Transformador da Noia – O Posto que levantou um povo

Por entre as paisagens humanizadas do verde vale de Machico resfolgava uma ilha de gente acorrentada às labutas diárias da terra, sem estradas, sem redes de água potável e sem luz elétrica tão fulcral ao desenvolvimento das suas condições de vida e ao progresso da maioria das populações da Madeira profunda. Carências que se juntavam à falta de escolas de todos os ciclos e à escassez de uma rede de cuidados de saúde de proximidade.

Com o clarão da alvorada do dia da liberdade de 1974, nasceu um novo caminho de esperança, uma nova escola política e de cidadania que, em poucos anos, alterou profundamente o rumo de um passado vergado aos ditames dos tiranos das terras e das quintas da Ilha. Essa escola, por terras de Machico, fez-se com todo o entusiasmo indispensável e decididamente assente sobre as amarras da história do seu passado, proporcionando aos moradores das zonas altas da freguesia poder reivindicativo, traduzido no superior direito à eletricidade publica e concretizado com a construção do Posto de Transformação de corrente elétrica do Poço do Gil.

Posteriormente foram construídos por Machico acima outros Transformadores, levando a eletricidade às populações do Caramanchão, da Ribeira Grande e Maroços, bem como à população do sítio da Noia, onde foi reforçado com a construção de um novo Posto de Transformação. De posto a Posto a iluminação publica chegava a todas as veredas mesmo àquelas que se sumiam entre as dobras das lombadas e os caboucos do vale. Veredas que depois de iluminadas continuam a contar histórias de vida do tempo da escuridão, do passado de tantas famílias destruídas pela ditadura dos senhorios e pelos infortúnios da má sorte. Neste registo, recordo a memoria da Rosa Perestrelo Noia, uma das mães destes lugares perdidos que, ao dar à luz, sucumbiu à vida na sua humilde habitação, sem eletricidade e sem estradas que lhe pudessem salvar a vida!

Mudar este estado de coisas era imprescindível acabar com estas situações, levantando do chão estas populações e garantindo-lhes uma nova realidade em termos de melhorias de condições de vida, alicerçadas na determinação e na resiliência. E a eletricidade como a sua instalação pelas habitações destas localidades foi, em bom rigor, a expressão maior das mudanças que se conheceram desde então, passando desde logo à substituição dos velhinhos candeeiros a petróleo por lâmpadas a encher de luz tudo o que era divisões e quintais das residências. De seguida, são substituídas as retretes imundas por casas de banho já equipadas com esquentadores elétricos. Os ferros de engomar aquecidos com as brasas sobrantes do arranjo do almoço ou da ceia passam a memórias futuras, dando lugar, aos ferros elétricos muito mais práticos e funcionais. As cartolas cilíndricas: as salmouras destinadas à conservação da carne do porco da festa, dão lugar aos congeladores e aos frigoríficos dos nossos dias, promovendo assim e a par com outras mudanças, melhores hábitos de saúde e de vida. Destas mudanças, destaco ainda, o aparecimento das máquinas de lavar roupa, as substitutas das gastas pedras das ribeiras usadas na lavagem das roupas aponteadas e encardidas pelo suor das canseiras da roda viva destas gentes.

Convenço-me, por fim, que a história dos verdes anos de democracia destas populações do vasto lastro da Madeira profunda não seria, impreterivelmente a mesma, sem toda esta revolução de fundo, iniciada com a construção e funcionamento dos Postos de Transformação e de iluminação publica, por todo o mundo rural madeirense.

Severino Olim

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