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Crónicas

Cada vez menos português

Esta Autonomia ainda está no prazo de validade?

Portugal é um país infeliz.

Com História densa de grandes acontecimentos e lideranças em muitas ocasiões, aproxima-se do primeiro milénio de independência nacional carregado de incertezas e insatisfações.

Não somos um grande país e o nosso ranking de sucesso internacional é reduzido. Ninguém nos dá relevo e importância. Valemos pouco.

Por isso, os portugueses questionam-se porque nomeiam portugueses para lugares de destaque na condução internacional: António Guterres secretário-geral das Nações Unidas; José Manuel Durão Barroso presidente da Comissão Europeia; e António Costa presidente do Conselho Europeu.

Não conseguimos governar Portugal mas escolhem-nos para dirigir o mundo. Caricato, no mínimo. Não devem ser difíceis as funções que lhes atribuem. Não devem esperar nada delas.

Como vamos
pedir o voto
para
deputados
proibidos
de falar?

Aqui dentro, neste rectângulo histórico, com dois arquipélagos adjacentes e dispersos aos quais só recentemente lhes acrescentaram todo um imenso território marítimo, vamos acreditando num futuro de esperança que nunca chega. Vivemos de memórias, angústias e sacrifícios que nunca resolvemos.

Já não inventamos nada. Pior é nem copiarmos o que de bom poderia ajudar o país e os portugueses. Estamos imobilizados entre obrigações que nos impõem e insuficiências que, como estão à vista de todos, não ultrapassamos.

Somos testemunhas das nossas eternas limitações. Pior, somos cúmplices.

Neste emaranhado de eventos mundiais, em particular europeus, Portugal vê-se cada vez mais afastado das decisões que as potências tomam em nome de uma ordem internacional da qual praticamente não fazemos parte.

O mundo mexe lá fora. Aqui dentro é tudo como era, como sempre foi. Acreditamos que mesmo sem nada mudar tudo pode ficar melhor.

Não é assim!

Pensamos que a constituição deve ser para sempre. O estatuto de autonomia eterno. A lei da mobilidade para toda a vida. É melhor não mexer em nada.

Temos a maior das debilidades: sabemos criticar e bilhardar mas não protestamos nem nos revoltamos. No fim de tudo, comemos e calamos.

Fomos embalados numa sucessão de conquistas autonómicas as quais, por tão fácil consentimento central, não nos devem ter sido favoráveis. Pedimos e aceitámos o que nos deram.

Não lutámos. Não sofremos. Não tivemos que fazer sacrifícios. E, tudo o que assim vem, geralmente não é bom.

Até aceitámos que elegêssemos deputados os quais para usarem da palavra na Assembleia da República precisam autorização do chefe do partido em Lisboa. Esta é a suprema humilhação. Em tempos, já democráticos, sempre ouvi que era exigido aos deputados do PSD pedido de exoneração de deputado, sem data, para o caso de não seguirem disciplina de voto. Falei nisto em vários congressos do PSD e julgo ter desaparecido essa ofensa. Mas a mordaça aos deputados do PSD/M persiste e é inaceitável.

O discurso do líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, no debate sobre a lei da mobilidade, fez-me regressar à ideia da autonomia soberana, da qual não tenho medo, seria mais útil, dar-nos-ía mais responsabilidade e sentido colectivo à nossa vida em comum.

Aquela ideia que os deputados representam o país e não apenas o seu círculo eleitoral para além de óbvia não permite excluir um deputado eleito pela Madeira de falar sobre o seu espaço político. Eu não elegi qualquer deputado dos Açores ou de outro distrito continental. Não sei quem são nem quero saber. Eu votei em seis candidatos pela Madeira. Três deles têm a minha assinatura e confiança. A Assembleia da República até tem um deputado madeirense eleito por Setúbal, o que foi possível pela fraqueza do PS nacional e falta de toda e qualquer credibilidade do PS regional. E reconheço boa capacidade de trabalho e intervenção ao deputado Carlos Pereira.

O que Hugo Soares devia ter explicado é porque nós madeirenses tivemos (e continuamos) a pagar um terço dos custos de recuperação da tragédia do 20 de Fevereiro de 2010 enquanto as regiões do continente, afectadas pelo presente temporal, não terão qualquer encargo particular: será tudo pago pelo orçamento de Estado, sem contas regionais. E, já agora, o mesmo Hugo Soares devia garantir que todas as famílias e empresas que estão a receber ajuda humanitária extra têm as suas contribuições fiscais regularizadas.

O peixe morre pela boca e tanto Luís Montenegro como Hugo Soares já são incoerentes: os continentais estarão isentos das obrigações que querem impor aos madeirenses.

É claro que cada vez sou menos português. Já não canto o hino nacional há muito tempo. O regional, de tão difícil que o fizeram, apenas sei alguns versos. Por isso admiro aqueles que afirmam a sua diferença, dão a vida por um novo começo e não temem sofrer para dar uma perspectiva e vida melhor aos que se seguem. Admiro os que querem se libertar.

A juventude sempre foi a melhor parte da Madeira. Confiemos nas novas gerações e na sua ambição pelo fim deste servilismo colonial que tanto contestamos por palavras mas que aceitamos de cócoras.

Desafio o líder parlamentar social-democrata regional, Jaime Filipe Ramos, a apresentar uma proposta à Assembleia Legislativa Regional condenando os princípios retrógrados, colonialistas, ofensivos e separatistas de líderes nacionais traidores da coesão nacional. Eu sei o incómodo para quem quer estar a bem com todos, principalmente com os cabecilhas de Lisboa, mas há momentos que não podemos deixar de marcar na nossa História colectiva. Ou estamos do lado do respeito que nos devem ou fracassamos no individual e no colectivo.

Espero que o PSD-M não tenha de ir a reboque de outros no que sempre liderou e foi campeão indiscutível: liberdade, democracia e autonomia.

Se não queremos trair a nossa História e desejamos honrar os pilares das nossas convicções então não deixemos passar sem resposta firme este momento de vergonha da vida de Portugal.

Sem isso, quantos de nós deixaremos de acreditar na causa que defendemos mas, infelizmente, pela qual não temos lutado?

Temos algum valor político que foi ofendido? Então não deixemos passar como de nada se tratasse!

Temos de assegurar que esta Autonomia ainda está no seu prazo de validade. O que cada vez mais custa a crer.

Pergunto: como vamos pedir o voto, em próximas eleições, para deputados proibidos de falar ? Haverá descaramento para tamanha fraude? E quem aceita ser candidato?

Da minha parte, ainda que em final de percurso partidário, mantenho apenas querer ser MADEIRENSE DE PRIMEIRA antes que PORTUGUÊS DE SEGUNDA.

Sei muito bem o que escrevo, mais uma vez.

Marítimo

Parabéns à época vitoriosa do Marítimo. Boa gestão da equipa com subida garantida. Hoje, a única equipa madeirense garantida na 1ª Liga na próxima época.