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Crónicas

Aprende-se

Ninguém nasce racista. Aprende-se. E tudo o que se aprende pode ser desaprendido

“É sempre com ele.”

“Ele provoca.”

“Ele é arrogante.”

“Porque é que não comemora de outra forma?”

O que acontece a seguir? O singular desaparece. Já não é ele. São eles.

“São sempre assim.”

Em segundos, um caso isolado passa a ser regra. É aí que começa o problema, quando deixamos de falar de uma pessoa e passamos a falar de “eles”.

O cérebro cria padrões para sobreviver. Agrupa. Simplifica. Antecipar poupa energia. O problema não é distinguir diferenças. O problema começa quando essas diferenças passam a servir para decidir quem vale mais e quem vale menos.

Quando um episódio confirma uma ideia prévia sobre “um tipo de pessoa”, entra em ação o viés de confirmação. Reparamos no que confirma e ignoramos o que contraria. O atalho parece lógico, mas não é neutro.

Depois surge a inversão. Em vez de perguntar o que aconteceu, pergunta-se quem ele é. A culpa deixa de estar em quem agride e passa para quem foi agredido.

Escuta-se demasiadas vezes: “Queixa-se de racismo, mas só gosta de mulheres brancas.” Quando a denúncia incomoda, muda-se o tema. Já não se fala do insulto. Fala-se da vida privada. O foco sai do ato e instala-se na pessoa.

A linguagem ajuda. Expressões como “vitimização” reduzem um fenómeno complexo a um rótulo rápido. O rótulo provoca reação e apaga o contexto. Sem contexto, a responsabilidade dilui-se.

Nada disto surge no vazio. Séculos de escravatura, colonialismo e teorias que classificavam seres humanos como superiores e inferiores deixaram marcas profundas. Mesmo quando as leis mudam, as narrativas permanecem.

Nem todos os insultos são equivalentes. Chamar “macaco” a um jogador negro não é comparável a uma provocação banal dirigida a qualquer atleta. Não é apenas uma palavra. É uma palavra com séculos às costas.

Durante demasiado tempo, pessoas negras foram forçadas a suportar agressões em silêncio. A fingir que não viam, que não ouviam, que não sentiam. Durante séculos, foram tratadas como mercadoria, privadas de nome, de língua, de religião, de estatuto jurídico. A desumanização foi lei, foi economia, foi cultura. A normalização desse silêncio faz parte dessa herança. E a reparação desse passado ainda está por cumprir.

Quando um insulto carrega essa história, tratá-lo como simples “excesso”, “provocação de bancada”, é ignorar o contexto que lhe dá peso. E quando se encolhem os ombros perante isso, a mensagem que fica não é neutralidade. É conivência normalizada.

O racismo torna-se estrutural quando essa visão hierarquizada se alia ao poder e passa a influenciar decisões e proteção. Quando a suspeita recai repetidamente sobre os mesmos, deixamos de falar de coincidência. Falamos de sistema.

Em Portugal (e pelo mundo!) há pais que ensinam os filhos que o mundo lhes pertence por defeito. Que a polícia está lá para os proteger. Que podem ocupar espaço sem pedir licença.

E há pais que ensinam os filhos a tirar o capuz antes de entrar num espaço público, para não “assustar”, que, se forem mandados parar pela polícia, mantenham as mãos visíveis e o tom calmo, porque sabem que terão sempre de provar que merecem o espaço que ocupam.

Num caso, a autoridade é proteção. No outro, é algo a gerir com cuidado.

Na maioria das vezes, os primeiros são brancos. Os segundos são negros.

A diferença não está na intenção dos pais. Está na forma como a sociedade olha para cada corpo.

Tenho saudades do fotógrafo Oliviero Toscani, de quando uma imagem não pedia desculpa por incomodar e o amor também era manifesto.

Eu nunca precisei de ensinar as minhas filhas a não serem racistas. Cresceram na diversidade. Um dia, na escola, uma colega da mais nova pediu “um lápis da cor da pele”. Levou seis: preto, dois tons de castanho, bege, amarelo claro e branco.

Para uma criança de cinco anos, a cor não define a pessoa.

Ninguém nasce racista. Aprende-se.

E o que se aprende pode ser desaprendido.

Ser “não racista” é uma posição passiva. É dizer: eu não faço.

Ser “antirracista” é uma posição ativa. É dizer: eu não faço e não deixo passar.

Talvez esteja na hora de escolher. Até hoje vivi na segunda opção. Mantenho. São as práticas que transformam sistemas e restituem dignidade.