Abraçar o desconhecido
Quem lê estas linhas está no ano da Graça de 2026. O ano chegou sofrido, como aquela diligência do oeste americano, que, empoeirada, chegou ao destino sem saber que purgatório provaria ou por quantas setas ficou picada. Era a depressão Francis e o prestígio do foguetório em digladiação com os elementos naturais, que à falta de melhor palco, os governantes desde o trono de pujança, engendraram uma conferência de imprensa numa “mesinha de cabeceira” demasiado curta para acomodar todos os “abajures”. Vingou a sorte. E cumpriu-se o calendário glamoroso, pois, longe vai o tempo em que se desafiava o mar para torrar dinheiro fácil em marinas que nunca funcionaram. Ainda bem.
O novo ano trouxe a decapitação do socialismo bolivariano iniciado por Chávez e exacerbado por Maduro. O chamado mundo livre, ou aquilo que dele resta, reagiu com luvas brancas à operação levada a cabo por Donald Trump que colocou um fim ao despotismo de Maduro com a comodidade de quem tem a maior força militar do Mundo e dispensa o direito internacional, normalmente mais apreciado pelos mais frágeis. Contudo, isso é apenas um vértice simpático de muitas e indefinidas arestas, cujo amanhã se desconhece. Os madeirenses radicados na Venezuela e os imensos emigrantes deslocados, vivem tempos de ansiedade à espera do radioso amanhecer.
Nessa esperança, Trump é apenas um veículo útil para que a árvore das patacas refloresça na Venezuela. O petróleo e demais recursos naturais estão garantidos para Washington, tal como as fatiadas “terras raras” ucranianas divididas com Moscovo, ou o assédio à apetitosa Gronelândia, como o senhor do engenho que cobiça a mulher do escravo da senzala. Um ditador não reconhece a ideia lírica de direito (sobretudo dos outros), mas acata com relativa facilidade o exercício de uma força maior que a sua.
Domesticamente os portugueses não estão isentos de desafios. E o ónus não é pequeno. Enquanto Montenegro acena com um código laboral gizado no Paraíso, ainda incita a que tenhamos uma mentalidade “à Cristiano Ronaldo”, ou o que quer que isso signifique. Marcelo Rebelo de Sousa no seu recente discurso de Ano Novo, invoca Eça em jeito de alegoria da obra “Ilustre Casa de Ramires” na necessidade de romper com o país adiado. Contudo o homem teve dez anos em Belém somando três dissoluções parlamentares e o país permanece adiado.
E como se não faltassem desafios suficientes, teremos a provação ainda este mês de num boletim com menu de catorze nomes, com apenas onze deles validados para a eleição presidencial.
Esta aberração administrativa ridícula surge, no mesmo país que acolhe há anos a “Lisboa Web Summit” e tem um Ministro da Reforma Administrativa cheio de modernidades virtuais desmaterializadas.
Neste exemplo prático onde fica a mentalidade do meteórico craque madeirense sugerido por Montenegro, e como anular o “Fidalgo da Torre” e assim reabilitar o Gonçalo Mendes Ramires, assim personificado em cada português como quis sugerir o bem-aventurado Marcelo Rebelo de Sousa em passo apressado à porta de saída? Se fôssemos apetecíveis como a Venezuela ou a Ucrânia, dispensava bem estes actores.