Soam os alarmes
Desfeitas as incertezas que marcaram as Presidenciais antes do intervalo forçado, o que por si só obriga a reflexão madura e postura responsável, os portugueses foram ontem convocados para, a 8 de Fevereiro próximo, escolherem entre António José Seguro e André Ventura. A partir de agora, não há 11 escapatórias, nem 3.ª via, nem ilusões. O que sobra de meses de esfrega e de um sufrágio fértil em picardias tem nome e contexto, visão e cadastro, competência e habilidade.
Tudo se decidirá entre o antigo líder socialista que ganhou no País e a figura central do Chega que venceu na Região. Seguro posicionou-se na “esquerda moderada e moderna”, avançando “sem amarras”, mesmo que o apoio formal do PS tenha chegado tarde e com evidentes cautelas. Ventura regressa à corrida presidencial reforçado, depois do terceiro lugar em 2021, sustentado por uma base eleitoral mais ampla, apesar de continuar a reclamar o estatuto de candidato antissistema, quando é aquele que mais benefício retira dos vícios que denuncia.
Mais do que uma eleição inconclusiva, ontem houve um teste intenso ao sistema político. A fragmentação, a polarização, o desgaste dos partidos tradicionais e um eleitorado cada vez mais volátil ficaram expostos sem filtros. O facto de nenhum candidato ter alcançado a maioria absoluta mostra um país politicamente dividido, menos fiel a lealdades históricas e mais propenso ao voto de protesto. O consenso deixou de ser o ponto de partida da democracia. Ignorar esta realidade é um erro, mas normalizá-la sem espírito crítico é um risco ainda maior.
Neste contexto, a vitória de André Ventura na Madeira não deve ser lida de forma simplista, nem muito menos precipitada. Mais do que significar uma viragem ideológica da Região, ou alinhamento estrutural com a agenda do Chega, representa um voto que incomoda e que foi usado para abanar as hostes em que reina a sobranceria e o autismo.
As Presidenciais são, por excelência, um momento sublime para o voto livre, pois não definem governos, não condicionam orçamentos e não exigem compromissos parlamentares. Permitem ao eleitor manifestar estados de espírito e, na Madeira, essa margem de manobra foi usada por muitos para exibir cansaço, mandar recados, e manifestar desconfiança. Ventura foi o beneficiário directo dessa revolta incontida, que deriva também de um centralismo doentio que detesta a Autonomia e tem aversão à continuidade territorial.
O discurso de confronto com Lisboa, com as elites e com o sistema encontrou assim terreno fértil num contexto em que outros candidatos não conseguiram criar empatia, mobilização ou narrativa forte. E quando a alternativa é insignificante, a ruptura ganha vantagem.
Na segunda volta perceberemos se a Região aderiu definitivamente ao populismo como projecto de governação, como alguns sugerem.
Até porque o eleitorado madeirense tem demonstrado elevada capacidade de diferenciação do voto. Premeia estabilidade quando está em causa governar, mas usa eleições de menor impacto executivo para sinalizar descontentamentos, o que é revelador de maturidade democrática, ainda que produza resultados desconfortáveis para quem manda.
A vitória regional de Ventura é também o reflexo da fragilidade do campo moderado. A dispersão de candidaturas, a falta de lideranças mobilizadoras e discursos excessivamente defensivos abriram espaço a quem fala mais alto e de forma mais directa. Em política, o vazio raramente fica por preencher.
O resultado implica reflexão, pois ignorá-lo seria irresponsável e dramatizá-lo seria contraproducente. De facto, há eleitores que não se sentem ouvidos ou respeitados. E enquanto essa percepção persistir, haverá sempre quem capitalize a ira. Na Madeira, como no País, o voto em Ventura até pode vir a ser uma escolha de futuro, mas ontem configurou um sinal de impaciência com o presente. Cabe aos democratas perceberem se querem continuar a gerir esse mal-estar, alimentando-o, ou se decidem enfrentá-lo, desmontando-o.