Madeira sem voz
Nos últimos dias, a Madeira assistiu, salvo erro, a um episódio que ficará na memória cívica como um símbolo de apatia política e de rendição institucional: os três deputados do PSD-Madeira presentes no Parlamento não tiveram sequer o uso da palavra em assuntos regionais de crucial importância para a autonomia e para o futuro socioeconómico da Região. No centro da democracia representativa, onde se exige voz ativa e defesa intransigente dos interesses dos madeirenses, o que se viu foi um silêncio perturbador — um silêncio que não confronta, não interpela, não reivindica.
O que fez o PSD-Madeira? Pouco mais do que o inevitável lamento formal. Não houve pedido firme de palavra, não houve gesto de afirmação política, não houve sequer um sobressalto de autonomia face à disciplina partidária. A Madeira ficou, naquele momento, órfã de voz.
Ao longo de quase cinquenta anos de autonomia, nunca o PSD regional pareceu tão diminuído perante o aparelho nacional. Já se ouviu dizer que, para as autonomias, pode ser útil que existam cores políticas distintas entre o centro e a Região, para reforçar a negociação e o equilíbrio institucional. Mas o que hoje se observa é diferente: é um partido regional que, depois de anos a afirmar independência retórica, se vê ignorado quando mais precisa de influência.
Recorde-se que Miguel Albuquerque afirmou publicamente, em março de 2025, que não precisava de Luís Montenegro na campanha regional, sublinhando que “só partidos fracos precisam de bengalas” e que o PSD-Madeira sempre caminhou pelos seus próprios meios. Noutras ocasiões, adotou um tom igualmente distante face à liderança nacional, deixando transparecer que a autonomia política da Madeira não dependia do beneplácito de Lisboa. Essa postura, compreensível como afirmação regional, foi muitas vezes marcada por uma certa displicência estratégica em relação ao PSD nacional.
Hoje, porém, paga-se o preço dessa tensão mal calibrada. Quando o centro decide ignorar, fá-lo com frieza institucional. E quando a disciplina partidária se impõe, impõe-se sem exceções regionais. Quem perde é a Madeira — não o aparelho partidário, não os dirigentes, mas o cidadão comum, o ilhéu que espera que alguém fale por ele.
Alberto João Jardim, com todos os seus excessos, jamais aceitaria semelhante apagamento político. Poder-se-ia discordar do estilo, mas não da firmeza. Para ele, a autonomia era confronto quando necessário, era pressão legítima, era negociação dura. A política era criação de oportunidades, afirmação social, causa concreta.
Hoje, ao contrário, assiste-se a uma política de circunstância, onde a indignação dura horas e a normalidade regressa ao jantar seguinte. Não se aprende nada, não se muda nada.
A política tem de ser mais do que silêncio protocolar. Tem de ser coragem, projeto e causa social. Quando os representantes regionais não usam a palavra no Parlamento para defender a sua terra, algo está profundamente errado. E quem paga não é Lisboa. Quem paga é sempre o ilhéu.