Dois Candidatos, o Resto é Ruído
1. [Entre a sobriedade de Seguro e a direcção de Cotrim, escolho futuro]
Para mim, esta eleição presidencial é muito menos complicada do que a procissão de nomes e de poses que se empurram para a fotografia como se Belém fosse um palco de variedades. Há sempre aquele instante, quase comovente, em que o País finge que está a escolher um “pai” colectivo, um árbitro sereno, um homem providencial com ar de missa e vocabulário de homilia, e depois lá aparece o boletim com uma lista que parece tirada de uma folha de inscrição para uma corrida de sacos. E o mais português disto tudo é que até há candidatos que chegam a aparecer impressos e, na prática, nem contam, como se o Estado nos dissesse: “experimenta votar e logo se vê”. É este o clima. O resto é nevoeiro.
No meio desse nevoeiro, só dois candidatos me parecem verdadeiramente sérios e à altura: João Cotrim de Figueiredo e António José Seguro. Sérios no sentido útil, não apenas pelo ar grave, pela postura formal ou pelas frases feitas. Ser Presidente não é governar nem comentar o dia, mas usar o peso da instituição com prudência, e isso, num país habituado ao ruído, é quase coragem. Saber quando falar e quando se calar, reconhecendo que há silêncios que protegem a democracia e palavras que a podem prejudicar. O poder, quando justo, não precisa de se mostrar. E entende que o País é diverso, muitas vezes cansado, sempre mais complexo do que os discursos, feito de pessoas que trabalham, pagam, esperam, desistem e recomeçam, já sem paciência para sermões.
Cotrim e Seguro têm origens distintas, visíveis na linguagem, postura e relação com o Estado. No entanto, partilham uma qualidade rara: falam do País com realismo e seriedade, sem recorrer à encenação. Seguro destaca-se pela sobriedade, experiência e sentido institucional, características valiosas quando muitos confundem autoridade com barulho. Conhece o funcionamento do Estado e age com prudência, o que é essencial para evitar conflitos desnecessários e proteger a democracia dos excessos de ego e impulsividade.
Só que, dito isto com toda a clareza, por razões óbvias o meu voto vai para João Cotrim de Figueiredo. E vai porquê? Porque eu não quero um Presidente que se limite a pairar acima das coisas como um nevoeiro bem-educado, a distribuir pequenas frases sobre “união” e “equilíbrio” enquanto o País continua a emperrar nos mesmos sítios, com os mesmos vícios, o mesmo desperdício, a mesma conversa circular sobre “reformas” que nunca chegam. Quero um Presidente que empurre o debate para a frente, que trate liberdade e responsabilidade como coisas concretas e exigentes, não como “slogans” de cartaz, que fale de Cultura e Conhecimento como ossatura do País, não como ornamento para discursos de cerimónia, que não tenha receio de dizer ao sistema, com calma e sem histeria, que isto assim não chega. Quero alguém que entenda que há uma diferença entre “estabilidade” e “imobilismo”, e que Portugal tem sido demasiado bom a confundir uma com a outra, como se manter tudo igual fosse um sinal de maturidade, quando muitas vezes é apenas cansaço e medo de mexer naquilo que incomoda.
Os outros podem ter currículo, podem ter popularidade, podem ter o aplauso fácil de quem promete muito e explica pouco, podem ter aquela energia de feira que dá boas imagens e más soluções. Alguns vivem do protesto como modo de vida, outros vivem da nostalgia, outros ainda vivem da ilusão de que mandar é o mesmo que compreender. Mas eu não lhes vejo, no conjunto, a combinação de lucidez, estatura e sentido institucional que a função pede. Um Presidente não é um comentador com faixa, nem um disciplinador moral do País, nem um general de televisão, nem um agitador profissional. Um Presidente tem de ser, ao mesmo tempo, travão e bússola. Travão quando a política se descontrola, bússola quando o País se perde em ruído e em pequenas vinganças. E, entre os poucos que levo a sério, escolho Cotrim porque é o que melhor traduz aquilo que quero para Portugal: menos treta, mais rumo; menos frase feita, mais coragem tranquila; menos vício de mandar, mais exigência de funcionar. Porque, no fim, isto é o mais básico e o mais brutal: ou o País funciona, ou a conversa toda, por mais bonita que seja, não passa de literatura barata. E eu, para literatura barata, já tenho os noticiários.
2. [Um Empréstimo Para Pagar Empréstimos: A Farsa do Refinanciamento]
O Governo Regional anunciou mais um “refinanciamento”: fez um novo empréstimo para pagar antigos, trocando dívidas e prazos, mas a conta permanece, apenas com outro calendário e discurso.
