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Zen e a arte de velejar

No início desta história Olímpica, li um livro que relatava, na primeira pessoa, a odisseia de um alemão por terras do sol nascente e da sua experiência na arte do tiro com arco, a par da escola budista zen. Esse livro marcou-me profundamente, porque deu-me a conhecer uma realidade completamente desconhecida, mas que, estranhamente, fazia sentido. Foi dessa leitura, além de outras semelhantes que, juntamente com muito trabalho de equipa e pessoal, pude ter vislumbres do potencial que o ser humano tem de fazer coisas absolutamente perfeitas.

Durante alguns anos, vivi experiências difíceis de descrever, porque não consigo encontrar combinações de palavras que façam jus a esses episódios. Quase todas esses momentos, foram temperados pela maresia do mar, fosse num dia de calmaria ou na mais furiosa das tempestades. Mas as repercussões sentiram-se igualmente em terra seca, moldando-me profundamente.

Quis a vida que a inocência que tinha nessa altura, base para poder entrar num outro plano de consciência, se perdesse no mesmo momento em que me dei conta do que acontecia. E, acto contínuo, a cobiça surgiu e a magia desapareceu, seguindo-se uma longa travessia pelo deserto. Levou muito tempo até perceber o mecanismo, o processo, mesmo a química, inerente àquela “viagem”.

A vela, como modalidade Olímpica, evoluiu muito ao longo destas três últimas décadas. No ciclo para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a exigência física para poder velejar ao mais alto nível, impediu-me de conseguir viver o momento plenamente por mais do que fugazes instantes.

Foi só quando o windsurf adaptou-se ao foil que, de certa forma, pude voltar a sentir algo de tão extraordinário que, tornou supérfluas, as preocupações ordinárias. Levou algum tempo, é verdade, mas o certo é que hoje em dia, com boas condições, quando apenas sobra um leve zumbido de lâminas de carbono a cortarem fatias de mar, entramos como que em transe, porque o que vivemos, volta a ser mágico. E a arte de velejar, é novamente uma experiência mística.

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