Desculpem, tenho de voltar à Democracia e ao Ferry...

09 Fev 2018 / 02:00 H.

Se há coisa me espanta neste regime político que entretanto se vai espalhado pelo mundo, leia-se Democracia, é o facto de os seus maiores protagonistas, os cidadãos, não exercerem o papel que lhes está atribuído e ainda, paradoxal e frequentemente, se queixarem dos políticos que elegem. Quero relembrar que a palavra Democracia, tem origem na língua grega, que etimologicamente significa que o poder, “Kratos”, pertence ao povo, “Demo”. Ou seja, a Democracia funda-se na soberania popular. Sabemos que o modelo representativo está a esgotar-se, sendo urgente que se caminhe para um modelo misto, isto é, representativo e participativo, antes de implantarmos em pleno a Democracia participativa, aquela onde se pretende que existam efectivos mecanismos de controle da sociedade civil sobre o exercício da acção governativa, não se reduzindo a acção do cidadão apenas ao voto, mas também à sua efectiva participação, trazendo a democracia para a esfera social. Será assim possivel que a legitimidade das decisões políticas derivem de processos de discussão que, orientados pelos princípios da inclusão, do pluralismo, da igualdade participativa, da autonomia e da justiça social, permitam uma reorganização do modelo de poder político tradicional existente. Curiosamente, as redes sociais, sem que para isso tenham sido especificamente criadas, começaram a prestar um excelente serviço a esta necessária transição, havendo páginas sérias, onde os cidadãos discutem certos temas e se organizam para a tomada de acções reividicativas. Veja-se a página do Facebook “Cruise ferry–Madeira”, que à data que escrevo conta com 29.177 membros. É um número que impressiona e que reflete não só o interesse que o assunto desperta, como também a noção do direito que está ser sonegado à população da Região Autónoma da Madeira. Ouvimos alguns protagonistas da política regional, dizer que a percentagem de residentes que utilizariam o ferry nas suas deslocações é pequena, pois não há o hábito de fazê-lo. Mesmo que esta avaliação estivesse correcta e não está, pois esquece-se que nunca houve qualquer subsidiação aos residentes à mobilidade por via marítima, os hábitos criam-se, particularmente quando está em causa um direito constitucionalmente consagrado, que se denomina continuidade territorial. Por outro lado, o condicionamento e/ou fecho do aeroporto da Madeira é cada vez mais frequente, agora em qualquer altura do ano, sendo altamente incomodativo para passageiros e lezivo da economia regional e mesmo assim, persiste-se em não criar outra alternativa ao transporte de passageiros. Com um ferry, que desloca 20 ou 30.000 toneladas brutas, o problema dos ventos que afectam o aeroporto, não causariam grande dano na maior parte das vezes. Assim, a existência de uma segunda opção para residentes e turistas, onde até aqueles que nunca sairam da ilha por terem “medo de voar”, poderiam fazê-lo, não é, obviamente, de desprezar. Não esqueçamos também a chamada “carga rodada”, com mercadorias, onde os produtos perecíveis chegavam ainda frescos e a preços comportáveis. E por fim o transporte de viaturas, que no caso das ligeiras, o valor a pagar ficaria concerteza, como ficava, a menos de um quarto do que hoje se paga para transportá-las através de frete marítimo. Já quanto à sustentabilidade económica-financeira desta operação, é evidente que se constitui menos arriscada se o operador das vizinhas ilhas canárias voltar, pois pode aproveitar, como aproveitava, todo o tráfego (passageiros, viaturas e carga rodada) decorrente da triangulação Canárias/Madeira/Continente português. Mas então porque raio não se contacta o armador “ARMAS”, e desta vez se oferecem os tais 3.000.000 de euros por ano de compensação, coisa que nos anos em que ele operou na Madeira nunca teve?

Fernando Rodrigues