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Obrigado pai, pelos vários ensinamentos

Há ensinamentos que só compreendemos inteiramente com o passar dos anos. O meu pai, que viveu até aos 89 anos, deixou-me muitos. Hoje, como médico, reconheço nos seus hábitos princípios que a ciência recomenda para envelhecermos com mais saúde. Como filho, guardo a memória de quem me ensinou pelo exemplo.

O meu pai deitava-se cedo. Pelas nove e meia, dez da noite, era tempo de descansar. Não prolongava o dia até à uma ou duas da manhã diante de um ecrã. Na sua geração, o quotidiano acompanhava mais de perto a luz do dia. Hoje sabemos que dormir o suficiente e manter horários regulares contribui para a saúde física e mental. Nenhuma hora de deitar é universal, mas importa respeitar o descanso de que precisamos. Ele fazia-o com naturalidade.

À mesa, havia simplicidade. Comia cerca de três vezes por dia, sem petiscar permanentemente. As massas pouco o atraíam e os refrigerantes não faziam parte dos seus hábitos. A alimentação aproximava-se do nosso padrão mediterrânico, cuja proteção cardiovascular tem suporte científico. Três refeições não são uma fórmula mágica de longevidade; a qualidade e a quantidade do que comemos, ajustadas às necessidades de cada pessoa, são fundamentais. O que nele recordo era a moderação praticada sem precisar de lhe atribuir um nome.

Depois, havia o movimento. O meu pai não passava os dias a ver séries ou filmes. Andava, ia à fazenda, trabalhava. A atividade estava integrada na vida. Hoje recomendamos caminhar, reduzir o tempo sentado e preservar a força muscular, porque o movimento ajuda a proteger a saúde e a autonomia. Na vida dele, mexer-se tinha sempre um propósito: havia um lugar onde ir, uma tarefa para fazer.

Sobre as relações, último pilar mas também relevante. Preservava a família e os laços que tinham significado. Era reservado, sem procurar multiplicar contactos superficiais. Sabia bem com quem podia realmente contar. Os vínculos precisam de presença, tempo e cuidado.

Não posso atribuir os seus 89 anos apenas a estes hábitos. A longevidade resulta também da genética, das circunstâncias e dos cuidados de saúde. Mas reconheço o valor do exemplo que recebi: descansar, comer com equilíbrio, manter o corpo ativo e cuidar de quem está próximo.

Cabe-nos agora transmitir estes ensinamentos aos nossos filhos, juntando à experiência das gerações anteriores o conhecimento de hoje. Podemos começar à mesa, numa caminhada em família ou ao desligar um ecrã para uma conversa.

Pai, ensinaste-me muito antes de eu estudar Medicina. Hoje consigo explicar melhor o valor de alguns dos teus hábitos. Quero honrar o que recebi, levando-os comigo e passando-os aos teus netos e a todos os que os queiram receber.

Obrigado, pai, pelos teus vários ensinamentos.