Tensão diplomática na Venezuela e ‘boom’ migratório marcam relação Bogotá-Caracas
Enquanto as tensões na fronteira colombo-venezuelana aumentavam neste fim de semana e o Presidente Nicolás Maduro anunciava a rutura de relações com o país vizinho, em Bogotá o aumento da presença de imigrantes era notório nas ações mais quotidianas.
Nas ruas do centro da capital colombiana, os vendedores ambulantes de arepa colombiana, café, ‘bon ice’ - um tipo de barra congelada de vários sabores - e sumo de laranja, agora dividem o espaço com vendedores de arepa e empanadas venezuelanas.
A arepa, um dos pratos tradicionais da Venezuela e Colômbia, é uma iguaria de massa de pão feita com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido e empanada, popular em Espanha e em quase todos os países da América Latina, é o equivalente ao pastel português, uma preparação individual de massa de farinha recheada e assada em forno ou frito.
Nos trajetos do Transmilénio, o sistema de transportes públicos com faixa exclusiva, há migrantes que sobem em cada paragem para vender rebuçados, chocolates, bolachas e canetas, e também para cantar, fazer rimas de humor e, quando não têm nada para vender pedem esmola.
No autocarro número 7, que liga o centro ao noroeste de Bogotá, pelo menos seis pessoas podem entrar a trabalhar num trajeto que dura 45 minutos. São todas da nacionalidade venezuelana.
Islea Romero, 47 anos, vendedora de ‘bon ice’, disse à Lusa que as receitas aos domingos baixaram nos últimos dois anos, quando a migração venezuelana se acentuou.
“Antes eu vendia o carrinho inteiro e até tinha que recarregar. Agora, volto com a metade do produto”, lamentou.
Nascida na região rural do departamento de Tolima, Islea chegou há 30 anos a Bogotá e defende os venezuelanos que tomaram a mesma decisão.
“Eles também têm o direito, precisam trabalhar. A situação para eles está grave, está difícil que melhore”, acrescentou.
Para Jenny Rueda, 31 anos, nascida em o mais difícil é ver os pais e mães que vendem doce ou pedem moedas com seus bebés nos braços.
“Eles são profissionais, mas perderam tudo e vêm a sofrer para aqui, onde também não há oportunidade. Eu ajudo quando posso, dou um iogurte, comida, fruta. Dinheiro já é mais difícil”, disse Jenny, mãe de um menino de 9 anos.
Jenny Rueda também defendeu as ajudas humanitárias que tentaram entrar na Venezuela no último sábado, e lamentou que o Presidente Nicolás Maduro não as aceite.
“A população é a que mais sofre, que mais precisa”, destacou.
Camiões com doações de alimentos e remédios enviados por países que não reconhecem a Presidência de Maduro foram impedidos de entrar com a ajuda humanitária internacional nas fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia no passado sábado, em confrontos que deixaram pelo menos quatro mortos, cerca de 300 feridos e veículos apreendidos e queimados.
O envio de ajuda gerou polémica devido à falta de neutralidade dos envolvidos. O líder da delegação do Comité Internacional da Cruz Vermelha na Colômbia, Christoph Harnisch, afirmou em entrevista à revista colombiana Semana que esses recursos não deveriam ser chamados de “humanitários” por não cumprir critérios de imparcialidade.
O embate sobre as ajudas aumentou as tensões diplomáticas entre os dois países.
Após Maduro anunciar a rutura das relações, o governo colombiano informou que não a aceitava, porque reconhece a Presidência interina autoproclamada por Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional venezuelana.
No entanto, Bogotá ordenou o regresso ao país dos seus funcionários diplomáticos e consulares para “preservar a vida e a integridade”, segundo o chefe da diplomacia colombiana Carlos Holmes Trujillo.
As tensões também se notam no dia a dia. “Já entrou outro venezuelano. São ratos, vêm roubar”, acusou um homem de cerca de 70 anos no autocarro que faz a carreira número 1 do Transmilénio.
Abordado pela Lusa, não quis prestar declarações. Enquanto isso, um vendedor de chocolates cedeu o lugar sentado a um jovem que pedia esmola, com a filha pequena no colo. Ambos tinham sotaque venezuelano.
A estudante Daniela Oliveros, 19 anos, conta que já escutou rumores e viu notícias sobre roubos realizados por venezuelanos, mas que, em Suba, o bairro onde vive, a maioria dos migrantes procura trabalho.
“Por causa de uns que não têm princípios, os outros pagam, as pessoas ficam mais fechadas”, enfatizou.
À semelhança de Suba, outros bairros da periferia de Bogotá têm sido escolhidos pelos venezuelanos recém-chegados, devido ao custo de vida mais baixo em relação ao centro da cidade.
Há pelo menos 1,2 milhão de venezuelanos a viver em Bogotá, segundo os últimos números oficiais disponíveis.
Moradora de Ciudad Bolívar, bairro periférico ao sul de Bogotá, a também estudante Angie López recebeu a migração da Venezuela dentro da sua casa: a tia avó, colombiana que se havia mudado para o país vizinho durante os anos da violência política na Colômbia, está agora de volta com cinco filhos e dois netos.
“Ela já não tinha como sustentar o restaurante em Caracas, e esteve um tempo na nossa casa. Agora já conseguiram alugar um espaço para eles”, explicou.
Entre os anos 1950 e 1970, a violência na Colômbia e o ‘boom’ petrolífero na Venezuela contribuíram que fossem então os colombianos a deixar o seu país.
Devido aos distúrbios registados no sábado, a fronteira entre os países pelo departamento colombiano de Norte de Santander estará fechada até à próxima terça-feira, 26 de fevereiro.