Paris despede-se de Richard Demarcy, “poeta, intelectual e amigo de Zeca Afonso”

Paris /
24 Ago 2018 / 10:52 H.

O funeral do encenador e dramaturgo francês Richard Demarcy, “poeta, intelectual e amigo de Zeca Afonso” - nas palavras do filho Emmanuel Demarcy-Mota - realiza-se, hoje, no cemitério Père Lachaise, em Paris.

Richard Demarcy, que morreu no domingo, aos 76 anos, “foi o primeiro a escrever quatro peças sobre o que se passava em Portugal” durante o Estado Novo e teve “uma grande ligação” com José Afonso, para quem escreveu algumas canções, contou à Lusa o encenador luso-francês Emmanuel Demarcy-Mota.

“Ele tinha uma paixão pelos povos, pelas diferenças e pela poesia do mundo. Ele era poeta - para mim é um poeta - um intelectual, um grande amigo de Zeca Afonso e um grande amigo de vários povos do mundo”, contou o filho de Richard Demarcy e da actriz portuguesa Teresa Mota.

O também director do Théâtre de la Ville recordou alguns dos poemas que o pai escreveu contra a PIDE, em 1966, com o pseudónimo Jean-Claude Arcy, um ano antes de ir para Paris com a então mulher, Teresa Mota, obrigada a fugir por razões políticas e com quem viria a fundar o grupo de teatro experimental Naïf Théâtre, em 1972.

“Ele escreveu ‘Oh camarades, torturés par la PIDE’ sobre a polícia política que ele odiava e que eram monstros. Também escreveu ‘Aimer’ e ‘O Poder de Viver’. Escreveu com o nome Jean-Claude Arcy senão não podia entrar mais em Portugal e a Teresa podia ter problemas”, contou Emmanuel Demarcy-Mota.

Richard Demarcy participou nos acontecimentos de maio de 1968, foi secretário-geral do Théâtre de la Commune d’Aubervilliers e também viveu “a luta” do Maio de 68 a “declamar poesia nas fábricas” com Teresa Mota, irmã do fundador do Teatro da Comuna, João Mota.

“Com o Maio de 68, ele começou a luta ao lado dos poetas. Com a minha mãe declamavam poemas do Jacques Prévert. Eram poemas sobre a igualdade e a beleza do mundo e como devia ser partilhada por todos. Ele acompanhou também o Cohn-Bendit e era a favor de um movimento pacífico e contra todo o tipo de violência”, continuou o seu filho.

Exilado em França, José Afonso chegou a dormir na casa de Richard Demarcy, no 19.° bairro de Paris, altura em que o encenador “escreveu textos que o Afonso cantou” e em que ajudou a organizar a gravação de “Grândola, Vila Morena”.

“Quando o padre [Francisco] Fanhais esteve em Paris - o padre Fanhais que faz parte dos quatro que cantaram a Grândola Vila Morena que passou nas ondas portuguesas na noite do 25 de Abril de 1974 - ele falou com o meu pai, e o Afonso também, e foram gravar isso nos arredores de Paris numa noite”, recordou.

O dramaturgo também escreveu peças sobre a revolução portuguesa”, nomeadamente “A Noite do 28 de Setembro”, que inaugurou o Centro Dramático de Évora e que foi apresentada no Festival de Outono, em Paris, em 1976, “Les Vaches de Cujancas” e “Barracas 1975”, que foram apresentadas no Festival de Avignon, em 1977.

“Ele foi o primeiro francês, ou estrangeiro, a escrever quatro peças sobre o que se passava a nível político em Portugal. O Richard conseguiu que a cultura portuguesa, a história do país e da revolução, entrasse nas grandes instituições em França, nomeadamente, no Festival de Avignon e no Festival de Outono que são os dois maiores festivais, franceses e europeus, neste momento”, considerou Emmanuel Demarcy-Mota.

O seu pai foi, também, “o primeiro a introduzir Fernando Pessoa em França”, ao encenar a “Ode Marítima”, em 1989, “para fazer descobrir em França a força da poesia de Portugal, um país muito mal conhecido que toda a gente pensa que é um pequeno país da Europa e da emigração e que poucos conhecem a força dos seres e da poesia”.

Além da ligação a Portugal, Richard Demarcy continuou “o seu amor com outros países do mundo, com a poesia inglesa e com a paixão que sempre teve com África”, tendo trabalhado no Senegal, em Angola e Moçambique.

“O Richard é português, francês, africano, um cidadão universal. Lutou, sem nunca se queixar, contra a doença terrível. Ele nunca abandonou. Sempre acreditou que a vida era mais forte”, concluiu o também director do Festival de Outono, em Paris, que herdou do pai “o gosto do teatro e desta vida em que a poesia tem uma ligação com a política no sentido profundo da palavra”.

Em comunicado, o ministro português da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, lamentou a morte de um “autor poeta, que tinha na partilha e na palavra a inteligência e a sensibilidade do mundo”.

Também a ministra francesa da Cultura, François Nyssen, lhe prestou homenagem em comunicado: “Sensível às histórias e sensível às pessoas , ele soube maravilhar muitos espectadores com as encenações de contos e lendas e dos seus próprios textos, muitas vezes em ressonância com o século ou com os seus sonhos inspirados de Lewis Carroll, Rudyard Kipling ou Fernando Pessoa”.