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30% dos condutores desconhecem peças ecológicas

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Enquanto a Kia fabrica tapetes para automóveis a partir de plástico recolhido do Great Pacific Garbage Patch (uma vasta zona do Pacífico Norte onde as correntes oceânicas acumulam resíduos plásticos), três em cada dez condutores europeus nem sequer sabem que peças ecológicas existem.

Os dados mostram um fosso entre a consciência ambiental e o comportamento de compra real. Para os madeirenses, onde um em cada cinco automóveis novos já é eléctrico, surge um dilema adicional: pagar mais ou esperar mais tempo por componentes sustentáveis?

Três em cada dez condutores desconhecem a alternativa verde

Um inquérito da AUTODOC ao mercado europeu revela números surpreendentes: 30% dos automobilistas afirmam não conhecer a existência de peças ecológicas, 29% dizem escolhê-las sempre que podem, 24% só as comprariam se o preço fosse acessível e 18% optam sempre pela alternativa mais barata, independentemente do impacto ambiental.

Portugal lidera a transição para veículos eléctricos na Europa do Sul, com vendas de BEV (veículos eléctricos a bateria) a crescerem 34,5% em 2025 e uma quota de mercado de 21,2%. Mas as peças sustentáveis para manter estes veículos contam uma história diferente.

Da poluição marinha à indústria automóvel

As peças automóveis ecológicas exigem processos complexos que explicam tanto o preço como a escassez. "O plástico oceânico não é o mesmo que reciclar garrafas de um contentor. É material que se decompôs em água salgada durante anos, está coberto de biofilme e misturado com dezenas de tipos de polímeros. Precisa de ser classificado, limpo e certificado", explica Alexandru Lazariuc, especialista técnico em selecção de peças automóveis da AUTODOC.

Em parceria com a The Ocean Cleanup desde 2022, a Kia já integra materiais reciclados em alguns modelos, como redes de pesca reutilizadas nos revestimentos de piso do EV9 e garrafas recicladas nos estofos dos bancos. A marca tem como objectivo que, até 2030, 20% do plástico utilizado em todos os seus automóveis seja de origem reciclada.

O desafio passa pela certificação ao abrigo da norma DNV Chain of Custody, pelos complexos processos de limpeza industrial e pelos volumes de produção reduzidos, o que encarece estas peças e limita a sua disponibilidade.

Portugal lidera na consciência ambiental, mas hesita na compra

Os números da consciência ambiental portuguesa impressionam: 97% dos portugueses estão preocupados com as alterações climáticas, segundo a TGM Research 2024, colocando o país em 4.º lugar na União Europeia em termos de consciencialização climática (inquérito do Banco Europeu de Investimento). Portugal ocupa ainda o 16.º lugar entre os países mais sustentáveis do mundo, segundo o Sustainable Development Report 2024, com 61% da electricidade proveniente de fontes renováveis.

Globalmente, os consumidores afirmam estar dispostos a pagar, em média, 9,7% a mais por produtos sustentáveis, segundo um estudo da PwC de 2024. No setor automóvel, porém, os dados da AUTODOC apontam para maior hesitação: o conhecimento limitado e a sensibilidade ao preço continuam a pesar nas decisões de compra.

O desafio logístico de uma ilha atlântica

Para os madeirenses, a geografia adiciona complexidade à questão. A mil quilómetros do continente europeu, a ilha depende de transporte marítimo semanal ou aéreo expresso. Segundo dados da DHL eCommerce 2025, as entregas para Portugal continental levam 3 a 4 dias úteis desde a Europa Central, mas para as áreas remotas e ilhas os prazos são superiores.

"Ter mais armazéns não é necessariamente a solução. Os desafios de entrega mantêm-se: prazos variáveis, diferenças na qualidade do serviço de estafeta entre regiões e mercadorias que podem chegar perdidas ou danificadas. A etapa final da entrega continua a depender de transportadoras locais", reconhece Alexandru Lazariuc, a propósito da expansão da rede de armazéns da AUTODOC, que conta actualmente com quatro localizações na Europa, incluindo o centro inaugurado em Gante, na Bélgica, em 2025.

O dilema verde torna-se assim mais acentuado: os componentes ecológicos, muitas vezes concentrados em armazéns específicos da Europa continental, tendem a agravar os prazos de entrega para a Madeira. A alternativa do transporte aéreo expresso contraria o objectivo ambiental, gerando emissões significativamente superiores às do transporte marítimo.

Quando o premium se torna obrigatório

As normas de sustentabilidade da União Europeia tornam-se mais rigorosas a cada trimestre. O que hoje parece uma escolha premium poderá ser requisito básico amanhã, transformando a indústria de componentes automóveis.

A questão para 2026 permanece: enquanto a Madeira avança na mobilidade eléctrica, com um em cada cinco automóveis novos a funcionar a bateria, conseguirá o mercado do pós-venda acompanhar a transição verde sem sacrificar acessibilidade e rapidez de serviço? A resposta pode determinar não apenas o ritmo da sustentabilidade automóvel na Região, mas também servir de exemplo para outras ilhas e áreas remotas da Europa.

Cerca de 70% dos condutores europeus desconhecem ou mostram resistência em comprar peças ecológicas, sobretudo por falta de informação e sensibilidade ao preço. A complexidade dos processos de recolha, triagem e certificação ajuda a explicar porque estas soluções continuam mais caras e menos disponíveis. Na Madeira, o desafio agrava-se devido à distância de cerca de 1000 quilómetros do continente, enquanto a regulação europeia poderá tornar a sustentabilidade um requisito cada vez mais presente no sector.

Fonte: AUTODOC (Alexandru Lazariuc), EAFO, TGM Research, PwC, Banco Europeu de Investimento, Sustainable Development Report 2024, DHL eCommerce.