Escutar cria valor
O normal é falarmos muito, interrompermos depressa, respondermos antes de compreender
Regresso hoje à escrita no Diário de Notícias da Madeira depois de uma pausa. Faço-o com uma rubrica chamada Notas à margem, porque é muitas vezes fora do centro do ruído diário que se percebe melhor o que sustenta a nossa vida coletiva, e também pelo duplo sentido da palavra notas, que junta duas paixões pessoais, o gesto de escrever e o universo musical que me acompanha desde sempre. Esta crónica nasce dessa intenção de observar com tempo e chamar a atenção para aquilo que, sendo essencial, nem sempre ocupa as manchetes.
Por exemplo, às vezes, ou melhor ainda, muitas vezes, no meio de uma conversa ao telefone, perguntam-me: “ainda estás aí, Paulo? Estás” E eu costumo responder: “estou, claro. Estou a ouvir-te. Por isso estou calado.” A resposta provoca quase sempre risos e um pequeno embaraço, como se o meu silêncio fosse uma falha. Hoje, estar calado é facilmente confundido com ausência, distração ou mesmo sinal de desinteresse pelo outro. O normal é falarmos muito, interrompermos depressa, respondermos antes de compreender. Em suma, escutamos mais para reagir e menos para acolher.
Talvez por isso a música continue a ser um espaço singular da sociedade contemporânea. Um espaço nobre, não por ser elitista, mas porque nela a escuta do outro não é opcional, é condição. Sem escuta, não há música, ou pelo menos não a sentimos nem a compreendemos. E não será esta uma metáfora clara para muitos relacionamentos pessoais? Sem escuta, não há música, mas também não há relações verdadeiramente vivas.
No final de janeiro, esse princípio tornou-se particularmente visível num concerto de tributo ao cantor Max, realizado no Teatro Municipal Baltazar Dias. O espetáculo contou com a voz solo de Francisco Jesus, que assumiu com maturidade e sensibilidade o desafio de interpretar o icónico artista madeirense Max, figura central da cultura musical da Região. Uma das marcas mais fortes desta apresentação foi a juventude dos músicos envolvidos, com idades entre os 15 e os 23 anos, mostrando de forma clara que as novas gerações continuam a apostar na preservação e reinvenção da música tradicional. O concerto assinalou também seis anos de existência do grupo Cordophonia. Mais do que os aplausos finais, ficou o silêncio atento da sala, sinal inequívoco de escuta partilhada. Muitos parabéns às dezenas de jovens que estiveram em palco num concerto notável, com arranjos originais e interpretações de grande qualidade, protagonizadas por atuais e antigos alunos do Conservatório. Quem esteve presente e verdadeiramente escutou saiu com uma sensação clara de surpresa e satisfação perante o elevado nível musical alcançado.
O mesmo se verifica no aCORDE, Festival Internacional de Cordofones Tradicionais Madeirenses, que decorreu ao longo desta semana. O programa deste ano atingiu um nível excecional, reunindo um dos mais reconhecidos músicos de ukulele do mundo, o canadiano James Hill, com músicos portugueses de enorme qualidade, entre os quais o notável músico madeirense André Santos, em diálogo com Salvador Sobral. Juntaram-se ainda os grandes embaixadores dos cordofones tradicionais e professores do Conservatório, Roberto Moniz e Roberto Moritz, com Pedro Gonçalves, num encontro que envolveu também centenas de alunos das escolas da Região. Muitos parabéns à equipa da Direção de Serviços de Educação Artística da Direção Regional de Educação, que elevou o programa deste ano a um nível de excelência.
Nos próximos dias, essa exigência da escuta continuará a marcar a agenda musical da Região. A Orquestra Clássica da Madeira apresenta, no dia 7 de fevereiro, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, um concerto de grande relevo artístico, celebrando os laureados do Concurso Nacional Luiz Peter Clode, organizado pelo Conservatório. Sob a direção do maestro Tiago Oliveira, o programa reúne duas jovens intérpretes, Maria Inês Ornelas (Acordeão) e Maria do Mar (Violoncelo), num diálogo musical que cruza Beethoven, Majkusiak, J. C. Bach e João Domingos Bomtempo.
Também nos dias 7 e 8 de fevereiro, o Conservatório - Escola das Artes da Madeira acolhe o Concurso Jovem.COM (CJ.COM), promovido pelos Conservatórios Oficiais de Música públicos, reunindo alguns dos melhores alunos de instrumento e canto do país. Aqui, a escuta assume outra forma: escutar para aprender, para melhorar, para crescer. Num mundo saturado de vozes, a música continua a lembrar-nos que há lugares onde a escuta não é um luxo nem um adorno. E talvez seja por isso que permanece como um dos espaços privilegiados e verdadeiramente nobres da nossa vida em comum.