Quem cala consente
Era uma vez uma ilha que, por feliz ou mero acaso, emergiu na imensidão do Atlântico e a que deram o nome de Porto Santo. Quis o destino, ou não, que eu nascesse nesse “torrão“, de grandeza árida, de um solo que produz(ia) com relutância, mas em que a Natureza caprichou na sua beleza natural. Uma ilha pobre, de escassos recursos naturais, dependente de ajuda externa para poder subsistir.
O Porto Santo de hoje não é, nem poderia ser, o dos anos 60/70 mas, em nome de um progresso tantas vezes duvidoso, foram cometidos verdadeiros atentados ambientais que, por inércia, descuido ou outra qualquer razão, conduziram à descaracterização de algumas localidades emblemáticas da ilha. O que se passa em relação à praia, às dunas e zonas limítrofes é só um dos muitos exemplos. O Porto Santo passou por alguma evolução em muitos aspectos, mas muitas mentalidades permanecem na época medieval. Infelizmente. Só assim se compreende que o povo do Porto Santo, que passou ao longo dos tempos pelas maiores agruras, se resigne a ser continuamente espezinhado, ostracizado e desconsiderado sem manifestar o seu descontentamento na hora e locais certos. Conversas ocas e comentários extemporâneos, cínicos, hipócritas e falsos nas redes sociais do costume não têm o menor significado. Só um povo sado-masoquista se submete aos atropelos à sua dignidade sem se revoltar.
Sei que não sou a mais doce das criaturas, nem dona da verdade. Aliás, desconfio de quem afirma sê-lo pois, invariavelmente, isso costuma esconder algum veneno. Eu apenas escolho estar do lado certo da história, mesmo quando isso me custa caro. Não o faço para me exibir mas para ficar de bem com a minha consciência. Tal como diz a sabedoria popular, caixão não tem gaveta e ninguém leva razões nem egos inflamados. Apenas deixa rasto. Se um dia se lembrarem de mim que seja por ter sido profundamente honesta e dona de um inconformismo que não grita mas não se cala. Porque quem cala consente.
Eu continuo acreditando e não é por ingenuidade. É por resistência. Acredito nas pessoas que não negociam carácter. Não desisto. Desistir seria mais cómodo e mais fácil, mas eu nunca fui do caminho fácil.
Já não tenho tempo para meias palavras nem para sonhos coloridos pela ilusão. O que quero é ter a possibilidade de continuar a caminhar de cabeça erguida e usufruir da paz que conquistei com a maturidade. O resto virá por acréscimo.
Madalena Castro