Ex-ministro Arlindo Cunha “assustado” com assimetrias entre litoral e interior

Lisboa /
04 Fev 2018 / 03:01 H.

O antigo ministro Arlindo Cunha mostrou-se hoje “assustado” com as assimetrias no desenvolvimento do litoral e do interior e alertou que, se nada for feito, “daqui a menos de uma geração”, muitos dos territórios do interior podem desaparecer em termos populacionais.

“O nosso país como [um] todo está à beira do abismo. Está a dirigir-se para uma situação em que daqui a duas gerações, se calhar, podemos ser seis a sete milhões [de habitantes]. E, em segundo lugar, os territórios do interior, então daqui a menos de uma geração, podem muitos deles desaparecer em termos populacionais. É algo, de facto, assustador”, disse hoje Arlindo Cunha, que foi ministro da Agricultura de Cavaco Silva e ministro das Cidades de Durão Barroso.

O economista falava na IV Academia do Poder Local, que decorre na Guarda até domingo, por iniciativa do PSD e dos Autarcas Social-Democratas (ASD), onde abordou o tema “Descentralizar para promover um Portugal mais equilibrado”.

“Nós ainda nos habituamos a conhecer o país do interior, das montanhas, dos espaços verdes, das florestas, das aldeias típicas, da gastronomia, dos nossos valores, daquilo que tanto apreciamos. Pois, se nada fizermos, daqui a uns anos corremos o risco, [de] uma a duas gerações, de grande parte desse Portugal que nos marcou, e que marcou a nossa História, desaparecer”, alertou.

Arlindo Cunha considerou que esta é “uma questão gravíssima” e que, “infelizmente”, não vê, “em sucessivas abordagens políticas e Governos, a lucidez para olhar” para o problema.

“Eu fico assustado quando olho para um país como o nosso e vemos as diferenças que temos entre o litoral e o interior bem expressas agora nesta catástrofe da região centro, dos incêndios”, acrescentou.

Segundo Arlindo Cunha, nos últimos anos, o PSD “perdeu duas grandes bandeiras”: a da agricultura e a do mundo rural, que “perdeu para o CDS”, e a da descentralização, que “foi sempre uma matriz fortíssima de identificação do PSD” e que passou para o PS.

Com o novo líder eleito, Rui Rio, considerou que o partido “está em condições de voltar a levar” a bandeira da descentralização de competências do poder central para o regional, porque “é um fator identitário” dos social-democratas “desde o princípio”. “Era de Sá Carneiro, foi de Cavaco [Silva], foi de Mota Pinto e, de facto, se nós não o recuperarmos podemos ter o nosso próprio futuro hipotecado na forma como o país nos vai olhar”, alertou.

Na sua intervenção, o antigo ministro referiu ainda que o país tem “um poder local fabuloso”, mas os municípios têm uma escala limitada de ação e existem as Comunidades Intermunicipais, que são associações de municípios.

Em sua opinião, “tem que haver um órgão estruturado que pense uma região no seu todo”.

“E isso é o que nós não temos em Portugal, porque se não for assim, nós não somos capazes de criar políticas adequadas ao desenvolvimento da região, às suas especificidades” e instrumentos capazes de “criar ambientes de competitividade e atrair investimentos”, defendeu Arlindo Cunha durante a Academia do Poder Local, que decorre na Guarda até domingo, com cerca de 80 participantes de todo o país.

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