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Vontade de viver

Chegamos à estação mais quente do ano, com festas e arraiais por todo o lado. “Para tirar a barriga da miséria da pandemia”, dizem algumas pessoas. Toca a vestir cores alegres, e esvoaçar por aí. Para nos sentirmos mais leves.

No entanto, a Terra continua a girar para além do nosso metro quadrado, e os problemas não são simplesmente eliminados pelos raios UV mais fortes.

De vez em quando, chegam-nos notícias de pessoas que desistem de viver. Algumas, até, figuras públicas que, dum dia para o outro, decidem partir pelas suas próprias mãos. E depois, instala-se a perplexidade.

“Ela era tão bonita e tão nova, e punha fotos tão giras no Facebook. Como foi capaz?”

“Era um rapaz tão novo, como é que é possível? Há quem queira viver e não consiga.”

“Tão novinha, tudo por causa dum namorado! O juízo!”

“Credo, um ator tão bem disposto e consagrado, não entendo.”

Ninguém sabe verdadeiramente o que se passa no coração e na cabeça de outra pessoa. Mas o sofrimento deve ser inqualificável para chegar a este ponto de perder completamente a perspetiva de viver. E logo vêm ao de cima as questões da saúde mental, das doenças não tratadas e subdiagnosticadas, do tabu e discriminação que ainda existe, dos vícios, etc..

No entanto, os tempos estranhos que vivemos pressionam-nos para sermos sempre positivos/as e felizes. Ou, pelo menos, que as outras pessoas pensem que estamos sempre assim. Temos que mostrar e dar o exemplo, às vezes com frases feitas, mesmo que naquele dia não estejamos bem. Os sorrisos nem sempre escondem o que vai na alma e transparece através dos olhos.

Tendemos a fugir a sete pés da nossa vulnerabilidade e sacudimos para debaixo do tapete as tais emoções negativas. Mostrar que não estamos bem é visto, por nós em primeiro lugar, como sinal de fraqueza. Vamos, então, vestindo armaduras e arrastando no tempo o que vai crescendo dentro de nós, e que poderia nunca tomar proporções preocupantes se nos permitíssemos sentir no momento, e soltar.

É normal não estarmos sempre bem. É normal sentir tristeza, raiva, inveja, insegurança, medo, e outros “bichos papões”, em determinadas alturas da vida. É normal termos dias ou períodos de escuridão. É justamente o que nos torna seres humanos capazes de empatia. É um dos principais motores da criatividade artística em tantas áreas, como a escrita, a poesia e as artes plásticas.

Nem sempre conseguimos canalizar dessa forma as emoções, nem somos sempre capazes de captar os sinais de quem está ao nosso lado, sem desvalorizar as tentativas de expressar o que lhes vai na alma. Mesmo que estejamos a fazer o nosso melhor. Nem sempre “vai ficar tudo bem”; pelo menos, naquele momento, para aquela pessoa, é impensável que fique. O “deixa-te de coisas que tens tudo, pensa positivo e desvaloriza” é um exemplo duma frase típica da positividade tóxica.

Não, não temos que mostrar o que não somos, nem estar constantemente a produzir algo, a bater recordes ou a ganhar prémios para provar ao mundo que somos pessoas felizes e capazes e talentosas e realizadas e cheias de ideias e de projetos... Ufa. De certa forma, a meritocracia também contribui para colocar às costas o peso do “tens que ter sucesso ou não vales nada”, o que não tem em conta tantas desigualdades estruturais que persistem.

E neste rodopio emocional, esquecemo-nos muitas vezes da pessoa mais importante da nossa vida: nós mesmos/as. A pessoa que merece o nosso amor incondicional, o carinho pelas cicatrizes e marcas da vida, e a aceitação do lado lunar. É a mesma pessoa a quem, muitas vezes, exigimos demasiado e não perdoamos as falhas.

Se cuidarmos de nós, se trabalharmos esta aceitação e autoconhecimento, seremos, com certeza, mais capazes de escutar, amar, ser amados/as, Ser, partilhar a vida com quem nos rodeia e com quem nos cruzamos, em toda a sua plenitude e diversidade.

E desta forma, estaremos, também, a dar o exemplo às gerações mais novas que precisam muito de espaço para serem quem são, de colo e de se sentirem ouvidas e aceites. Sem tantas pressões autoimpostas e/ou impostas pela sociedade. A vida é uma jornada da qual vale a pena desfrutar. Sejamos capazes de transmitir mais esperança, como o Verão que nos aquece. O mundo precisa.