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Orgulhosamente sós

Aqui estamos. No exato ano em que assinalamos cinquenta anos da Autonomia, eis-nos de novo convocados para combates que julgávamos remetidos ao museu das más memórias.

Há qualquer coisa de quase burlesco - não fosse o assunto sério - em assistir à desenvoltura com que certos figurantes da política lisboeta, meia dúzia de espantalhos em permanente romaria pelos corredores do poder, com a gravidade postiça de quem confunde o eco dos próprios passos com autoridade política, se permitem a revisitar direitos que custaram décadas a consolidar.

A velha máxima mantém-se cruelmente atual: a democracia perde-se num instante e reconquista-se a passo de caracol. A Autonomia não foge à regra. Também ela pode ser lentamente corroída por essa mistura tóxica de ignorância satisfeita e ligeireza política que, de quando em vez, resvala do Terreiro do Paço para o hemiciclo, sempre com a segurança algo temerária de quem raramente foi incomodado pelos factos.

Volvido meio século, continuamos, ao que parece, condenados a explicar o óbvio a um certo tipo de cabeças quadradas que olham para o mapa de Portugal como quem observa um problema logístico menor - ou uma irregularidade administrativa que convém simplificar até caber numa folha A4. Viver rodeado de mar, imagine-se, não é um capricho turístico. Mas há quem, em Lisboa, ainda reaja à condição insular como quem tolera uma excentricidade provincial que convém ir vigiando, do alto da sua confortável ataraxia continental.

Sente-se, por vezes, esse incómodo difuso, essa fricção mal disfarçada: como se os madeirenses fossem portugueses, sim, mas com um asterisco. Como se a cidadania plena exigisse uma espécie de renovação periódica de comprovativos de que somos mesmo portugueses. É uma tentação antiga do centralismo - a de confundir a distância geográfica com uma (imaginária) menoridade política.

Foi neste ambiente que o líder da bancada parlamentar do PSD na República decidiu oferecer ao país um daqueles momentos que a história política arquiva com a sobrancelha levantada, um pequeno monumento à imprudência confiante - pelo que disse, pelo que não disse e, sobretudo, pelo zelo quase inquisitorial com que tratou de impedir que outros dissessem.

Comecemos pelo gesto, que vale mais do que muitos discursos. Ao silenciar os deputados insulares, o sempre assertivo líder parlamentar ensaiou uma versão doméstica da velha lei da rolha - solução expedita e muito útil para quem prefere controlar o contraditório a enfrentar os argumentos. Não foi só uma deselegância. Foi uma pequena peça de teatro político, encenada com aquela convicção de quem acredita estar a prestar um serviço à pátria - quando, na verdade, apenas deixa à vista uma disciplina partidária ansiosa, dessas que se afirmam pela obediência porque não se conseguem sustentar pela razão.

E, como em toda a boa pantomima, não faltou o coro.

Levantaram-se. Bateram palmas. Com um entusiasmo quase coreográfico - naquele reflexo pavloviano que dispensa convicções próprias e exige apenas coordenação motora - uma bancada inteira entregou-se à liturgia do aplauso fácil, esse velho substituto do pensamento, como se tivesse acabado de assistir ao discurso de Gettysburg e não a um exercício algo atabalhoado de fervor partidário. A desproporção entre a magnitude do aplauso e a modéstia do conteúdo teria sido apenas cómica, não fosse tão reveladora.

Mas o verdadeiro momento de antologia estava ainda por vir.

“É justo?”, perguntou o então secretário-geral do PSD, num registo entre o severo e o ofendido, com a segurança inabalável de quem raramente teve de rever as suas próprias certezas. “É justo que os nossos, os vossos, impostos, os impostos dos portugueses que trabalham, continuem a subsidiar a viagem de pessoas da Madeira para o Continente que não assegurem o cumprimento de dívidas fiscais?”

Convém esclarecer, com a paciência pedagógica que certos momentos exigem. Os madeirenses trabalham. Pagam impostos. Contribuem para o erário público. E não vivem pendurados em nenhum subsídio gracioso concedido pela magnanimidade do Terreiro do Paço. Não é um mimo. Não é uma benesse. Não é um “serviço de apoio”, como alguém, num momento de criativa desorientação conceptual, resolveu batizar. É um direito estruturante de um Estado que se quer coeso de Braga ao Funchal, de Espinho a São Miguel.

Quando, no auge da intervenção, se proclamou que “nunca houve um Governo tão amigo das Regiões Autónomas”, muitos madeirenses terão experimentado aquele raro momento em que o humor involuntário da política roça a sátira pura. Com amigos assim, dir-se-ia, a Autonomia prefere não depender de declarações de amizade.

Talvez, nas hostes nacionais, ainda não se tenha medido o alcance do azedume que se semeou. A erosão da credibilidade política raramente faz ruído no momento em que começa. Instala-se devagar, como a humidade nas paredes - e quando se dá por ela, já o reboco caiu.

No fim, não foi a gritaria que prevaleceu. Nem o zelo performativo. Nem o aplauso entusiástico dos circunstantes. O que resistiu, com a paciência de quem já assistiu a demasiadas temporadas do mesmo enredo, foi o velho bom senso dos madeirenses, pouco sensível a dramatizações de ocasião e ainda menos impressionável perante surtos de centralismo em pose musculada. E isso, convenhamos, é o que verdadeiramente deve inquietar quem ainda acredita que levantar a voz é o mesmo que ter razão.