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Crónicas

Dizer o que se pensa não é pensar

1. [Quando a gritaria se disfarça de coragem e o insulto vira programa]

“Pelo menos, diz o que pensa” é uma dessas frases que se dizem como quem acende uma vela num altar de bom senso, uma frase que parece ter virtude só porque tem som, só porque tem a música simplória da coragem; e, no entanto, serve quase sempre para desculpar o apodrecimento do debate público, para legitimar o ruído e a grosseria como se fossem cidadania, e como argumento para validar populismos. Não vale grande coisa, vale pouco ou nada, mas repete-se porque dá jeito, como se a política fosse um concurso de espalhafato e não uma tarefa séria e dedicada; e, depois, espantam-se, espantam-se sempre.

Comecemos pelo óbvio, que é o que mais custa aceitar. Dizer “o que se pensa” não é, por si, mérito político nenhum, é um gesto fisiológico, como tossir ou espirrar. Há quem diga o que pensa e pense pouco, há quem diga o que pensa e pense mal, há quem diga o que pensa movido por preconceito, ressentimento, ignorância ou medo, e há quem diga o que pensa porque percebeu, com aquela esperteza de esquina, que o escândalo rende, que a agressividade cola, que a simplificação dá votos, que a mentira dita com convicção se transforma em verdade ao fim de cinquenta partilhas, e isto não é autenticidade, é método, é cálculo, é o marketing da indignação.

O truque é antigo e não tem graça nenhuma: transformar um defeito em virtude. Ser desbocado, agressivo, ordinário, interromper, insultar, reduzir tudo a slogans e a inimigos, cuspir palavras como quem cospe caroços, passa a chamar-se “frontalidade” e, a partir daí, o populista ganha um salvo-conduto para tudo. Diz disparates: “ao menos é sincero”, mente: “ao menos não disfarça”, ofende: “ao menos não é hipócrita”, e assim se evita discutir o essencial, que é o conteúdo, substituindo-o pelo tom, como se a democracia fosse um espectáculo de temperamento e não uma coisa frágil que exige disciplina, paciência e memória.

Mas desde quando ser desbocado é uma validação política? Validação política exige coerência, exige competência, exige responsabilidade, exige respeito pelos factos, exige capacidade de propor, negociar e decidir, e, sobretudo, exige aceitar o custo do que se promete. Porque prometer é fácil, prometer é grátis, prometer é cuspo, e “diz o que pensa” não responde a nada disto, não prova nada, não garante nada. Limita-se a certificar que a pessoa tem voz e não a controla, o que, para governar, é um perigo, não uma medalha.

E há um pormenor revelador, daqueles que ninguém quer ver porque estraga a emoção. Quem repete “pelo menos diz o que pensa” muitas vezes desistiu da pergunta central, que devia ser “isto é verdade?”, e trocou-a por “isto sabe-me bem ouvir!”. O argumento deixa de ser político para se tornar emocional; não se avaliam ideias, avalia-se o prazer do desabafo. Como se o país fosse um divã e o Parlamento uma sessão de terapia colectiva, só que a política não é terapia, e um desabafo, quando vira método, quase sempre acarreta irresponsabilidade.

Depois há a confusão, muito conveniente, entre honestidade e brutalidade, como se fossem a mesma coisa. Honestidade é dizer a verdade com rigor e com prova, mesmo quando custa, mesmo quando acarreta prejuízo, mesmo quando perde aplausos. Brutalidade é dizer qualquer coisa com violência verbal para parecer destemido, forte ou “um dos nossos”; uma é virtude, a outra é representação. O populismo vive de teatro porque o teatro dá a ilusão de acção, dá à pessoa aquela sensação quente de que “alguém enfrentou”, mesmo que ninguém tenha resolvido nada, mesmo que o problema permaneça ali, quieto, crescendo no escuro.

A frase ainda serve para fechar a conversa e trancar a porta ao pensamento crítico, como se fosse um cadeado. Se alguém começa a pedir números, a perguntar “como?” e “com que meios?”, a resposta vem logo, com um ar ofendido: “Lá estás tu, isso é conversa, ele ao menos diz o que pensa”. É a recusa da política mascarada de virtude democrática, o instinto a ocupar o lugar da razão com um verniz de cidadania; é o direito de não pensar elevado a bandeira.

É verdade que há um motivo por trás do impulso, e é escusado fingir o contrário. As pessoas estão fartas de linguagem vazia, de políticos que falam como folhetos, de evasivas, de frases sem sujeito e sem verbo, estão fartas de promessas com cheiro a gabinete. O problema é a troca: em vez de exigir clareza e responsabilidade, aceita-se boçalidade e impunidade verbal. É um mau negócio, mas é um negócio comum, e depois admiram-se do resultado, como se o resultado tivesse caído do céu e não tivesse sido escolhido, aceito, aplaudido.

