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Vamos, mais uma vez, a votos!

Começamos, como país, há muito, muito tempo, há muitos, muitos anos, a construir uma casa, uma casa que desse guarida para os dias em que já não tivesse vontade, força para continuar a deitar mão à obra e continuar com a construção iniciada há muito, muito tempo.

Não foi construída por uma só pessoa (ninguém tem a capacidade de construir seja o que fôr se não tiver ajuda, por menor que seja). O edifício que foi crescendo pouco a pouco, esforço a esforço, e até aos dias de hoje continua crescendo, às vezes, a maioria das vezes, de forma imperceptível, mas crescendo, modificando-se a cada dia que passa, nunca atingindo a sua forma final, com a ajuda da imaginação, umas vezes construindo um quarto de palha ou ripas de madeira, tal como na história dos Três Porquinhos, que se ia com o sopro dos dias, outras utilizando tijolos e cimento a dar segurança ao edifício que se ia compondo, ajudado por uns pós mágicos que faziam voar e a dificultar o crescimento do construtor, qual Peter Pan que lutava contra os Capitães Gancho que ia encontrando pela frente.

Os quartos foram sendo construídos na medida em que eram necessários e, desconstruídos quando a necessidade passava ou uma necessidade nova emergia dando inutilidade à primeira necessidade, e serviram para albergar sonhos, imagens, realidades, ilusões, amores e emoções, como quadros de um pintor forjados no dia-a-dia que um dia passaram a realidade.

O País foi construindo a casa da democracia com quartos feitos de liberdade, fraternidade e igualdade, guardando ou tentando esconder no sótão os rancores nocivos.

Parafraseando um laureado com o Prémio Nobel da Literatura, músico de profissão, que estou em crer que não o ofereceria nunca a qualquer um que o cobiçasse sem o merecer:

O circo desceu à cidade…

Não vou, nem quero entrar em considerandos sobre se este é santo ou aquele é demónio, porque santos e demónios há-os em todos os lados para onde voltemos o olhar.

Os santos não precisam que falemos por eles, por isso são santos, e aos demónios, a melhor forma de os enfrentar é dizendo-lhes de frente que não temos medo das suas malvadezas, que não nos amedrontam com ameaças vãs de que vão fazer isto e mais aquilo quando sabemos bem que é preciso muito mais do que uma careta para quebrar o querer de um povo que já passou por muitos demónios e que os tem conseguido esconjurar.

Prefiro considerar e pensar que, se estivemos estes anos todos desde Abril de 1974 a tecer lóias aos benefícios da democracia, por alguma razão foi.

Temos uma democracia que não sendo perfeita, foi pensada, desde que foi criada e aprovada, de forma a que haja mecanismos de auto-proteção, mesmo que haja a tentação de os subverter, e que esses mecanismos, umas vezes diabolizados e outras vezes santificados por todos os quadrantes políticos, têm a capacidade de não deixar que as tentativas totalitárias sejam bem sucedidas.

Negar esta capacidade, dizer que a democracia está em perigo no nosso país, diabolizar os que eventualmente dizem querer ter tentação totalitária, estamos reconhecer falta de capacidade à democracia para se defender de ataques vis venham eles de onde vierem - e já tivemos exemplos disso no passado, indo assim ao sótão buscar velhos rancores cuidadosamente guardados.

Não se deve diabolizar um seguro nem santificar uma ventura tal como não devemos diabolizar eventual ventura nem santificar eventual seguro; devemos sim raciocinar e acreditar e, sim, lutar por isso, pelo facto de que o nosso país teve a capacidade de criar um sistema democrático capaz de conter eventuais investidas de sinal totalitário.

Há não muito tempo, Sócrates tentou um totalitarismo encapotado e não conseguiu.

Também havemos de conseguir agora, democraticamente, sem que haja necessidade de montar um qualquer macabro espectáculo circense como prato a ser servido e apreciado, tipo enforcamento do “velho oeste”, sem juízes habilitados a julgar.

Não estamos nos Estados Unidos onde há cada vez mais gente desolada porque deixaram que os mecanismos democráticos não resolvessem a falta de carácter e a estupidez de uma pessoa que, queiramos ou não, não está só!

Instalou-se uma certa histeria na “defesa” da democracia, fazendo crer que o nosso sistema democrático é frágil e não capaz de se auto-defender, o que acaba por subverter todos os princípios que guiaram o povo português a aderir massivamente no dia 26 de Abril de 1974 ao levantamento militar da véspera, e que levou a que a democracia tão esperada se consolidasse com todos os seus mecanismos de salvaguarda!

Dentro de alguns dias vamos a votos, mais uma vez, para acrescentar mais um quarto à casa que comummente vamos construindo. É um direito democrático dizer em quem se vota, tal como é um direito democrático não dizer em quem se vota, sem que nem uns nem outros sofram qualquer estigmatização por isso, estigmatização que só serve para alimentar o desejo mórbido de espectáculo macabro, por muito sentido figurado que lhe queira atribuir e acrescentar mais um ror de rancores aos que já poluem o sótão!