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A Madeira vista da embaixada norte-americana

Os Kissinger Cables (ou Kissinger Files) são uma coleção de mais de 1,7 milhão de documentos diplomáticos dos Estados Unidos, publicados pelo WikiLeaks em abril de 2013.

Nos Kissinger Cables - o grande conjunto de telegramas diplomáticos dos EUA de 1973–1976 - há materiais que têm relevância histórica para Portugal, sobre o período da revolução portuguesa iniciada a 25 de Abril de 1974. Tem particular interesse toda a documentação produzida após a chegada de Frank Carlucci a Portugal, em janeiro de 1975. Aquele embaixador dos EUA em Portugal durante a revolução admitiu que todas as atividades da CIA no país no Verão Quente de 1975 foram coordenadas diretamente por ele.

A Madeira e o Porto Santo não têm um tratamento isolado, mas existem diversas abordagens inseridas no que se reporta a Portugal nos telegramas da embaixada dos EUA enviados para o Departamento de Estado em Washington. Os telegramas de 1974–1976 documentam como os diplomatas norte-americanos acompanhavam com atenção a situação na Região.

O “Telegrama 1975LISBON04743_b — Movimento de Independência da Madeira” [agosto de 1975] reporta ao Departamento de Estado que o separatismo na Madeira parecia estar a crescer.

Surgem comentários referindo que a FLAMA alimentava e se alimentava do descontentamento popular e «afirmava ter armas e pessoal treinado». Reúnem-se elementos de avaliação dos fatores políticos e económicos que fomentavam aquele clima.

Existem paralelismos entre as referências feitas à FLAMA e as atividades terroristas do MDLP no norte de Portugal, como projetos que visavam derrubar forças de esquerda e influenciar a política nacional, com métodos semelhantes (violência e bombistas), e com a mesma motivação ideológica. Estava em andamento um fenómeno mais amplo de violência política nacional contrarrevolucionária pós-25 de Abril.

Em relação à Madeira, que foi considerada pelos EUA como parte do “problema atlântico”, a Autonomia foi defendida como “solução aceitável”. A Autonomia regional, que viria a ser institucionalizada depois, acabou por surgir, nos bastidores diplomáticos, como uma válvula de escape, um modo de conter radicalismos sem romper o Estado. A Autonomia não foi vista como ameaça, mas como forma de estabilização.

Aparecem documentos sobre “O iate Apollo”, acusado de ligações à CIA, (08-10-74); sobre a ocupação da Emissora Nacional (07-10-1975); o comunicado da FLAMA (10/9/1975) com a decisão de expulsar da Madeira todos aqueles que «tentaram retardar o processo irreversível da independência da Madeira» e a lista «dos que devem ser expurgados».

Nos 50 anos da Autonomia os Kissinger Cables exigem uma leitura atenta e crítica.