Como matar o antissistema
Não é segredo para ninguém que o país e a Europa vivem um período político polarizado. Embora existam fortes apelos ao “centro moderado”, surge uma fatia significativa da sociedade que prefere uma mensagem polarizada.
Mensagem difundida tanto nas redes sociais como nos canais de televisão privados, que baseiam todo o seu projeto jornalístico em audiências. Os conteúdos inflamados, ora contra a emigração, o estado da saúde e/ou a crise da habitação, garantem share e visualizações independentemente da plataforma onde se encontrem.
Ninguém duvida que esses, como outros setores, estão sob uma forte pressão. Seja pelas expectativas criadas de um Estado Social forte, seja pela incapacidade de as famílias recorrerem a outras respostas nas mais diferentes áreas, há muito tempo a esta parte existe a percepção de que as nações correm atrás do prejuízo. Não há áreas de governação que sejam exemplo, referência e de satisfação do cidadão.
Acreditamos que esta insatisfação não assenta só na frustração de quem não viu a sua expectativa atendida. Fundamenta-se também numa excessiva burocracia que desvirtua um normal funcionamento do Estado perante os cidadãos. Ou seja, mais do que a falta de profissionais, ou uma procura muito superior à oferta daquilo que se procura, o grande problema também reside na (in)capacidade de as nações atacarem os problemas/cumprirem as expectativas com prontidão.
Sobre este aspeto, lembramos muitas vezes um exemplo da governação de Cavaco Silva: entre a aquisição do edifício, as obras de reconversão e a sua inauguração ao público, a abertura e a fundação Serralves, no Porto, demorou pouco menos de um ano. Um investimento que trouxe, tanto a nível cultural como económico, um valor acrescido à dinâmica de todo o Norte do país.
No entanto, aos dias de hoje, se um Governo tomasse uma decisão de investimento destas, em termos de investimento, envergadura e importância para as populações, quantos anos seriam necessários para a conclusão deste processo? Provavelmente, só no lançamento do concurso público e na sua adjudicação, demoraríamos mais do dobro do tempo da aquisição, conceção e inauguração mencionados no exemplo anterior. Isto choca, violentamente, com a realidade diária das sociedades contemporâneas.
Hoje, tudo está ao alcance de um clique, à distância de uma mensagem ou da conclusão de uma pesquisa numa página de IA. Todavia, parece que as leis que regulam os estados fizeram o caminho inverso: há mais regulação, legislação e normas que atrasam todos os processos. Enquanto a vida das pessoas acelerou, a dos estados abrandou.
Estados por excessivamente burocráticos e com forte pendor legislativo tornam-se presas fáceis para o populismo antissistémico que ameaça as democracias, por duas ordens de razão: 1) facilmente se lançam cortinas de fumo sobre a opacidade das normas que regulam as relações entre o estado e os cidadãos criando a ideia que uns são beneficiados face aos outros; 2) quando o próprio sistema de emaranha nas suas normas, por vezes contraditórias entre si, cria todas as condições para criar injustiças e fomentar o sentimento de revolta.
Para nós é claro: o antissistema alimenta-se do princípio excessivo de legislar sobre tudo, responder a tudo e alimentar tudo. O maior problema do sistema político é de que como qualquer sistema, não existe capacidade de ser ágil, célere e/ou previsível.
Por isso, o antissistema não se resolve com discursos, ou atestados de menoridade a quem vota nessas forças populistas. O voto nos populistas é, em norma, a última resposta democrática ao cansaço, frustração e à falta de soluções dos sistemas moderados.
A solução passará sempre pela criação de condições para resolver os problemas das pessoas com eficácia e celeridade. Sem tantos rodriguinhos, papéis ou documentos. A Democracia como a conhecemos sobreviverá se matarmos a pior gordura do estado: a burocracia.