Que não se defraude o sonho venezuelano
É muito difícil um madeirense não ter ou, pelo menos, não conhecer, conterrâneos seus emigrados na Venezuela. Diria até que é inato a qualquer família madeirense ter familiares emigrados na Venezuela, na África do Sul, no Brasil ou, nas novas gerações, no Reino Unido.
Em virtude disso, é relativamente natural que sigamos com particular atenção as transformações políticas nos referidos territórios. Assumimos que terá sido com um misto de esperança e preocupação que recebemos a notícia, no passado sábado, de que Nicolas Maduro tinha sido capturado pelos Estados Unidos. Afinal, trata-se da detenção de um dos maiores ditadores da história contemporânea, abrindo assim o caminho à paz e à normalidade democrática.
O Chavismo conduziu a Venezuela à referência mundial da pobreza. Ou por outras palavras, o Chavismo revela-se a concretização do socialismo na terra. A inflação crescia aos 1000% ao ano, o FMI deixou de fazer previsões para o crescimento da economia venezuelana e, para além de tudo isto, destruiu uma economia produtiva assente numa classe média forte e empreendedora. Esses, com medo do estado forte, totalitário e nacionalizador, fugiram e construíram as suas vidas longe da Venezuela. A perda desse capital humano é, provavelmente, a maior perda económica da qual dificilmente se reabilitarão. A força do trabalho, a capacidade de criar e empreender surge como a maior riqueza que qualquer sociedade pode ter.
Não querendo entrar numa discussão técnica sobre a conduta contrária ou não ao direito internacional, qualquer abordagem para libertar a Venezuela da ditadura obrigaria sempre a um momento de tensão, risco e naturalmente de combate. São raros, para dizer muito poucos, os regimes totalitários que se entregam com um cravo ou um laço na cabeça.
Urge lembrar que Maduro tem milícias armadas que andam pelas ruas e uma polícia política que detém quem ousa ser livre por emitir opinião. E estes comportamentos também se assumem pouco recomendáveis a um Estado soberano ao abrigo do direito internacional. No entanto, houve alguns académicos que preferiram ignorar isso.
Não podemos negar que a ofensiva dos Estados Unidos da América sobre a Venezuela poderá, numa lógica internacional, legitimar uma diplomacia pela força, alterando ainda mais a ordem mundial como a conhecemos, mas dizer que esta ação legitime a Rússia na ofensiva ucraniana equivale a confundir o essencial: uma coisa é querer invadir um estado democrático e soberano anexando-o, outra é destituir um ditador que há muito não era reconhecido pela comunidade internacional. Porém, a motivação americana será determinante para a perceção que o mundo terá deste ataque.
Donald Trump afirmou perentoriamente que os Estados Unidos assumiriam o controlo do país enquanto não se assegurasse uma transição pacífica no país. Se as declarações do Presidente norte-americano se ficassem por aí, concluíamos que a referida transição poderia durar um ou dois anos, construindo assim um horizonte de esperança que alimentaria o sonho de milhões de venezuelanos, uma Venezuela livre, reconstruída e aberta ao mundo. Todavia, a questão é outra: Trump justificou a sua ação militar com a necessidade de aumentar a exploração dos recursos naturais do país - que por acaso é só o país mais rico do mundo em recursos naturais - assumindo que o estado americano, bem como algumas petrolíferas, iriam custear o investimento na reconstrução e exploração daqueles recursos. E isso corresponde, inequivocamente, fazer da Venezuela um protetorado dependente dos americanos por largas décadas, à semelhança de Porto Rico. Algo que não podemos aceitar.
Sendo certo que as próximas semanas se mostrarão decisivas para perceber o curso dos acontecimentos, é inevitável que a comunidade internacional se posicione à semelhança daquilo que fez o governo português: assegurar uma transição rápida para a salvaguarda da democracia e da liberdade de autodeterminação do povo venezuelano. Quanto a nós, tudo o que for o contrário disso será utilizar a bandeira da democracia para defraudar o sonho da virtuosa terra que tantos madeirenses escolheram como casa: uma Venezuela Livre é uma Venezuela decidida pelo povo venezuelano, não pelo Presidente de qualquer outro estado. Tudo o que for diferente disto terá sido apenas um aproveitamento político em nome do capitalismo selvagem, coisa que por outras paragens - nomeadamente no médio oriente - não correu muito bem.
Viva ao povo Venezuelano, por uma Venezuela Livre.