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Fact Check Madeira

Os reembolsos do Subsídio Social de Mobilidade serão pagos entre "um a dois dias úteis"?

Foto Hélder Santos/ASPRESS
Foto Hélder Santos/ASPRESS

Um dos pontos mais contestados é a exigência de não dívida à Autoridade Tributária e à Segurança Social como condição para aceder ao subsídio. Governos da Madeira e dos Açores unem-se nas críticas, defendendo que o SSM é um instrumento de coesão territorial e de mobilidade.

Numa visita no final do ano passado à Madeira, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, anunciou que a nova plataforma do Subsídio Social de Mobilidade (SSM), que entrou em vigor a 7 de Janeiro deste ano, permitiria aos residentes receber o reembolso das viagens em “um a dois dias úteis”.

A plataforma entrou em funcionamento - com os reembolsos operacionais a partir de 15 do corrente mês, mas a análise ao regime legal, às portarias publicadas e à informação operacional disponível mostra que esse timing não corresponde, de forma linear, ao funcionamento real do sistema.

Declarações Miguel Pinto Luz
Essa plataforma, a partir de Janeiro, o que é que vai permitir? Vai permitir que em um a dois dias quem utiliza o Subsídio Social de Mobilidade possa ser ressarcido do valor. Ou seja, hoje, às vezes esperava quinze dias, um mês, dois meses para esse processo. Portanto, é um processo mais célere, como era compromisso nosso. Miguel Pinto Luz, Ministro das Infraestruturas e Habitação – 25 de Novembro de 2025

Na prática, o reembolso não depende apenas da submissão do pedido. Antes de qualquer pagamento, existe uma fase obrigatória de validação administrativa, que pode incidir sobre dois níveis distintos: a confirmação da elegibilidade do beneficiário – “a confirmação de que tem direito ao subsídio demora até 7 dias úteis” – e a validação dos documentos da viagem, incluindo bilhete, comprovativo de pagamento e dados bancários.

De acordo com a informação oficial, consultada em https://www.gov.pt/servicos/pedir-o-subsidio-social-de-mobilidade, “depois de os documentos serem validados, recebe o valor do subsídio na conta bancária que indicou. Se os documentos não forem validados, recebe um e-mail com indicações sobre o que deve fazer. A validação dos documentos demora até 7 dias úteis”.

Pinto Luz anuncia plataforma de reembolsos a funcionar a 7 de Janeiro

Ministro quer manter ritmo de investimento, reforça prioridade à segurança e defende justiça no subsídio de mobilidade.

Estes prazos colocam em causa a ideia de rapidez transmitida pelo ministro. O pagamento só ocorre depois de concluídas todas as validações, tornando o reembolso dependente de um circuito administrativo que não é imediato nem automático.

“Dia 7 [de Janeiro] plataforma em vigor, um, dois dias [pagamento reembolso], e a partir daí começaremos a trabalhar num sistema que vai permitir não ter de haver reembolso. Só nesse momento estaremos satisfeitos (…). Em que cada madeirense não tenha de avançar dos seus recursos financeiros – às vezes escassos, às vezes com dificuldades – para fazer viagens dentro do território nacional”, assegurou à data o governante, quando questionado pelos jornalistas presentes numa cerimónia da ANA no Aeroporto Internacional Cristiano Ronaldo.

Declarações Miguel Pinto Luz

Não obstante, nenhum diploma legal em vigor – nem o decreto-lei que estabelece o novo regime do SSM, nem a portaria que regulamenta a plataforma electrónica – fixa um prazo máximo obrigatório para o pagamento do subsídio. A lei limita-se a indicar que o pagamento ocorre quando o pedido está devidamente instruído e validado, sem consagrar qualquer garantia temporal.

Como tem sido divulgado, também pelo DIÁRIO, a polémica não se restringe aos prazos. Um dos pontos mais contestados é a exigência de não dívida à Autoridade Tributária e à Segurança Social como condição para aceder ao subsídio. Governos da Madeira e dos Açores unem-se nas críticas, defendendo que o SSM é um instrumento de coesão territorial e de mobilidade, e não um apoio social condicionado à situação fiscal dos beneficiários. Para os críticos, esta exigência introduz um factor de exclusão que pode afastar cidadãos que dependem do subsídio para se deslocar regularmente.

Ministro Pinto Luz vai à AR explicar mudanças no subsídio de mobilidade

O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, vai ao parlamento, com caráter de urgência, explicar as "alterações ao regime do Subsídio Social de Mobilidade" e a introdução de critérios de exclusão por dívidas ao Estado.

Outra alteração polémica é a redução do tecto máximo para viagens de sentido único, de 400 euros para 200 euros. A mudança afecta sobretudo passageiros que compram bilhetes apenas de ida, frequentemente mais caros, e é vista como um recuo no apoio à mobilidade, desfasado da realidade do mercado aéreo, especialmente em períodos de maior procura.

Apesar de a plataforma estar operacional, o regime prevê um período de adaptação até 30 de Junho de 2026, durante o qual o novo sistema coexistirá com os mecanismos anteriores, incluindo os reembolsos processados pelos CTT – sobre determinados tipos de viagem. O prazo de adaptação poderá ser prorrogado.

Plataforma para acesso ao subsídio social de mobilidade disponível até ao final do mês

As alterações às regras de atribuição do subsídio social de mobilidade entraram hoje em vigor e a plataforma electrónica para aceder aos reembolsos deverá estar disponível até ao final do mês.

Ou seja, a afirmação de que os residentes receberiam o reembolso em um a dois dias úteis deve ser entendida como um objectivo operacional do Governo da República, responsável pela gestão da nova plataforma electrónica, e não como uma garantia legal aplicável a todos os pedidos.

A afirmação é imprecisa: o prazo de “um a dois dias úteis” não está previsto na plataforma nem na lei. Pode acontecer, mas não é claro. Pelo contrário, a informação oficial aponta para validações que podem demorar até 7 dias úteis, tornando o reembolso dependente de um processo administrativo sem garantia temporal.