Isto não é “estabilidade financeira”, nem “gestão responsável”, nem sequer aquela mentira pequena que, repetida muitas vezes, acaba por parecer verdade. É refinanciamento, ponto. E refinanciamento, dito sem perfume, é isto: trocar uma dívida por outra, como quem muda a capa a um livro que não leu, esticar o prazo, endireitar a gravata e declarar vitória, enquanto o mesmo peso continua dentro do mesmo bolso. O Governo Regional aprovou 186,7 milhões de euros, e a pergunta, sendo sempre a mesma, é para quê, para quem, com que destino. A resposta vem logo, discreta, como as verdades que ninguém quer ouvir: para amortizar empréstimos em vigor. Não é para reduzir o “stock”, não é para tapar o buraco que existe por baixo do tapete, não é para atacar a causa, é para pagar o que já devia com dinheiro novo emprestado, a velha rolagem, a velha manha de fingir que se avança quando apenas se muda de cadeira.
A prova não tem nada de metafísica, apesar de eles adorarem metáforas de virtude, e está no próprio enunciado como uma nódoa de café na camisa branca. Três financiamentos que somam exactamente o mesmo montante: 60 milhões de linha de crédito e dois empréstimos obrigacionistas de 55,1 e 71,6 milhões, 60 mais 55,1 mais 71,6, 186,7 milhões de euros, a aritmética a fazer de polícia num bairro onde toda a gente finge que não viu nada. Se contraio 186,7 para liquidar 186,7, a dívida não desaparece, muda de forma como um animal assustado, muda de prazo, muda de credor, muda de calendário e muda sobretudo de conversa, que é onde eles se sentem seguros, porque a conversa não paga nada, a conversa não pesa, a conversa não aparece na conta bancária. A essência fica, como fica o cheiro a humidade numa casa fechada.
Depois vem o discurso, que é uma espécie de missa laica com as mesmas palavras e a mesma fé de plástico. Dizem “reduz encargos com juros”, dizem “reforça a estabilidade”, dizem “protege o futuro”, dizem “cada euro é bem gerido”, e eu quase ouço o eco dessas frases em salas onde ninguém acredita nelas mas toda a gente as repete, porque repetir dá trabalho e pensar dá mais. Contudo, reduzir juros não é reduzir dívida, e qualquer criança percebe isto se lhe explicarem devagar e não a tentarem hipnotizar com adjectivos. Pode ser, na melhor das hipóteses, baixar a factura do mês e respirar, como quem afrouxa um nó na garganta. No pior, é adiar a conta, empurrá-la com o cotovelo para o canto, chamar-lhe prudência e seguir. E aqui a prudência tem 15 anos, que é outra forma de dizer: não me chateiem agora, falamos disto depois, quando já cá não estiver ou quando já ninguém se lembrar.
Há ainda o pormenor que eles escondem no meio da prosa como se fosse um defeito do papel. Uma parte é taxa variável, indexada à Euribor, e, portanto, a tal “estabilidade” depende do mercado e do humor das taxas, que não lê comunicados nem respeita secretários regionais, não tem patriotismo nem gratidão. E a taxa fixa dos obrigacionistas fica “para definir numa fase posterior”, isto é, ainda não se sabe quanto vai custar a sério, mas já se vendeu a ideia de que é barato, competitivo, quase um achado, como se o futuro fosse um balcão de saldos. Primeiro a narrativa, depois as condições finais, o método de sempre: anuncia-se a virtude, assina-se a realidade. Não se paga o que se deve.
E há a cereja, que aparece sempre quando se quer parecer competente sem o ser, a garantia do Estado, o aval da República, do Governo Central, de Lisboa, como se fosse um selo de qualidade colado em cima da ferida. Na prática, é transferência de risco, é a velha ideia de que, se correr bem, são génios prudentes, e se correr mal, há um fiador maior, isto é, o contribuinte, esse personagem sem rosto que serve para tudo e nunca tem direito de resposta. É fácil conseguir juros “bons” quando se mete a República a assinar por baixo, o mérito não é grande, é contabilidade política, é teatro com números, é valer muito pouco.
Portanto, a operação é isto: reestruturação de dívida, não liquidação de dívida, um arranjo de sala para a fotografia, não uma obra de fundo. Permite aliviar pressão imediata, comprar tempo, talvez melhorar condições contratuais, talvez, como quem muda a fechadura e chama a isso segurança. Mas não resolve o problema de fundo, não altera a dependência estrutural de viver com a dívida e de a renovar como quem renova uma licença anual, com a serenidade de quem já se habituou ao peso e até lhe chama companhia. O que muda é a prestação, não é a casa. E a conversa sobre “estabilidade” é isso, conversa, enquanto a dívida continua, o hábito continua, o regime de rolar dívidas continua, e a Região fica aplaudida por fazer aquilo que qualquer entidade endividada faz quando não consegue ou não quer reduzir o capital: solicitar outro empréstimo para pagar o anterior e esperar, como sempre, que o futuro seja mais simpático do que o presente.