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Um analgésico coletivo chamado crescimento

Não sei se por cansaço ou frustração, atingi o meu limite de tolerância em relação aos anúncios, essa nova forma de fazer política que os nossos governantes e as suas extensas máquinas de propaganda usam para distorcerem dolorosas realidades que advêm das suas próprias decisões. E indecisões.

O racional é sempre o mesmo: - pintar um quadro luminoso, sempre muito cor-de-rosa, com notícias sobre crescimento. Porque estamos sempre a crescer e em tudo, com a particularidade de, aqui na Singapura do Atlântico, no Valley das ilhas da Macaronésia, no Dubai com Laurissilva e praias de areia amarela artificial - tenho outras hipóteses mas faltam-me os caracteres para Vos dar a escolher mais – essas subidas constantes não terem nunca problemas associados.

Em Lisboa, por exemplo, que cresceu ao ritmo de quase 30 hotéis novos ao ano nos últimos tempos, vão fechar 900 restaurantes. Devem ser uns belos de uns burros, a malta da restauração na capital do império. Como é possível isso, com tanta mais gente a visitar a cidade?

Destinos como Veneza ou Barcelona querem fazer diminuir o número de cruzeiros que recebem. Mais umas bestas, que nunca calcularam convenientemente a receita que esta malta deixa nos destinos que visita e, ainda por cima, falam de pegada ecológica, pressão turística e cenas “twilight zone” afins. Então mais turistas não é sempre melhor?

As ilhas espanholas deparam-se com questões relacionadas com descaracterização e discutem as consequências de uma emigração massiva que inundou alguns sectores de actividade de pessoas com origens culturais muitíssimo diferentes das europeias. Não sabem integrar como nós, claro está, que estamos muito à frente também nesse domínio.

E o que dizer de destinos que não admitem a construção de campos de golfe porque, pasme-se, se apresentam como de natureza e entendem que intervenções desse tipo são sorvedouros de recursos naturais? Então não fica tudo verdinho? Mais natureza que aquilo não há, seus ignorantes!

Ironias à parte, devo estar a ser injusto, ingrato e anti progresso, já sei. Raio de mania de contrariar evidências e de insistir em que se perceba que o que se faz hoje tem impacto não só no amanhã. Então e as ocupações, preços médios e revpar’s?

Já terão percebido, os que ainda perdem tempo a ler estes mal-amanhados escritos, que sou efetivamente bastante limitado e de vistas curtas. Que ligo à preservação do património e dou importância a essas coisas menores como a História ou a Cultura. Que defendo que os destinos assentam sobretudo nas suas características naturais e nas pessoas que os habitam. Que não aprecio nem as Las Vegas nem os Dubais deste mundo. Que me irrito com quem tanto diz e tão pouco faz, com quem conscientemente omite (para não dizer que mente), escondendo a realidade embrulhada em anúncios, bastas vezes até incongruentes, como se percebe de cada vez que lá inventam mais uma taxa ou mais um imposto para nós pagarmos. Nós ou quem nos visita.

E assim vamos andando, nesta espécie de euforia do crescimento que tudo parece esconder e resolver. Até quando?