A escolha
Corria o ano de 1632, a cidade de Amesterdão viu nascer uma das mais ousadas e talentosas mentes do século XVII, um dos mais influentes filósofos europeus, Baruch (de) Espinoza, na verdade, era Bento de Espinoza. Filho de pais de uma conhecida família de portugueses, que foram expulsos do nosso reino pelas suas convicções religiosas. Estes portugueses pertenciam a uma minoria, no caso os 200 mil judeus portugueses, que tiveram que negar as suas próprias convicções, ou então procurar outras nações que os acolhesse tal como são. O reino tornara-se intolerante com tudo que não alinhasse com o pensamento, a raça e a religião reinante. É amplamente aceite que a saída destes portugueses, e a subjugação da nação ao catolicismo fundamentalista de Castela, está associado ao declínio de Portugal no mundo e ao aparecimento de impérios que vieram a dilapidar o nosso, no caso, a Holanda e a Inglaterra.
Espinoza e os seus conheceram o preço que se paga quando não se aceita o que é diferente. Quando não se tenta descobrir o que se desconhece. E a aceitação deste preço levou-o a propor uma das visões mais ousadas da Europa renascentista. Visão de ideias sociais, da liberdade, do progresso, da tolerância, da fraternidade entre povos, do primado do governo constitucional, prevalecendo sobre a monarquia absoluta. Na qual as convicções religiosas convivem bem com o conhecimento científico. Na qual Deus e natureza são a mesma identidade. Esta visão é o Iluminismo, o Racionalismo e creio, o que hoje é ser europeu. Espinoza e os seus, são um exemplo de todos aqueles portugueses que tiveram que sair da sua terra para fugirem à intolerância, à ignorância, à inveja e à pobreza. À falsa glória de uma nação que é, segundo o grande historiador José Hermano Saraiva, “tudo menos um povo uno na raça, no pensamento e nas tradições”.
Spinoza alertou nessa altura para a banalidade do Mal, na qual o Mal não é a crueldade dos monstros, mas sim algo mais perigoso e indomável. É a simples alienação das pessoas vulgares da realidade. A indiferença à mentira, a perda de julgamento moral, a aceitação do instinto primário da emoção sobre a razão e a ética. Assim, a tristeza e apatia que muitos hoje transportam, é o caldo nutritivo ideal para a manipulação e a idolatração. O verdadeiro perigo, como acrescentou depois Hannah Arendt, não é tanto uma qualquer revolução, guerra ou caos, mas a lenta caminhada na qual deixamos de diferenciar a verdade da ficção. E com a ficção aceite, é fácil vender quase tudo, desde o ódio à repressão. Depois de pensarmos nisto, torna-se fácil identificar os poderosos deste mundo que, com a manipulação da nossa apatia e disseminação de inverdades, impõe a divisão dos povos como que separados por tribos, na qual tudo serve para dividir, desde a religião, raça, nacionalidade, riqueza e crenças políticas. “Qui diversi sunt, se invicem expellunt; qui in obediunt se invicem reprimunt” (os diferentes expulsam-se, os desobedientes reprimem-se).
Seria curioso o capricho de Deus se trouxesse Spinoza para o presente, e lhe pedisse para escolher numa das mais importantes votações que a sua madrasta nação se confronta neste século. Certamente perguntaria a si próprio, o que é ser português?
Haverá quem diga que é ser branco? Ter nascido e vivido em Portugal? Ser católico praticante na liturgia, mesmo que não nas ações diárias? Ser saudosista, intolerante com quem pensa diferente? Ser defensor do Estado absoluto, em que as liberdades individuais são caprichos dispensáveis? Onde se idolatra uma cultura única, sem a diversidade da diáspora, ou do espaço da língua portuguesa? Onde a alternância democrática não é a norma? Onde ser mulher é ser cidadã, de alguma maneira, de segunda? Onde defender os direitos do trabalho, onde desejar a liberdade de mercado, ou se opor a monopólios, é um sacrilégio? Desejar um país sustentável e ambientalmente são, constitui uma perda de tempo? Onde a verdade e a ética não valem tanto como a ficção reinante? Certamente Spinoza diria que ser português é tudo isso, somado ainda, a tudo o que é o seu contrário, numa nação que se deve respeitar pela diferença, segredo para durar há quase nove séculos, apesar dos erros cometidos.
Subscrevo, e porque acho que não queremos ter um presidente cuja grande ambição é derrubar os governos até ele finalmente ser primeiro-ministro. Porque Portugal precisa de olhar para o futuro e não olhar para trás e é um erro retroceder a 1973, e muito menos idolatrar a Alemanha de 1933. Porque politizar as forças armadas e a polícia é criar milícias, e decididamente não precisamos de um ICE português.
Porque negar a nossa relação privilegiada com o Brasil, a Venezuela e África é um erro histórico. O lugar de Portugal é na Europa comunitária e não ao lado de uma América isolacionista, ou de uma Rússia expansionista. E se dúvidas houver, perguntem aos ingleses que pensam agora, dez anos após o Brexit… Num mundo cada vez mais multipolar, em que muitas nações pobres estão a enriquecer, Portugal tem de construir pontes e não cavar trincheiras.
Não é em vão que indesmentíveis pessoas da direita democrática como Paulo Portas, Assunção Cristas e Francisco Rodrigues dos Santos não têm dúvidas da escolha. Nem todos os restantes candidatos presidenciais. Nem eu.