No fundo, “pelo menos diz o que pensa” é a senha para tolerar o intolerável, é o passe livre que transforma falta de educação em coragem, ignorância em autenticidade, agressividade em virtude, mentira em “opinião”. Quando a política chega aqui, já não se discute o melhor para a comunidade; discute-se quem grita melhor, quem fere mais, quem humilha com mais eficácia os mesmos alvos, e chamam a isto robustez democrática, quando é decadência, simples decadência, com luzes e palmas.

Se alguém me disser “pelo menos diz o que pensa”, a resposta é simples e irritante: e então? Eu também posso dizer o que penso sobre mil coisas, muitas delas erradas, outras estúpidas, outras cruéis, outras apenas impulsivas. E isso prova apenas que tenho boca, e a boca, por si só, é o mais barato do mundo. A política exige cabeça, método, conhecimento e responsabilidade, e quem troca isso por gritaria está só a pedir, com entusiasmo, para ser governado por quem só sabe berrar.

2. [Turismo Inclusivo vs Turismo Extractivo]

O problema do turismo na Madeira não é a chegada de aviões, nem o constante movimento de turistas, nem sequer os argumentos políticos repetidos. O verdadeiro problema é que a riqueza gerada circula e exibe-se, mas não beneficia quem aqui nasceu, trabalha e envelhece. É como se a ilha fosse um cofre aberto, cuja chave está nas mãos de quem vive fora e de alguns, poucos, de cá.

Passaram anos a vender-nos a ideia de progresso, de sucesso, de destino internacional respeitado, essas frases tecnicamente impecáveis que cheiram a padrão institucional e perfume de escritório. E, enquanto isso, nós, os que aqui vivem, fomos percebendo, devagar, que a realidade e o discurso raramente se encontram. Que o turismo cresce, sim. Que o número de camas aumenta, sim. Que os relatórios internacionais nos chamam de “referência atlântica”, sim. Mas quando o madeirense comum tenta pagar uma renda, procura um trabalho digno ou imagina uma vida que não seja sobreviver a cada mês, percebe a verdade crua: o sistema funciona, mas não para ele.

É aqui que Acemoglu e Robinson entram, como dois médicos que explicam a doença que toda a gente sente, mas ninguém se atreve a diagnosticar. Eles falam de instituições extractivas, essas estruturas políticas e económicas que permitem que a riqueza seja criada colectivamente, mas capturada por poucos. Estruturas que não precisam de violência para dominar, apenas de normalização. E é exatamente isto que existe entre nós. Um turismo que mobiliza a economia, ocupa a paisagem, redefine o território, mas não redistribui os frutos do próprio peso.

O ciclo é simples: hotéis lucram com a ilha e mão de obra barata, plataformas internacionais cobram comissões e os alimentos vêm de fora. O lucro sai rapidamente e, ao madeirense, restam salários baixos, trabalho instável e a sensação de que já não pertence ao seu lugar.

A habitação tornou-se um exemplo perfeito, quase didáctico da doença. Onde antes viviam famílias, agora vivem códigos QR colados a portas imaculadas. Onde existiam vizinhanças, agora há rotação. E o paradoxo mais triste é este: quem aqui vive já não consegue pagar para viver cá. A ilha é cada vez mais desejada pelos que chegam e cada vez mais inacessível aos que nela nasceram.

Segue-se sempre a mesma narrativa: dizem-nos que o turismo é indispensável, o motor da economia, como se a Madeira fosse incapaz sem ele. Esquecem que o turismo deveria servir a comunidade, e não o contrário.

Turismo inclusivo seria outra coisa. Seria um modelo em que o sector turístico se entrelaça com o tecido económico, cultural e humano da região, sem pairar acima dele como um organismo autónomo e indiferente. Seria um sistema em que a riqueza não escapa por buracos institucionais, mas permanece. Onde um hotel compra produtos da terra e não legumes plastificados vindos de fora. Onde a tecnologia usada para gerir reservas, mobilidade e oferta cultural é desenvolvida na Madeira, criando valor que permanece. Onde um trabalhador não é condenado à mesma função eternamente, mas pode crescer, aprender, dirigir, criar.

Seria um turismo que reconhece que a Madeira não é um cenário, e sim uma comunidade. Que, por detrás de cada quarto arrumado, cada prato servido, cada trilho reaberto, cada paisagem preservada, há uma pessoa. E essas pessoas têm direito ao futuro. Um futuro que não seja sacrificado ao altar de uma economia que cresce para fora, não para dentro.

Acemoglu e Robinson diriam que este futuro depende de coragem institucional. De quebrar a lógica de captura, de monopólio e de dependência. De criar regras que garantam concorrência real, propriedade partilhada e valor local. Não é poesia. É política.

No fim, a diferença é simples e devastadora: num sistema extractivo, o visitante sente-se proprietário e o residente, intruso; num sistema inclusivo, o turismo existe para servir a vida de quem cá vive, não para a substituir.

E talvez tudo se resuma a esta pergunta, incómoda e necessária: queremos continuar a ser um destino com habitantes ou uma comunidade com visitantes? Porque uma ilha pode ser as duas coisas. Mas só se quiser ser, antes de tudo, dona de si própria.