.

Do mesmo modo, é necessário melhorar os sistemas de alerta precoce que permitem prever com maior precisão onde e quando os impactos serão mais severos e assegurar uma maior literacia climática das populações: prevenir, antecipar, preparar e atuar são verbos que terão de fazer parte da rotina de uma região cada vez mais exposta, pelo que a articulação entre entidades regionais deve ser robustecida para assegurar uma resposta rápida e eficaz.

A Depressão Kristin, que integrou o “comboio” de tempestades que vêm assolando o país, são mais um sinal de que o clima está a mudar rapidamente. A denominação de tempestades, definida anualmente antes da época de outono/inverno, que utiliza nomes próprios em ordem alfabética para facilitar a comunicação, avisos à população e estudos meteorológicos, vêm esgotando as letras do abecedário. Urge transformar vulnerabilidade em prevenção, preparação e capacidade de resposta. Devemos acelerar medidas de adaptação e resiliência, apostar numa avaliação de riscos que integre de forma efetiva os cenários mais extremos, rever o ordenamento do território, identificar e reforçar infraestruturas vulneráveis e adaptá-las a esta nova realidade, integrando o conhecimento técnico/científico no planeamento, antecipação e gestão de eventos extremos.

As tempestades extremas são inevitáveis. A vulnerabilidade, essa, pode e deve ser reduzida, com ciência, planeamento e Engenharia.