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As RUP e a Macaronésia. Que relação?

Janeiro é esse mês excessivamente confiante, convencido de que um simples virar de página tem poderes quase milagrosos. Prometemos tudo: mais disciplina, mais lucidez, menos adiamentos, decisões firmes e caminhos retos. Fazemos listas como quem acredita, por breves dias, que a vida se deixa domesticar por bullet points. Depois o entusiasmo abranda, o quotidiano impõe-se e as resoluções entram naquele território ambíguo onde nada falhou oficialmente, mas quase tudo ficou a meio caminho.

Ainda assim, insistimos. Porque o Ano Novo não é tanto um exercício de ingenuidade, mas de direção. Serve para perceber o que já não faz sentido continuar a empurrar com a barriga e o que exige atenção continuada, foco e vontade política antes que o tempo nos volte a passar à frente.

E talvez seja precisamente aqui que a metáfora deixa de ser pessoal e passa a ser coletiva. Há decisões que dizem respeito a territórios, a posicionamentos estratégicos e à forma como escolhemos estar, ou não estar, nos espaços onde o futuro se desenha.

O tempo não anda devagar. Quando damos por isso, os momentos verdadeiramente relevantes já estão em cima da mesa. Novembro de 2026 parece distante apenas a quem ainda se agarra a essa ilusão confortável.

É neste enquadramento que a próxima Cimeira Internacional da Macaronésia, a realizar-se na Madeira, previsivelmente (já) no mês de Novembro, conforme definido em Lanzarote, em Novembro de 2024, deverá ser encarada: não como um evento isolado no calendário, mas como uma resolução concreta e imediata de natureza política e geoeconómica. Trará expectativas, atenção externa e uma oportunidade singular de afirmação num espaço arquipelágico que partilha muito mais do que mar.

Convém clarificar: a Macaronésia contemporânea já não se esgota na afinidade da flora ou em notas de rodapé académicas. Hoje fala-se de cooperação política, de cooperação turística, de economia, de mobilidade, de cultura, de educação, de sustentabilidade aplicada e de estratégia comum. Quem olha para este conceito como se estivesse confinado a herbários, possivelmente não tem acompanhado os seus muitos pequenos “passos”.

No plano europeu, a questão é ainda mais pertinente. A União Europeia reconhece as suas Regiões Ultraperiféricas (RUP), incluindo Madeira, Açores e Canárias, na base jurídica dos artigos 349.º e 355.º do Tratado sobre o Funcionamento da UE, precisamente para mitigar desafios derivados da ultraperiferia e assegurar instrumentos adaptados de coesão e desenvolvimento. A discussão sobre o futuro Quadro Financeiro Plurianual tem levantado preocupações de que esse reconhecimento não seja adequadamente refletido no novo modelo orçamental europeu, algo que autoridades regionais e deputados europeus consideram um risco real para a coesão e para o potencial destes territórios.

Possivelmente, talvez esta seja, uma das resoluções que mais merecem ser levadas a sério: encarar a Macaronésia não como um conceito abstrato ou tema lateral, mas como um espaço estratégico de cooperação real e tangível que reforça a posição das RUP no seio europeu e sublinha o seu papel ativo enquanto agentes de integração, inovação e crescimento sustentável. Porque o futuro raramente espera por quem hesita. E quem chega tarde à conversa acaba, quase sempre, a ouvir decisões já tomadas.